“É possível alcançar voos libertários cada vez maiores”, afirma Laerte

Por Aline Viana , especial para o iG | - Atualizada às

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Num bate-papo sobre criação, moda e sexualidade, quadrinista foi tema da primeira mesa da Balada Literária

Aline Viana
O quadrinista Laerte

Primeira mesa da oitava edição da Balada Literária, “Deus – homenagem ao cartunista Laerte” proporcionou ao público conhecer o homenageado desta edição, o cartunista Laerte, pelo olhar de amigos de longa data: o escritor João Silvério Trevisan, o quadrinista Angeli e o jornalista Sérgio Gomes.

Sérgio Gomes relembrou a participação de Laerte como cartunista dos jornais do movimento sindical do ABC, no final da década de 1970. “Essas greves não aconteciam se não havia informação circulando nas fábricas. O Laerte deu vida a um personagem chamado 'João Ferrador', criado pelo João Otávio.”

Na sequência, Angeli contou como foi a primeira conversa que teve com o colega, numa redação de jornal: “Ele sentou ao meu lado e falou ‘Oi, eu vou me casar’. E eu, riponga, comentei: ‘A gente está querendo acabar com o casamento e você vai casar?’. Ele respondeu: ‘Pois é, pois é’. Depois começamos a nos encontrar em salões de humor. Com a chegada do Glauco, formamos uma trinca”.

Aline Viana
O quadrinista Angeli

Angeli ainda falou sobre a inveja que sente do amigo pela facilidade com que ele compõe as tiras. “Você fica meses para pensar num quadrinho, daí ele estala os dedos e fala ‘acho que é assim’. Ele cria direto, sem rascunho. É isso que irrita. E ele faz isso sem nenhum pudor na frente das outras pessoas, o que deixa qualquer desenhista humilhado. Ver ele desenhar é um prazer. Aprendi muito vendo ele desenhar. E dividindo a parceria com o Glauco, acho que ele também aprendeu muito com aquilo, com a leveza do Laerte. O Laerte é um cara que me causa prazeres”, concluiu aos risos.

Laerte contestou em parte essa facilidade para criar. “Um cartunista uma vez me disse que (desenvolver uma) personagem é foda porque exige um mergulho na alma da personagem, e para isso você tem que mergulhar na sua própria alma. Eu achei essa formulação muito estimulante e explicativa. (A profundidade na criação das personagens) me faz invejar trabalhos como o do Angeli. Nesse seu sofrimento que você alega, ou manifesta, ter para criar, você vai a regiões de si mesmo que eu acho muito difícil alcançar. São mergulhos verdadeiros”.

Terceiro a falar na mesa, João Silvério Trevisan destacou a importância de Laerte para a comunidade GLTB. “Houve três terremotos sobre o tema no País: primeiro a eclosão da AIDS, que colocou a existência do homossexual na mídia – depois dela, ninguém mais poderia dizer que não conhecia. Depois foram as paradas gays, e com elas a discussão sobre a luta pelo direito de amar. E daí surge um cara vestido de mulher, que tinha sido comunista: era muita contradição numa pessoa só! Era uma contradição que me encantava porque sempre cultivei a necessidade da subversão. O Laerte não foi cooptado, ele decidiu (como se assumir). Ele é como se fosse um marciano que caiu de repente na realidade brasileira, realizando um bocado de coisas que a nossa realidade jamais comportaria. Ele levantou o meu ego.”

Ao final do depoimento de Trevisan, Gomes observou: “Não sei se isso de o Laerte representar os outros não é uma coisa exagerada, já que tudo isso está acontecendo depois dos 60, no sol poente da libido. O Laerte não está discutindo o masculino e o feminino. Acho que o que ele está colocando em evidência é o gênero humano”.

Laerte, então, arrematou: “Essa palavra ‘gênero’ circula de diversas maneiras: gênero masculino e feminino, fazer gênero, fazer pose, uma postura. Gênero de videolocadora, terror, suspense, arte, europeu... Eu realmente estou preocupado com a questão masculino/feminino porque eu estou preocupado com a minha trajetória nisso. O gênero humano me preocupa sim, eu quero uma abordagem que seja global, para toda a humanidade. Estamos falando de todo mundo, vitórias conquistadas em países como Argentina e Uruguai são vitórias em todo mundo. O casamento igualitário na Argentina teve apoio de 80% dos católicos, apesar do atual papa ter feito campanha contra”.

Sobre assumir sua sexualidade anos 60 anos, Laerte revelou que passou boa parte da vida reprimindo-se, ao mesmo tempo em que admirava o trabalho feito por Trevisan no extinto jornal “O Lampião da Esquina”. “O jornal circulava custando sangue e vida, eu acompanhava de longe e sem coragem para chegar perto. O exercício do meu desejo me deixou altamente em pânico e eu realmente recuei todo time pra defesa. ‘O Lampião da Esquina’ me fascinava e eu me sentia devedora.(...) Fico pensando, estou fazendo essa travecagem toda e eu podia ter feito tudo isso aos 20 ou aos 30 anos, minha bunda estava muito mais durinha (risos). Mas a gente não é onipotente, a gente faz o que pode”.

Tirinhas

Sobre as mudanças no estilo das tirinhas em que publica diariamente nos jornais, Laerte disse que o vetor da mudança foi justamente um leitor: “Um leitor escreveu que eu tinha retomado o caminho do humor verdadeiro (em contraposição às tiras mais filosóficas). Eu fiquei muito puta e comecei a republicar as tiras antigas como se fossem quadros de um museu, com as pessoas passeando por ali. Então comecei a fazer um processo de releitura do meu próprio trabalho”.

Por fim, Laerte comentou a evolução do seu visual como transgênero a pedido do mediador Joca Reiners Terron, que comparou, bem-humorado, as primeiras tentativas de Laerte com a aparência de “uma senhora da Alemanha Oriental pós-queda do muro de Berlim”: “Minha ignorância no quesito moda é atlântica. A moda faz parte dessa cultura bi-gênero. É um trabalhão descobrir qual é o anel que você curte, qual é o vestido que você gosta, como você fica com peitos. A gente culturalmente constrói várias coisas, inclusive os corpos. É possível alcançar voos libertários cada vez maiores, e é o que eu quero fazer”.

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