Pauliceia Literária: Scott Turow agrada ao falar de corrupção e maioridade penal

Por Aline Viana , especial para o iG |

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"O povo americano só acreditou que ninguém estava acima da lei quando 30 assessores do presidente Nixon foram presos", analisou o escritor na Paulicéia Literária

Aline Viana
Scott Turow na Pauliceia Literária

Na última palestra de sexta-feira (20) na Pauliceia Literária, o escritor norte-americano Scott Turow mostrou por que é um dos maiores best-sellers do país ao falar, sem apelar para o juridiquês, sobre sua atuação como promotor, corrupção, pena de morte, e, claro, sobre seus livros.

A fala direta Turow lapidou durante seus primeiros anos como promotor federal em Chicago. Ele notou que muitas vezes fazia explanações rebuscadas, mas que o júri não conseguia compreender o que ele dizia, de forma que foi simplificando seu discurso até tornar-se compreensível por um cidadão médio.

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Justamente por exigir que seja feita a passagem do idioma jurídico para a língua franca do país, a experiência com o júri estimula, na visão de Turow, que um advogado se torne um bom ficcionista, como explicou pela manhã durante entrevista coletiva.

Ao ser instado pelo mediador Artur Dapieve a dar conselhos sobre a importância de um país fictício combater a corrupção, Turow lembrou que, como promotor, atuou basicamente em casos que envolvia corrupção de advogados e juízes. A corrupção no meio jurídico era tão exacerbada em Chicago que bons profissionais evitavam a carreira de juiz. Com a punição dos maus juízes, houve, então, uma renovação do judiciário na cidade.

“Hoje se há más decisões, isso pode acontecer porque o juiz é estúpido, não porque ele é corrupto”, contou. Porém, até o caso Watergate (quando membros do governo dos EUA, a mando de Richard Nixon, espionaram o Partido Democrata), os norte-americanos eram tão céticos com a Justiça quanto os brasileiros:

“O promotor dizia que ninguém estava acima da lei, mas o povo só acreditou quando viram 30 assessores do presidente serem presos. Então, as pessoas passaram a se interessar pelo direito, sobre como funcionava esse mecanismo que permitia o impeachment de um presidente (no caso, Richard Nixon)”, analisou o escritor.

Sob sua atuação para o fim da pena de morte no Estado de Illinois, Turow argumentou que pesquisas comprovam que ela não inibe a criminalidade: “Assassinatos nos meu país ou no país de você são cometidos por jovens que não podem dizer o que farão daqui a uma semana, que dirá daqui a 30 anos. Se a pena capital conseguisse impedi-los, eu seria a favor, mas as pesquisas mostram que as pessoas se tornam assassinas porque matam por impulso, o que não significa que a sociedade não tenha o direito de puni-los”.

E continuou. “Qual é o pior crime: um triplo homicídio ou a morte de uma criança? Quando você pensa que as crianças são assassinadas pelos pais, percebe que a pena capital nunca pode ser administrada de uma forma tal que passe a mensagem que a sociedade gostaria”.

Sobre ter voltado a escrever sobre o Rusty Sabitch, protagonista de “Acima de Qualquer Suspeita”, em “Os Inocentes”, Turow contou que evitou fazê-lo para não ser reconhecido como um autor de “um personagem só”. Porém, a inspiração foi voltando aos poucos. “Vi um quadro de Edward Hopper, no qual um homem está num quarto com o olhar triste e tem uma mulher (na cama) sob o cobertor. Então escrevi um bilhete para mim mesmo: ‘O homem está sentado na cama onde repousa o corpo morto de uma mulher’. Esse homem tinha de ser o Rusty, então decidi que a mulher tinha de ser a esposa. Como eles poderiam ter chegado àquele ponto? Minha imaginação saiu correndo. Por isso nunca acredite quando um escritor diz que nunca irá escrever sobre algo”, concluiu bem-humorado.

Sobre seu novo livro, “Idênticos”, que será lançado no Brasil em 14 de março, ele diz ter se inspirado no mito grego dos gêmeos Castor e Pólux e no fato de sua mãe ter perdido um dos filhos gêmeos durante um parto: “Fiquei fascinado com o tema de gêmeos desde essa história (da perda de um dos irmãos no parto). Quando terminei ‘O Inocente’, alguém havia tido gêmeos idênticos e resolvi escrever sobre essa relação. Cass e Paul são gêmeos e a história começa quando Cass sai da cadeia após cumprir pena por ter matado a namorada e Paul está se candidatando à prefeitura. Daí, surge a questão se Paul também não estaria envolvido na morte daquela mulher”, revelou Turow.

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