Laurentino Gomes comanda "aula" animada na Pauliceia Literária

Por Aline Viana , especial para o iG |

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Autor abordou em palestra os mitos nacionais, as raízes da corrupção e seu novo livro, "1889"

Aline Viana
Laurentino Gomes na Paulicéia Literária

O jornalista Laurentino Gomes, autor da trilogia “1808”, “1822” e ”1889” (Globo Livros), protagonizou a mesa com a maior interação do público nesta Pauliceia Literária. A conferência teve uma longa sessão de “tira dúvidas” sobre a veracidade de mitos históricos, como a figura tragicômica de Dom João 6º, e também reflexões sobre o papel das manifestações populares no Brasil de hoje.

Laurentino destacou logo no início do debate que a história está sempre em construção. “Durante a ditadura militar, tínhamos uma história épica, marcial, bem exemplificada pelo filme ‘Independência ou Morte’, com o Tarcísio Meira e a Glória Menezes. Já o filme ‘Carlota Joaquina’, da Carla Camurati, reflete o período de abertura (democrática), onde há uma desconstrução dos heróis épicos, deixando os personagens mais caricatos”, explicou.

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Porém, o autor confirmou que o rei Dom João 6º era, sim, um sujeito glutão, o que não eclipsaria suas qualidades: “Napoleão viria a dizer que Dom João 6º foi a única pessoa que o enganou (ao fugir para o Brasil antes da invasão de Portugal) e eu encaro essa declaração como um elogio”.

O autor revelou que seu personagem histórico preferido é o estadista e poeta José Bonifácio de Andrada e Silva, que colaborou com o governo de Dom Pedro 1º: “Essa fórmula de Brasil grande, integrado e continental é um projeto dele. Ele é um homem com muita experiência de vida, que viu de perto dos tumultos da revolução francesa e percebeu o risco que era a multidão nas ruas com reivindicações políticas sem passar pelo crivo das instituições. Ele, junto com a imperatriz Leopoldina, auxilia Dom Pedro em momentos como o Dia do Fico, o 7 de setembro e quanto à contratação de mercenários (para lutar contra grupos contrários à independência)”.

Sobre a corrupção no País, Laurentino acredita que as raízes históricas estejam na formação das instituições do Estado brasileiro. “Esse rei (Dom João 6º) clona as leis portuguesas, a classe dirigente de Portugal e estabelece um ‘toma lá, dá cá’. Ao chegar ao Rio, em 8 de março de 1808, o rei ganha de um traficante de escravos a melhor casa da cidade e é esse homem um dos que mais irá enriquecer no País. Foi ali que se começou a criar quem somos hoje, eu diria, para ficar na corrupção, que esse é um país muito centralizado. Quando o Estado é muito forte, ele é muito permeável à corrupção porque o sucesso ou o fracasso dos negócios dependem dele. Então você seduz o Estado (na época, o próprio rei) para conseguir alcançar suas coisas.”

Ao final de seu último livro, “1899”, Laurentino faz uma reflexão sobre como o Brasil atual se conecta com aquele momento histórico.

“Em 1889, o regime muda, mas a forma como o País continua segue praticamente a mesma. Isso só vem a mudar em 1984, com a Nova República, com o povo nas ruas pedindo o direito de voto. E aí acontecem coisas curiosas nessa segunda proclamação da república: temos a constituinte de 1988, que refaz a carta magna, numa repactuação do sistema republicano; e em 1993 temos o plebiscito para estipular o regime de governo, promessa que data de Benjamin Constant na Proclamação da República. Tudo o que aconteceu desde então é um questionamento sobre qual Estado republicano queremos em Brasília (DF)."

E continua. "Isso aparece nas manifestações de rua, que são uma grande busca por entender o que é o Brasil e em busca de representatividade; (entender) qual é a prerrogativa do Supremo, do Congresso, se pode ter medida provisória. O que podemos fazer nesses menos de 30 anos de democracia é nos por de acordo quanto às regras republicanas que nós reconhecemos como legítimas. São 200 milhões de pessoas querendo pactuar o futuro nas urnas e tem muita frustração nesse caminho: põe o Collor, tira; põe o Fernando Henrique, põe o Lula, a Dilma… e parece que é muito lento. O caminho anterior era o do salvador da pátria, como o Getúlio. Agora estamos num período de fortalecer a democracia, mas não vai ser tão rápido quanto a gente imagina”, concluiu.

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