Leia trechos de "Morrer de Prazer", novo livro do escritor Ruy Castro

Por iG São Paulo | - Atualizada às

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Obra é a mais pessoal do autor; veja as passagens selecionadas pelo iG

Acostumado a biografar personalidades, o escritor e jornalista Ruy Castro, 65 anos, lança "Morrer de Prazer", seu livro mais pessoal. Com franqueza, fala sobre assuntos difíceis, como a luta contra o alcoolismo e o tratamento médico para vencer um câncer, e reflete sobre temas cotidianos.

Leia alguns trechos de "Morrer de Prazer":

"Aos 39, eu já tinha saído não só da casa de meus pais como de dois casamentos e 12 empregos, e morado em dez endereços de quatro cidades em dois continentes. Era só no que os garotos da minha geração pensavam – jogar-se à vida, longe da saia materna ou da mesada paterna."

Entrevista - Ruy Castro: "O que chamam de nostalgia, chamo de cultura"

"Namorar na praia era quase um ménage à trois entre o rapaz, a moça e a areia, embora eu não tenha nenhuma recordação dolorosa daquelas pequenas noites de loucuras ao ar livre. Ao contrário. Apesar da pressa, do medo do guarda e da sensação de proibido – ou por isso mesmo -, a volúpia e plenitude ao fim de casa sessão eram avassaladoras."

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Capa do livro 'Morrer de Prazer', de Ruy Castro

"Inferi que, em algumas cidades, a vida é dentro. E que, em outras – o Rio, por exemplo -, a vida é fora. Pode-se estender o conceito a muitas categorias, com direito a escolha, como a de que a vida é hoje, ontem ou amanha; de que a vida é agora ou nunca; ou de que é um amistoso ou a valer três pontos. Tudo vale. Mas, sob qualquer das possibilidades acima, a vida seria muito melhor se tivéssemos mais tempo para pensar nela. Mas não dá, porque a vida, quando acordamos para ela, é depressa demais."

"Para os que ainda não chegaram a ela, 'melhor idade' é quando você pensa duas vezes antes de se abaixar para pegar o lápis que deixou cair e, se ninguém estiver olhando, chuta-o para debaixo da mesa. Ou, tendo atravessado a rua fora da faixa, arrepende-se no meio do caminho porque o sinal abriu e agora terá de correr para salvar a vida. Ou quando o singelo ato de dar o laço no pé esquerdo do sapato equivale, segundo o João Ubaldo Ribeiro, a uma modalidade olímpica."

"Um cinema que fecha é uma calçada, um pipoqueiro e uma fila a menos numa cidade. É mais um quarteirão sem luzes, sem movimento noturno e sem possibilidade de encontros, amigáveis ou amorosos. É um lugar a menos para flanar, para fazer hora, até para paquerar. E é também um cenário a menos para que os jovens descubram e toquem ideias sobre cultura, história, comportamento."

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"Nostalgia é atraso – chega de saudade, eu sempre disse -, e os anos dourados do Rio são os de qualquer pessoa que more ou tenha morado aqui entre os seus 20 e 30 anos em qualquer década, inclusive a nossa. O passado não me deve nada e estou muito contente com ele, mas nenhum garotão de hoje será tolo de trocar sua juventude pela minha."

"Entre um gole e outro naqueles bares elegantes, mots d'esprit sobre literatura, política ou jornalismo cruzavam o ar em três ou quatro línguas, tendo ao fundo, em surdina, perfeitos Cole Porter, Stephen Sondheim ou Tom Jobim. Beber apenas fazia parte da liturgia. Impossível imaginar que, nos cinco anos seguintes, até 1988, esse cenário de glamour fosse sendo substituído pelo beber solitário, a qualquer hora, em qualquer ambiente, em qualquer companhia e, não por último, pelo beber qualquer coisa. E isso não obedeceu a um declínio financeiro ou profissional – ao contrário. Seguiu apenas uma equação formulada havia séculos pelos chineses e que aprendi com F. Scott Fitzgerald, mas nem eu nem ele levamos a sério: você toma um drinque; depois, o drinque toma um drinque; por fim, o drinque toma você."

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