“O ensaio é uma viagem epistemológica”, definiu Geoff Dyer na Flip

Por iG São Paulo , especial por Aline Viana | - Atualizada às

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Na mesma mesa no último dia de Flip (domingo, 7), John Jeremiah Sullivan contou sobre o processo para escrever seu famoso ensaio sobre Michael Jackson

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Geoff Dyer

Os norte-americanos John Jeremiah Sullivan, autor de “Pulphead”, e Geoff Dyer, de “Todo aquele jazz”, apresentaram no domingo (7) na Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) uma versão mais descontraída do ensaio, estilo mais conhecido no Brasil por seu uso acadêmico.

“Quando estamos na escola, fazemos redação, que é uma espécie de ensaio. (O estilo) está na moda, mas eu faço isso há 35 anos. Nunca parei de fazer a lição de casa – o que, de certa forma parece mais uma sentença do que uma profissão”, brincou Dyer. “Escrever ensaio é uma forma de ter disciplina de continuar a aprender sobre coisas que me interessam. Ensaio não é para especialistas, pode ser feito por amadores", explico defendeu o autor de “Todo aquele jazz”.

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Sullivan concordou com o Dyer e acrescentou que: “a confusão do ensaio (que combina criação literária e a reflexão teórica) é parte do que atrai nesse estilo, que é um pouco solto e funciona bem para amadores. (O filosófo francês Michel de) Montaigne, quando inaugura o ensaio, inclusive, recebeu muitas críticas justamente pela leveza de seus textos”.

Dyer ainda observou que associa o ensaio a não especialistas porque a vida acadêmica direciona o conhecimento para uma determinada área, enquanto o ensaísta tem a liberdade de a cada vez escolher um assunto diferente para trabalhar.

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Foi a partir da curiosidade e paixão pelo jazz, que Dyer escreveu seu primeiro livro, sem nem imaginar que aquilo que escrevia se chamava “ensaio”. “A melhor forma de saber mais sobre um assunto ainda é escrever um livro sobre ele”, disse. Era 1989 e ele estava fascinado pela possibilidade ouvir música em seu walkman: “Era uma inovação tecnológica: em vez de ouvir música na sala de casa, você podia andar com a música dentro da sua cabeça”, contou.

Ele foi à Nova York, onde estavam os músicos de jazz para pesquisa do livro: “Não fiz nenhuma entrevista porque eu não tinha ideia do que estava fazendo. Fui aos shows dos músicos de jazz e eles são deuses míticos, mas não são superstars como Mick Jagger. Fui ao banheiro e fiquei ao lado de Charlie Haden (um famoso contrabaixista)”. O resultado é um livro que, já foi definido, como uma mescla ensaio e ficção e que lembra um improviso típico dos grandes mestres do jazz.

Dyer, o mais falante da mesa, ainda comentou que não gostou de uma crítica ao seu livro “Ioga para quem não está nem aí”, que apontava a obra como um livro de ensaio para viajantes, de uma forma que, segundo o autor, sugeria a pouca complexidade dos textos. “Para mim todo ensaio significa uma viagem: é uma jornada que vai da ignorância e da curiosidade ao conhecimento. É uma viagem epistemológica. E o leitor compartilha desse processo de viagem junto com o autor”, argumentou.

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John Jeremiah Sullivan

Já Sullivan contou sobre sua experiência de procurar um novo viés ao escrever sobre Michael Jackson. O texto era para uma revista e ele ainda teria algumas semanas para entregar o material. “O Michael era o homem mais famoso da Terra. Tudo quer era dita sobre ele era tão igual e superficial. Houve a oportunidade de escrever sobre ele de uma maneira que eu ainda não tinha visto. Foi interessante esquecer que ele era uma celebridade: pensei em contar a história de alguém que começa de uma forma semelhante, mas se torna um fracasso. Foi a partir daí que achei meu ponto de vista, vendo todos os detalhes da vida dele. Ninguém perguntou ao Michael se ele queria ser famoso. Quando ele se tornou consciente de quem ele era na vida, ele já era famoso. Isso era muito mais interessante para mim, do que o que eu estava vendo na televisão”.

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