Miltom Hatoum é aplaudido de pé em palestra que discute as manifestações

Por iG São Paulo , especial por Aline Viana |

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Na mesa de encerramento da Flip, o filósofo Vladimir Safatle e o tradutor Mamede Mustafá Jarouche falaram de suas experiências com os conflitos da primavera árabe

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Mamede Mustafa Jarouche

A ausência do poeta e ativista político egípcio Tamim Al-Barghouti foi compensada pela presença de três autores descendentes de árabes e que possuem uma estreita ligação com àquela cultura: Vladimir Safatle, o tradutor Mamede Mustafá Jarouche e o escritor Milton Hatoum. Eles participaram da mesa de encerramento da 11ª Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) neste domingo (7).

Antes do início das discussões, o mediador Ángel Gurría-Quintana, leu uma carta enviada por Barghouti ao público. O texto lamentava a ausência provocada pela perda do passaporte pelo autor e agradecia de forma emocionada o empenho de diplomatas brasileiros e da equipe da Flip em tentar contornar a situação.

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Mamede contou que estava no Egito quando a primeira onda de protestos aconteceu no país em 2011: “Quem confrontou a polícia foram os jovens. Daí fica aquela ilusão de que a revolução foi apenas uma coisa de jovens, claro que não foi apenas de jovens. Mas o confronto físico, que foi a base do desafio, foi feito basicamente pela juventude. Eu não vi muito pessoas mais velhas, mas havia muito camponês e muito operário. Havia uma unanimidade sobre a necessidade de depor o presidente do Egito. Foi um momento que eu jamais vou esquecer: talvez tenha sido um dos momentos mais tocantes que eu tive na vida, de ver uma revolução em processo, uma revolução que ainda está em processo. E a gente sabe que revolução é um processo que não acaba nunca. A revolução é um processo contínuo e um dia ela muda de rumo”.

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Vladimir Safatle

Já Safatle viajou ao país especificamente para acompanhar a situação um ano após o início dos conflitos. O filósofo observou que a mídia ocidental, ao noticiar os conflitos, não procurou ouvir os intelectuais do país. “Todas as análises publicadas pela imprensa ocidental eram de professores da Europa e dos Estados Unidos. Ninguém foi ouvir os intelectuais de lá. É um bloqueio de narrativa perverso, pois só alimenta caricaturas e estereótipos”.

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Diante de um questionamento da plateia sobre porque não havia “poesia do vinagre”, oriunda das manifestações brasileiras, enquanto existe uma produção cultural ligada à primavera árabe. Safatle avaliou que isso se deve ao fato de a produção cultural brasileira estar interligada a interesses econômicos: “Uma das razões talvez seja uma interconexão entre o universo da cultura e o universo do entretenimento. No fundo, as grandes decisões sobre cultura (no Brasil) são tomadas pelos departamentos de marketing das grandes empresas – são eles que acabam financiando a cultura nacional”.

Como exemplo, o filósofo citou o caso de uma exposição da fotógrafa Nan Goldin, que teve o patrocínio cancelado porque a empresa responsável julgou que aquele trabalho seria prejudicial à sua imagem. “Nós levamos esse processo ao extremo e isso tem um impacto no interior da produção. (..) É necessário escapar desse tipo de situação para que a criatividade da cultura brasileira possa ser ouvida da forma como merece ser ouvida”, concluiu Safatle sob aplausos da plateia.

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Milton Hatoum

Milton Hatoum fechou a mesa lendo o trecho final de uma crônica sua, “Estádio novo, miséria antiga”, publicada em 2012 e que critica a demolição de um estádio em Manaus para a construção de um outro, em razão da Copa, com a mesma capacidade de público:

"Construam obras colossais e faturem montanhas de ouro! Superfaturem tudo: desde a demolição até a pintura dos camarotes da CBF e patrocinadores! Joguem no entulho e nos esgotos a céu aberto a dignidade e a esperança do povo brasileiro. Enterrem de uma vez por todas a promessa de cidadania! Caprichem na maquiagem urbana e escondam (pela milésima vez) a miséria brasileira, bem mais antiga que o futebol. E quando a multidão enfurecida cobrar a dignidade que lhe foi roubada, digam com um cinismo vil que se trata de uma massa de baderneiros e terroristas. Digam qualquer mentira, mas aí talvez seja tarde. Ou tarde demais".

O público da tenda dos autores aplaudiu de pé a leitura.

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