“Graciliano procura o silêncio que valoriza a palavra”, analisa Lourival Holanda

Por iG São Paulo , especial por Aline Viana |

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Também participaram da conferência os críticos Wander Melo Miranda e Erwin Torralbo Gimenez para debater sobre o escritor alagoano homenageado na Flip 2013

AE
Graciliano Ramos em sua escrivaninha, em foto de 1981

A primeira mesa da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) desse domingo teve como tema “Graciliano Ramos: políticas da escrita” e contou com a participação de Wander Melo Miranda, autor de “Graciliano Ramos”; Lourival Holanda, autor de estudos sobre cultura e literatura; e Erwin Torralbo Gimenez, pesquisador responsável pelo Arquivo Graciliano Ramos do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo. O encontro teve a mediação do escritor José Luiz Passos.

Passos iniciou o debate declarando que o desafio do escritor é produzir um texto político, sem ser panfletário. Miranda lembrou que Graciliano Ramos, sobre esse assunto, defendia que havia margem de manobra dentro desse objetivo: “entre os estreitos limites da gramática e da lei, podemos nos mover!”. Um dos instrumentos de Graciliano para alcançar esse fim, segundo Miranda, era a ironia: “a linguagem pode dizer o contrário do que diz”, observou.

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Lourival Holanda destacou passagens do livro “Infância”, de Graciliano. Nessa obra, o autor revive sua experiência dolorosa e revela uma percepção do mundo marcada pela rispidez e violência, por outro lado, o crítico aponta que é nesse momento que nasce a sensibilidade do autor alagoano. “A infância é o país de quem escreve. Graciliano compara a escola a uma prisão. Todas as escolas são prisões porque elas se transformam em um sistema e depois em doutrina. A doutrina é o contrário da inteligência”, comentou Holanda.

Passos pediu que Miranda comentasse a seguinte citação de Graciliano: “Na escuridão percebi o valor das palavras”. O professor então revelou que, criança, Graciliano teve uma crise de oftalmia, que o deixou vários dias sem conseguir enxergar. “A mãe, de forma cruel, o apelida de bezerro encourado e cabra cega. Nesses dias ele escuta o que está passando na rua e as vozes dentro de casa. Ele consegue articular essas vozes na sua obra”, explica Miranda.

Gimenez acrescenta: “Esse episódio da cegueira, relatado em “Infância”, também tem uma dimensão metafórica: ele perde a dimensão dos objetos nítidos, mas mergulha no mundo da subjetividade. Ele percebe que a realidade tem dimensões outras, não é apenas um realismo estéril”.

Sobre o estilo de escrita considerado “seco” de Graciliano, por evitar o uso de adjetivos, Holanda aponta que o autor fazia uma crítica ao estilo vigente em seu tempo: “No momento em que o Graça escreve, a cultura brasileira é excessivamente palavrosa, então, ele faz o debaste. Graciliano procura o silêncio que potencializa o que vai ser dito”.

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