Daniel Galera e Jérôme Ferrari dissecam seus romances para o público

Por iG São Paulo , especial por Aline Viana | - Atualizada às

compartilhe

Tamanho do texto

No último dia de Flip, que terminou neste domingo (7), os autores comentaram sobre as passagens de suas obras com mediação de Noemi Jaffe

Divulgação
O escritor Daniel Galera

Entrando na reta final da 11ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), o brasileiro Daniel Galera, autor de “Barba manchada de sangue”, e o francês e Jérôme Ferrari, que escreveu o “Sermão da queda de Roma”, fizeram uma conferência perfeita para aficionados, tal a especificidade das informações que os autores ofereceram sobre seus trabalhos.

Galera revelou, por exemplo, que o fato de seu protagonista em “Barba” não ter nome foi a única forma que encontrou para conseguir narrar a história, além de ser uma influência da obra de João Gilberto Noll. A decisão implicou em desafios, como atravessar as mais de 400 páginas do romance sem que nenhum outro personagem o chamasse pelo nome.

O autor gaúcho disse que o primeiro gatilho para a escrita do romance foi ter descoberto uma doença chamada prosopagnosia, caracterizada pela incapacidade de reconhecer rostos. O protagonista é portador dessa doença e por conta disso precisa desenvolver estratégias diárias para reconhecer as pessoas. “Eles usam muito as mãos para reconhecer as pessoas. Há pesquisas que discutem se há uma região do cérebro específica para reconhecer as pessoas. Então, o meu personagem aprendeu a ser mais atento a detalhes. Uma das razões para as descrições do livro serem muitos detalhistas é que tento descrever o quanto ele estaria atento”, explicou Galera.

O protagonista de “Barba” se separou recentemente da namorada, sofre com a morte recente do próprio pai e teve um avô morto em circunstâncias não esclarecidas em Garopaba, no litoral gaúcho. Um avô que ganha ares de lenda naquela cidade. “Gaudério (o avô) se torna uma lenda local. Um dos jogos imaginativos do romance é que na tentativa de descobrir o que aconteceu com o avô, sabemos no prólogo, pelo sobrinho do protagonista, que ele também se tornou uma dessas figuras míticas. (O livro) é um pequeno estudo sobre como um aspecto mítico pode brotar de uma vida corriqueira e banal, de um personagem que simplesmente foi procurar o seu lugar no mundo”, descreveu Galera.

Divulgação
Jérôme Ferrari

Já Ferrari, em “O sermão sobre a queda de Roma”, recorre a um texto em que Santo Agostinho observa que todas as construções do homem são efêmeras, até o império romano. “Ele conclui que tudo que é eterno é de Deus. Porém, ele, na verdade, tem a sensação dolorosa e até intolerável, que é no domínio da terra que as coisas realmente acontecem”, analisa o escritor. Os efeitos trágicos que podem surgir com a realização de um desejo também perpassam a obra do francês: “Meus personagens são vítimas da realização dos seus desejos. Podemos apresentar um personagem que tem uma série de projetos que fracassam ou um que sofra por ter seus desejos realizados. A minha ideia é que quando o desejo é realizado, ele não corresponde à imagem (que fazemos) da realização do desejo”.

Embora a tragédia espreite a dupla de protagonistas de “O sermão”, Ferrari diz que tem a consciência tranquila: “(O sofrimento dos personagens) não me atinge. Não acredito em uma função terapêutica da escrita. Os problemas dos meus personagens são deles. Mas tenho a impressão que meus leitores acham que tenho tendências suicidas ”.

Leia tudo sobre: Flip 2013FlipDaniel GaleraJerome Ferrarilivros

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas