Autor de "Festa no Covil" lança novo volume em setembro e renega narcoliteratura

Por iG São Paulo , especial por Aline Viana |

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"A narcoliteratura é uma questão de etiqueta e, para mim, mais uma questão de marketing do que literária", fala o escritor Juan Pablo Villalobos ao iG; segundo livro da trilogia será lançado no Brasil em setembro

Aline Viana
Juan Pablo Villalobos

Em um sábado de sol intenso em Paraty, o escritor mexicano radicado no Brasil Juan Pablo Villalobos recebeu a reportagem do iG durante a 11ª Flip (Festa Literária Internacional de Paraty). Villalobos é autor de “Festa no Covil” e conversou sobre seu primeiro romance, seu processo de escrita, as semelhanças entre seu México natal e o Brasil e o processo de adaptação de suas obras para o teatro e o cinema.

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O mexicano foi escalado de última hora para substituir o norueguês Karl Ove Knausgård na “mesa Ficção e Confissão”, que aconteceu na sexta-feira (5). Sobre sua atuação com Tobias Wolff na palestra, Villalobos disse o seguinte: “Achei que a mesa foi descontraída e divertida. É possível ter uma forma maneira mais descontraída de abordar os temas, sem perder a profundidade. Não é preciso ser solene para ser profundo. Isso é o que eu tento fazer também com a minha literatura”.

Leia mais: Tobias Wolff e Juan Pablo Villalobos discutem a ficção e realidade na literatura

Leia a entrevista na íntegra:

Divulgação
Capa de "Festa no Covil"

iG: Como você definiria o seu romance “Festa no Covil”?
Juan Pablo Villalobos: É um romance de iniciação, um romance sobre a aprendizagem de uma criança na realidade na qual ela mora. É uma realidade muito radical porque ela é filha de um traficante. E através da vida de Tochtli (coelho, na língua asteca) o leitor vai conhecer um pouco da realidade do México. A casa onde o Totchtli mora é uma espécie de metáfora do que acontece no país.

iG: O seu trabalho também é reconhecido como fazendo parte de uma narcoliteratura. Você se reconhece nesse rótulo? Há outros escritos seus com essa temática?
Juan Pablo Villalobos: Não. A narcoliteratura é uma questão de etiqueta e, para mim, mais uma questão de marketing do que literária, (serve) para etiquetar os livros que falam sobre o tráfico e a violência do tráfico. Não gosto muito de etiqueta e prefiro falar em literatura da violência, há diferentes tipos de violência no México, não só a ligada ao narcotráfico. Mas, é inevitável que essa etiqueta seja usada para falar de “Festa no Covil” porque o protagonista é um filho de um traficante. Mais que uma narconovela, é uma história de um filho e seu pai e de como esse pai tenta educar o filho, apesar de ser um traficante.

iG: O tráfico é um problema bastante intenso no Brasil. Você vê outros pontos de contato entre o Brasil e o México? Isso já influencia a sua literatura?
Juan Pablo Villalobos: De um ponto de vista social, político e econômico, são países similares e com realidades e problemas parecidos. A desigualdade e a dificuldade de acesso a questões de trabalho, saúde e educação são parecidas, mas o jeito como cada um dos países está tentando lidar com as situações é diferente. Escrevi “Festa no Covil” em 2006, quando eu morava na Espanha (onde viveu por oito anos), e eu moro no Brasil há um ano e meio. É possível que o Brasil se torne uma influência nos próximos romances, mas nesses primeiros não.

iG: Você mencionou na sexta, durante a palestra com o Tobias Wolff, ter tido dificuldades para encontrar a voz narrativa de “Festa no Covil”. Como foi esse processo?
Juan Pablo Villalobos: É uma busca, ou seja, o processo de escrever um livro é o processo de encontrar essa voz narrativa e experimentar. Por exemplo, agora eu estou escrevendo o meu terceiro romance e já tinha 200 páginas. Aí um dia li essas duzentas páginas e falei: não é isso o que eu quero; e essas páginas foram para o lixo. “Lixo” porque todo trabalho que você está fazendo fica, de uma certa maneira, na seguinte versão. Tem frases que passam, tem ideias, novos argumentos, novos motivos, novos desenvolvimentos do enredo que você não tinha pensado. Todo esse material acaba se reciclando e acaba convertido em outra coisa na nova versão. O meu segundo romance eu escrevi sete vezes. A cada vez que eu escrevia ia mudando, virando outra coisa, mas tudo o que eu já tinha trabalhado ia sendo aproveitado nessas novas versões. E no caso de “Festa do Covil” tentei várias outras vezes, mas quando tentei a voz de Totchili (como narrador) pensei: “É isso”. É difícil saber quando você está errando, quando não é aquilo que você quer, daí você vai na frente, vai na frente, continua pensando, na dúvida, até que chega um ponto em que você fala “não é”. E quando chega o momento em que você descobre o que quer dá uma sensação incrível de “É isso! É isso o que eu estava buscando” e dá uma confiança para ir na frente.

iG: O “Festa no covil” é o primeiro romance de uma trilogia. Esse novo romance que você escreve é a terceira parte dela?
Juan Pablo Villalobos: São três livros independentes, que não têm relação entre o enredo e personagens. Mas são três romances sobre o México, que trazem o tema da violência, da desigualdade e da injustiça. Três romances contados pela perspectiva de vista de uma família, mas (em cada livro) famílias diferentes. É uma tentativa de narrar desde o ponto de vista íntimo de uma família e refletir sobre a realidade macro, a realidade do país. Os três livros têm o mesmo tipo de narrador com senso de humor, com sarcasmo, ironia, uma paródia: são as coisas que colocam esses romances no mesmo projeto narrativo.

iG: Já há previsão para o lançamento dessa segunda parte da trilogia no Brasil?
Juan Pablo Villalobos: Sim. Esse segundo volume será lançado em setembro, pela Companhia das Letras, e o título é “Se vivêssemos em um lugar normal”. Ele foi publicado em espanhol no ano passado e está já pronto para ser lançado aqui no Brasil.

iG: Você já escreve alguma coisa em português?
Juan Pablo Villalobos: Normalmente escrevo em espanhol os romances, obviamente. E tem algumas coisas que escrevo em português, com a colaboração para o blog da Companhia das Letras. Quando me é solicitado alguma colaboração, dependendo da extensão da colaboração e do tipo de meio (se jornal, se revista, se blog), eu decido se faço diretamente em português ou se faço em espanhol e peço para eles traduzirem. Participação em meios maiores como colaborações com grandes jornais, eu faço em espanhol e peço para eles traduzirem, mas colaborações menos tradicionais, em blogs, eu faço diretamente em português. Aos poucos estou melhorando em português, mas não é fácil a escrita em outra língua. Como estou morando aqui (o autor mora em Campinas, no interior de São Paulo) isso ajuda a ter uma maior fluência, a ter as gírias e as expressões etc.

iG: “Festa no Covil” foi adaptado para o teatro e está em cartaz no teatro do Sesc Consolação, em São Paulo. Como foi ver seu texto adaptado? Outras obras suas já foram adaptadas para o teatro ou mesmo para o cinema?
Juan Pablo Villalobos: “Festa no Covil” está sendo adaptado para o cinema, mas o roteiro ainda não está pronto. A versão para o teatro foi a minha primeira experiência com uma adaptação. Ainda é muito estranho, sobretudo porque não escrevi uma peça de teatro, escrevi um romance e nunca pensei que isso iria ser representado num teatro. Então, a experiência de ouvir a minha própria obra em outra língua, para começar, e por um ator foi uma experiência muito esquisita, muito estranha. É difícil para o autor ter o distanciamento a sua obra para ter um critério. Eu sei que eu gostei do resultado e que a obra respeita muito o texto original, mas além de ter gostado, não tenho critério critico objetivo para avaliar a adaptação.

iG: Quem está fazendo a adaptação para o cinema? Você colaborou com o roteiro?
Juan Pablo Villalobos: É uma diretora brasileira chamada Flávia Moraes. Estou começando a trabalhar com eles no roteiro, mas já peguei o texto em um estágio mais avançado, quase definitivo. Trabalhar desde o início é impossível, eu acho, porque o autor sempre vai querer ficar na própria ideia do livro e o cinema e o teatro são outras linguagens. O filme é uma coisa totalmente diferente do livro, tem que ser outra coisa porque as linguagens são diferentes. É impossível falar desse “respeito” à obra do autor. Quando falam que a adaptação não respeitou o livro (eu acho que) não pode respeitar. Tem que virar outra coisa porque é uma interpretação do roteirista, do diretor. Então se o autor se envolve desde o início e ele já é um roteirista e sabe fazer um roteiro aí é outra coisa. Mas como no meu caso, eu não sei escrever um roteiro, eu só posso colaborar em um momento final, nos detalhes de uma versão mais definitiva.

iG: Como você disse em uma crônica que ao vir para o Brasil as pessoas sempre lhe cobravam quem era o seu escritor brasileiro favorito, não iremos fugir da pergunta: qual é o seu escritor brasileiro favorito?
Juan Pablo Villalobos: Agora tem vários. O (Walter) Campos de Carvalho virou meu escritor brasileiro favorito, já escrevi sobre ele no Blog da Companhia. É um escritor irreverente, humorístico, absurdo, muito ligado a alguns movimentos literários franceses como o teatro do absurdo, da patafísica, do dadaísmo. Outro autor muito diferente, mas também muito admirado, é o Raduan Nassar, que eu acho que é o grande escritor brasileiro vivo. E outro autor de quem gosto muito é Sérgio Sant’Anna, gosto muito das novelas e dos contos longos. Eu li recentemente dele “Senhorita Simpson” e achei incrível, gostei muito, muito, muito. Então começo a ter um gosto definido pela literatura brasileira e não tenho mais tanta dificuldade como tinha há algum tempo. Tem também uma questão de códigos, morar no Brasil ajuda a ter um acesso mais fácil à literatura brasileira: quando você já conhece os códigos sociais e culturais dessa literatura você entra na literatura (de outro país) como se fosse própria.

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