Eduardo Coutinho faz plateia rir ao contar o que faria "se fosse eleito ditador”

Por iG São Paulo , especial por Aline Viana | - Atualizada às

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Em palestra, Coutinho revisita sua evolução como entrevistador e se define como um materialista mágico

Walter Craveiro/Divulgação
Eduardo Coutinho na Flip 2013

Quem acompanhou a mesa “Encontro com Eduardo Coutinho”, que aconteceu neste sábado (6) na 11ª Festa Literária Internacional de Paraty, se sentiu recompensado por adiar o almoço para ouvir os causos do cineasta, que é considerado o principal documentarista brasileiro.

A palavra “causo” é usada aqui no melhor sentido pois, como o próprio Coutinho disse na palestra, tão importante quanto a história ser boa é “saber contar”, habilidade que domina como poucos. Na mesa, o cineasta revela o que faria “se fosse eleito ditador”, porquê não abandona o cigarro e como evoluiu como entrevistador.

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Sobre o longa “Cabra marcado para morrer”, ao revisitar os atores que participaram da filmagem inicial do documentário, cujas filmagens tiveram início em 1964 e só foram concluídas 17 anos depois por causa da ditadura instalada no País, Coutinho lamenta que muitos tenham tido trajetórias cheias de percalços e observa que eles pagaram “o preço da militância”.

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Walter Craveiro/Divulgação
O mediador Mário Sérgio Conti e Eduardo Coutinho na Flip 2013

O mediador Eduardo Escorel propôs que Coutinho analisasse seu desempenho como entrevistador numa cena em que o entrevistado, o camponês e ator não-profissional João Mariano, é interrompido em “Cabra”. O documentarista revelou que não costuma rever seus filmes porque aquilo “está consumado e acabou”, mas quase se arrepende daquela cena. “O silêncio parece que foi provocado porque eu o interrompi, mas realmente ele estava falando sem vontade de falar”, avaliou.

Escorel exibiu o trecho final do documentário “Peões”, em que Coutinho entrevista um operário que também fica em silêncio. O cineasta então admitiu, comparando esta com a cena anterior, que não estava “maduro” para a entrevista em “Cabra”. Já em “Peões”, ele estava disposto a encarar esse desafio: “Eu tive outras experiências que, quando um cara ficava em silêncio e caía no fundo poço, às vezes, era tão duro de aguentar que eu esticava a mão e o tirava de lá".

"Algum dia vou ficar em silêncio e aguentar. O silêncio dura 23 segundos. Eu fiquei angustiadíssimo, porque é um silêncio que não sei onde ele está. Mantivemos o silêncio para mostrar como ele sai de lá”. O entrevistado quebra sua mudez e questiona se o documentarista já foi um peão, ao que Coutinho, fora do foco da câmera, atônito, ainda demora alguns segundos para responder que “não”.

Coutinho considera este último entrevistado um "achado" porque, além de ter sido descoberto por acaso pela equipe de filmagem, ele é o primeiro a se reconhecer como “peão” e oferecer sua própria versão do que é um peão, como aquele que trabalha no chão de fábrica, operando máquinas, diferente de quem “bate cartão, é mensalista e trabalha oito horas por dia".

O cineasta arrancou gargalhadas da audiência ao comentar o que faria se “fosse eleito ditador”. Entre as medidas propostas estava a de “cancelar as concessões de TV”, fazendo referência ao loteamento dos canais para igrejas evangélicas, embora avalie que seria deposto no dia seguinte pelos fieis descontentes.

Ainda na brincadeira, disse que “fecharia os partidos políticos até segunda ordem” porque hoje há muitas “legendas de aluguel”. Quando questionado sobre qual é sua religião, se define com um “materialista mágico”, diz que não consegue acreditar em Deus, mas conta que leva um santinho alemão com uma imagem.

“Nossa Senhora de Guadalupe, que é muito mais forte que Nossa Senhora Aparecida” e revela que reza para todos os santos quando o avião passa por uma turbulência mais forte. Se pararia de fumar? Coutinho analisa que “fumar ajuda a pensar. Fumar é um troço budista: tem que aceitar”, e conclui: “Eu torço para ser imortal, mas não contribuo para ser imortal”.

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