Roberto Calasso e Jeanne Marie Gagnebin revelam os macetes para entender Kakfa

Por iG São Paulo , especial por Aline Viana |

compartilhe

Tamanho do texto

Na Flip, especialistas abordaram a questão da escolha de um nome recorrente para os personagens do autor

Enquanto o sol se impunha em Paraty, na Tenda dos Autores a pesquisadora suíça Jeanne Marie Gagnebin e Roberto Calasso, crítico italiano e autor de livros como “K.” e “A Folie Baudelaire”, debatiam de forma ardente na Flip 2013 sobre os pontos de contato entre as obras do tcheco Franz Kafka e do francês Charles Baudelaire.

Saiba tudo sobre a Flip

Aline Viana
A suíça Jeanne Marie Gagnebin na Flip 2013

Calasso sugere como uma possível chave para a leitura da obra de Kafka atentar para a recorrência da letra “K” que nomeia os protagonistas de “O Processo” (Joseph K) e “O Castelo” (K).

Mais: "Musa da Flip", Lila Azam Zanganeh fala sobre Nabokov

“‘O Castelo’ se abre depois da morte atroz de K em ‘O Processo’. É uma outra forma de condenar por exaustão, não matando. Deixando que a pessoa morra por pura exaustão. (Essa explicação) está escondida em duas linhas do diário: ele diz qual é a relação entre essas duas mortes e Karlos Hoffman, de ‘América’. Os outros morrem porque são culpados, Karlos é inocente. Essa é uma das razões pelas quais a inicial ‘K’ se tornou o título do meu livro”.

Mais: "O legado ético e político de Graciliano diz muito ao Brasil de 2013"

Aline Viana
O crítico italiano Roberto Calasso, na Flip 2013

Já Jeanne Marie avalia que a escolha de uma letra para nomear um personagem pode significar o processo de desagregação da figura do narrador. “Nós encontramos em Kafka e em Baudelaire vários disfarces pelos quais o narrador poderia ser um anônimo. Tanto o ‘K’ de Kafka poderia ser ele como todos os outros, como o “eu” do (escritor francês Marcel) Proust – é uma palavra que diz respeito a cada um de nós, mas não tem um referente claro.”

Calasso citou também os aforismos que Kafka escreveu durante 1917, quando ele está em um período mais tranquilo na casa de uma irmã. “Era um momento raro em que ele sentiu a perseguição o mundo um pouco menor. Não tem a família, nem o escritório, nem nada que o pressione”, contou o escritor.

Mais sobre a Flip:
- Gilberto Gil fala sobre protestos: "É uma manifestação do cansaço"
- Paul Goldberger: "Niemeyer foi melhor e pior para arquitetura do Brasil"
- Com palestra sobre Graciliano, Milton Hatoum abre a Flip

Em cinco ou seis desses aforismos, segundo Calasso, Kafka fala sobre o paraíso. Para Kafka, “a culpa [de Adão e Eva] não foi, como todos acreditam e como a Bíblia diz, por ter comido a maçã da árvore do conhecimento – isso é um caminho perdido – a verdadeira culpa foi por não ter comido da árvore da vida. Isso está escondido no meio desses aforismos, mas se quisermos entender os romances dele devemos começar por aí”, recomendou.

Jeanne Marie se contrapôs ao argumento de Calasso, observando que as tentativas do amigo de Kafka, Max Brod, de arregimentá-lo para a religião, por meio do sionismo, foram fracassadas. “Ele pensa no paraíso e o que acho que seja um traço profundamente poético em Kafka, (é que) nós fomos expulsos do paraíso por causa da nossa impaciência. É nossa pressa, que nos leva a dizer e a fazer besteiras”, disse.

Leia tudo sobre: fliplivrosliteratura

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas