"O legado ético e político de Graciliano Ramos diz muito ao Brasil de 2013"

Por iG São Paulo , especial por Aline Viana |

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“Se vivo fosse, estaria apoiando de forma entusiástica as manifestações", afirma biógrafo Dênis de Moraes na Flip

A quinta mesa da Flip 2013 teve como tema: “Graciliano Ramos: ficha política” e teve a participação do professor americano e brasilianista Randal Johnson, do sociólogo Sérgio Miceli e de Dênis de Moraes, biógrafo do escritor alagoano.

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Dênis acredita que o escritor ficaria feliz em ser homenageado pela Flip, mas diria, “da boca pra fora, que a ‘Flip é um rapapé burguês’ – ele gostava de chocar as pessoas. Graciliano chegaria a 2013 aclamado pelo povo que tanto amou, reconhecido e com a certeza da semeadura”.

Aline Viana
Randal Johnson na Flip 2013

Randal começou a mesa descrevendo a trajetória política de Graciliano, que foi prefeito de Palmeiras dos Índios, posteriormente foi diretor da Imprensa Oficial de Alagoas e depois diretor da instrução pública, de 1933, até a prisão em março de 1937. Miceli destacou que durante os nove anos que Graciliano exerceu cargos públicos em Alagoas, ele ficou viúvo, se casou pela segunda vez, teve quatro filhos, perdeu um irmão e elaborou três de seus grandes romances: “Caetés”, “Angústia” e “São Bernardo”.

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Sergio Miceli na Flip 2013

Na palestra, Miceli propôs uma leitura dos romances considerada “muito fora do padrão da crítica” e que estabelece a partir da forma como o mundo social de Graciliano, “transcrito e transfigurado no social, foi configurado numa série de impasses afetivos”. Para ele a questão da potência e impotência social, como a questão da propriedade, sofre uma transferência imediata para a vida afetiva e sexual.

A pedido do mediador, José Luiz Passos, Randal comentou a relação da obra de Graciliano com o cinema. Para ele, a adaptação de Nelson Pereira dos Santos para “Vida Secas”, onde se trata de questões de fome, pobreza e reforma agrária resulta em “uma obra prima do cinema mundial. ‘São Bernardo’, de 1972, faz uma crítica ao modelo econômico de capitalismo selvagem. Foi um filme quase censurado, mas como o romance era leitura obrigatória no vestibular, embora fosse um filme contundente e extremamente político. E ‘Memórias do Cárcere’, de 1984, foi um filme importante durante a abertura política”.

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Embora suas obras tenham uma importante dimensão política, Dênis observou que “Graciliano teve uma exata noção de que a arte e a literatura não poderiam ser subjugadas pela política”, tendo, em decorrência disso, encontrado  resistência dentro do Partido Comunista do Brasil, ao qual era filiado.

“O legado ético e político (de Graciliano) diz muito a 2013, a este país que se encontra rebelado contra falsas políticas, contra as reivindicações da sociedade, que protesta por tarifas justas, contra uma copa do mundo milionária, um sistema de saúde falido. Graciliano nos chama a atenção para a coerência ética, ele que teve um absoluto respeito pelas coisas públicas. Se vivo fosse, Graciliano estaria apoiando de forma entusiástica às manifestações. Pedindo mais e mais. E antes estaria denunciando a posição letárgica do país”, concluiu Dênis, arrancando aplausos da plateia.

Quanto à atuação do Graciliano como funcionário do governo durante o período do Estado Novo, Miceli enfatizou que “Graciliano não era um Cassiano Ricardo, que era um ideólogo do Estado Novo”, sobre as crônicas que o autor escreveu para a revista “Cultura Política”, publicada pelo DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda). Dênis concluiu, evocando uma análise de sociólogo e crítico literário Antônio Candido: “existe uma diferença a servir sob uma ditadura e servir à uma ditadura”.

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