Paul Goldberger na Flip: "Niemeyer foi melhor e pior para arquitetura do Brasil"

Por iG São Paulo , especial por Aline Viana | - Atualizada às

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Crítico norte-americano participa de mesa na Flip ao lado do arquiteto português Eduardo Costa

Um debate sobre a arquitetura modernista reuniu nesta quinta-feira (4), na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), o arquiteto português Eduardo Souto e o crítico norte-americano Paul Goldberger.

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Os dois participaram da mesa "As medidas da história", que contou com a mediação de Ángel Gurria-Quintana. Um dos temas abordados foi a contribuição do arquiteto Oscar Niemeyer, morto no ano passado.

"O trabalho dele foi o melhor e, ao mesmo tempo, o pior para a arquitetura brasileira, porque deu a impressão errada ao mundo todo de que o sol nascia e se punha porque só havia Niemeyer”, disse Goldberger.

A mesa 'As medidas da história', na Flip 2013. Foto: DivulgaçãoA mesa 'As medidas da história', na Flip 2013. Foto: DivulgaçãoA mesa 'As medidas da história', na Flip 2013. Foto: DivulgaçãoA mesa 'As medidas da história', na Flip 2013. Foto: Divulgação

Para o crítico, arquitetos importantes como Lina Bo Bardi, Paulo Mendes da Rocha e Lúcio Costa acabaram ofuscados. “Niemeyer trouxe [à arquitetura] uma certa beleza sensual, que é uma característica extremamente brasileira”, disse Goldberger, observando que o trabalho do arquiteto se tornou menos relevante e autorreferente com o passar dos anos.

Souto mencionou Rocha e Costa como nomes importantes da arquitetura brasileira, elogiando também Niemeyer.

"Somos obrigados a ser locais e universais [ao projetar], senão as coisas não servem. E isto Niemeyer fez muito bem e Portugal aproveitou muito. Niemeyer é uma fonte de inspiração e um modelo”, definiu.

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Os dois debatedores falaram também sobre o legado do arquiteto modernista alemão, naturalizado americano, Ludwig Mies van der Rohe.

“À medida que fui estudando Mies fui conhecendo suas contradições. Ele tinha consciência de que a arte não usa só a verdade. O Mies produzia casas de vidro, fez dois edifícios lindíssimos em Chicago e desenhou a cadeira Barcelona, em metal. Mas, ele vivia em um apartamento antigo e seus móveis eram ingleses”, lembrou Souto.

Aline Viana
Paul Goldberger na Flip 2013

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Goldberger apontou que embora Mies fosse um grande arquiteto, seu trabalho foi fonte de inspiração para obras muito ruins. “Nossa época pode ser mais bem representada pelo que vi na Barra, no Rio de Janeiro, do que pelos grandes arquitetos. A grande arquitetura é sempre uma exceção, não uma coisa do cotidiano”, disse o crítico.

“A gente não concorda inteiramente porque a boa arquitetura tem sempre algo que transcende, um certo grau de poesia. É até um paradoxo eu dizer isso, como crítico, mas a grande arquitetura tem sempre um elemento que não pode ser descrito”.

Goldberger comentou que, em suas críticas, sempre tenta avaliar a intenção do arquiteto, o que resultou em alguns arrependimentos: “Você não pode deixar que boas intenções direcionem o seu olhar sobre as obras. Que prédios não têm boas intenções? Talvez um outro arquiteto pudesse ouvir as intenções do Eduardo, mas talvez ele não tivesse o dom para ir além das boas intenções”.

Souto ganhou a plateia quando fez a seguinte observação sobre a arquitetura moderna: “não se faz amor debaixo de semiótica e sim de uma casa”. E questionou o motivo de as casas consideradas como um marco na arquitetura moderna serem um fracasso no plano particular, ao observar que várias delas estão vazias e abandonadas.

Golberger avaliou que elas são arte e as comparou a sinfonias: embora belas, não são agradáveis de serem ouvidas todo o tempo.

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