Na Flip, Gilberto Gil fala sobre protestos: "Isso é uma manifestação do cansaço"

Por iG São Paulo , especial por Aline Viana | - Atualizada às

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Cantor e ex-ministro da Cultura foi ovacionado durante mesa de debate na Festa Literária

O cantor e ex-ministro Gilberto Gil roubou a cena e o assunto na mesa Zé Kléber, na Flip 2013, nesta quinta-feira (dia 4). A conversa, que se estendeu para além da uma hora protocolar da maioria das mesas, partiu do conceito do defeso cultural, criado pelo músico e poeta paratiense Luiz Perequê, e seguiu até a onda de manifestações que varreu o Brasil em junho.

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O “defeso cultural” é um termo que foi baseado na cultura dos pescadores locais e significa um período em que a pesca é suspensa para que os peixes possam se reproduzir. “‘Defeso cultural’ parece até uma daquelas ‘artimanhas semântico-poética’ que Guimarães Rosa fazia”, observou Gil.

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Gilberto Gil em show na Flip 2013. Foto: DivulgaçãoGilberto Gil em show na Flip 2013. Foto: DivulgaçãoGilberto Gil em show na Flip 2013. Foto: DivulgaçãoGilberto Gil em show na Flip 2013. Foto: DivulgaçãoGilberto Gil em show na Flip 2013. Foto: Divulgação

Para o cantor, o termo “defeso”, porém, soa mais "másculo", como se os nativos quisessem dar um “aspecto mais vigoroso, mais musculoso” para o conceito.

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A historiada Marina de Melo e Souza, que dividiu a mesa com Gil, destacou a importância de se preservar as festas tanto quanto o meio ambiente. “As festas são a liga de construção da identidade local (de Paraty)”, destacou Marina. “O ser humano deve ser o centro das atenções. É a maneira como as pessoas se organizam que dá esse charme específico a Paraty”.

A partir daí, o ex-ministro roubou a cena. Começou declamando a letra da canção “Futurível”, que compôs quando esteve preso entre dezembro de 1968 e fevereiro de 1969. Os versos finais da canção apontam que “O mutante é mais feliz/ Feliz porque/ Na nova mutação/ A felicidade é feita de metal”.

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"Como vamos nos adaptar num patamar razoável de interação em relação ao ‘futurível’, de que a felicidade no futuro seja feita de metal? Nos parece um absurdo, mas é uma identidade que deve estar em nossas perspectivas porque podemos ter que nos defrontar com esse tipo de realidade no futuro”, disse Gil. A saída, para o ex-ministro, é cada um tentar influir como cidadãos.

Quando o mediador Alexandre Pimentel pergunta aos palestrantes se Estado não estaria cedendo aos interesses da agenda conservadora na questão das preservações ambiental e cultural, o ex-ministro o interrompe em tom crítico: “O Estado cedendo ‘um pouco’ à agenda conservadora? Um Estado que já foi quase todo cedido! Vejo nessas últimas manifestações um alerta de que eles (o governo) precisam olhar para uma outra agenda”.

Para Gil, “o PIB da felicidade, como indexação da vida dos povos, não está relacionado apenas à economia, mas a uma agenda soft, ligada ao patrimônio imaterial, essa coisa que nos sustenta e nos dá vida”.

Gil prosseguiu, sendo ovacionado pela plateia: “Você está vendo o questionamento desse modelo de civilização montado nas locomotivas, na aceleração, no capital e nos seus interesses de ganho e acumulação. Outro dia me perguntaram sobre essas manifestações. Eu disse 'isso é uma manifestação do cansaço'. A gente se dedicava a essa marcha (imita sons de motores) e fomos pra rua para querer um pouquinho de descanso”.

Em resposta a uma questão da plateia, Marina fez ressalvas ao tombamento do patrimônio cultural: “O tombamento é complicado porque a gente sabe que a cultura é viva e o barato é o que a gente faz com ela. (A ideia) é legal porque tem visibilidade, (mas) desde que o tombamento da cultura não engesse os processos culturais, que estão em constante transformação”. Por fim, Marina defendeu que fosse feito o “defeso cultural do Brasil”, no que recebeu o apoio de Gil e aplausos da plateia.

Encerrada a palestra, com Marina e Alexandre já se levantando, o ex-ministro ainda fez questão de registrar um último comentário: “A felicidade até que seja de metal, mas que o homem tenha o controle da forja”.

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