Cartas revelam jovem J.D. Salinger: cáustico, mas esperançoso

Por NYT |

compartilhe

Tamanho do texto

Museu nova-iorquino adquire correspondências do autor escritas entre 1941 e 1943, antes da publicação de "O Apanhador no Campo de Centeio"

NYT

No dia 18 de novembro de 1941, um jovem autor nova-iorquino escreveu para uma moça de Toronto, dizendo que um de seus contos seria publicado na edição seguinte da revista The New Yorker. Segundo ele, o conto falava de "um menino em idade escolar durante as férias de Natal", e a história havia levado seu editor a pedir que escrevesse uma série de contos com o personagem, embora o autor ainda estivesse em dúvida. "Vou tentar mais algumas para ver no que dá", escreveu, "e se não ficar bom, eu paro de fazer".

Ele terminou a carta pedindo para saber o que ela achou da "primeira história do Holden", que, segundo ele, se chamava "Slight Rebellion Off Madison" e assinou apenas como "Jerry S.".

O escritor era J.D. Salinger, que na época tinha 22 anos e ainda não havia escrito grandes obras como "O Apanhador no Campo de Centeio", nem tinha ideia de que se tornaria um grande sucesso literário. Quando Salinger morreu em reclusão em 2010, aos 91 anos de idade, ele ainda era um mistério para seus milhões de leitores e havia compartilhado pouco de si com o mundo, além dos poucos livros de ficção que havia publicado.

Mas esse autor esquivo ganha vida nova em uma série de cartas escritas entre 1941 e 1943, vistas por poucas pessoas nos últimos 70 anos.

Reprodução
J. D. Salinger

Nessa correspondência, recentemente adquirida pelo Morgan Library & Museum, em Nova York, e compartilhada com o New York Times, o indeciso Salinger demonstra ser tão brincalhão, apaixonado e cáustico quanto Holden Caulfield, o adolescente cheio de dúvidas que se tornou sua criação mais duradoura.

"Ele ainda estava no início da carreira, mas sua voz já estava lá", afirmou Declan Kiely, curador e chefe do departamento de manuscritos literários e históricos do Morgan. "É maravilhoso poder ver essa fase na vida de um escritor."

Nessas cartas, o jovem Salinger também mostra ter aptidão para criar uma automitologia e fugir de assuntos delicados, enquanto tenta esconder verdades difíceis sobre a vida pessoal, sobre as conquistas profissionais e sua participação na Segunda Guerra Mundial.

"Era uma boa época para contar mentiras", afirmou Kenneth Slawenski, autor de "J.D. Salinger: A Life". "Provavelmente isso era tudo o que ele tinha naquele momento."

Leia também: Correspondência inédita mostra lado humano de J.D. Salinger

No verão de 1941, Salinger começou a trocar cartas com Marjorie Sheard, uma moça de Toronto que tinha mais ou menos sua idade e que havia lido alguns de seus contos publicados em revistas como a Esquire e a Collier's.

Sheard também desejava se tornar escritora e pedia conselhos a Salinger, que a encorajava. "Parece-me que você tem o instinto necessário para não se tornar uma daquelas garotas da Vassar", escreveu Salinger em uma carta de 4 de setembro de 1941, referindo-se às universitárias nova-iorquinas da época. Salinger sugere algumas revistas menores para onde ela poderia enviar seus trabalhos.

"Não dá pra comprar um Cadillac com o que essas revistas pagam", escreveu, "mas não é isso que importa, não é?".

Nos dois anos seguintes, Salinger enviou um total de nove cartas para Sheard, em um tom frequentemente bem-humorado e sedutor. "Como você é?", escreveu em 9 de outubro de 1941, pedindo que mandasse uma foto grande. Um mês depois, Salinger se desculpou pelo pedido: "Não estava bem muito bem quando escrevi aquilo".

Mas quando Sheard enviou a resposta junto com uma foto, Salinger respondeu: "Escondendo o jogo, hein? Como você é bonita".

Sheard, que agora tem 95 anos, guardou as cartas em uma caixa de sapatos dentro do guarda-roupa. Há cerca de seis anos, quando foi morar em uma casa de repouso, as cartas foram parar na gaveta da penteadeira de um parente.

Nos últimos tempos, quando os gastos com o cuidado de Sheard aumentaram, ela e a família decidiram vender as cartas ao Morgan, que coleciona e expõe a correspondência de Salinger. O museu não quis dizer quanto pagou pelas cartas.

AP
O escritor J.D. Salinger

Nas primeiras cartas, que eram mais brincalhonas, Salinger afirma que está relendo "Anna Karenina", que não é tão bom quanto "Guerra e Paz", mas "foi muito mais bem feito". (Sobre Tolstói, ele escreve descaradamente: "Acho que ele ainda vai longe".)

Além de recomendar as próprias obras, ele sugere que Sheard leia "O Grande Gatsby" e "O Último Magnata", de F. Scott Fitzgerald. Ela responde que Fitzgerald e Ernest Hemingway "me incomodam da mesma maneira – a gente acaba com pena de gente entediante e que não merece".

Mas no início de 1942, as correspondências de Salinger começam a ficar mais amargas e ele pede para Sheard não falar sobre a história de Holden Caulfield que ainda não havia sido publicada. "Só Deus e Harold Ross sabem o que aqueles idiotas da redação estão fazendo com meu pobre texto", escreveu, referindo-se ao fundador da revista The New Yorker.

Na verdade, Salinger havia acabado de descobrir que a revista estava adiando a publicação de "Slight Rebellion Off Madison" em vista do ataque recente a Pearl Harbor – o texto só seria publicado em 1946 – e ele sabia que logo seria convocado para lutar na guerra.

Em cartas posteriores enviadas de Fort Monmouth, Nova Jersey, e Bainbridge, Geórgia, Salinger brinca a respeito de sua iniciação na vida militar, encerrando as cartas com pseudônimos cômicos como "Fitzdudley", "Wormsley-Bassett" e "Flo e Benjy".

Mas outros detalhes que Salinger revela sobre sua vida pessoal naquele momento são ambíguos ou puramente ficcionais. "Eu deveria me casar durante minha licença", escreveu em uma carta de 28 de novembro de 1942, "mas ela queria que tudo fosse feito na casa do papai em Hollywood. Por isso voltei a me relacionar com a máquina de escrever".

Slawenski, o biógrafo de Salinger, afirmou que não tinha certeza se isso seria uma referência velada ao relacionamento de Salinger com Oona O'Neill, a filha do dramaturgo Eugene O'Neill, ou a algum outro relacionamento amoroso.

Embora Salinger e Oona O'Neill tenham namorado por algum tempo no início dos anos 1940, Slawenski afirmou que ela não correspondia seu amor, deixando-o arrasado depois de se casar com Charlie Chaplin.

Segundo Slawenski, é mais provável que Salinger estivesse inventando uma história para Sheard enquanto se recuperava da decepção.

"Assim ele devia se sentir melhor com a história toda, uma vez que está secretamente magoado", afirmou Slawenski. "Do ponto de vista emocional, ele estava arrasado."

Em outro momento, Salinger menciona que está tentando continuar com a série de contos para a revista New Yorker, e faz referências tentadoras a outras obras não publicadas e provavelmente perdidas do mesmo período.

Uma delas, chamada "Harry Jesus", veio "direto do estômago", contou.

"Esse conto vai partir o coração do país", escreveu Salinger, "e transformá-lo em órgão novo e muito mais rico".

A possibilidade de ser bem sucedido no país todo parece ser um sonho louco para o jovem Salinger. Depois de falar tudo isso, acrescenta: "Eu provavelmente vou fracassar totalmente com o conto."

Leia tudo sobre: j.d. salingerlivros

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas