"Se me tiravam do sério eu dava coelhadas", diz Mônica Sousa

Por Guss de Lucca - iG São Paulo | - Atualizada às

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Filha do cartunista Mauricio de Sousa conversa com o iG sobre os 50 anos da personagem inspirada nela

Quando Mauricio de Sousa começou a publicar tirinhas, no início dos anos 1960, seus personagens principais eram Franjinha, Cebolinha, Cascão, Jeremias e Titi. Alertado sobre a ausência de meninas nas histórias, o cartunista buscou inspiração dentro de casa - baseou suas novas personagens nas próprias filhas.

Infográfico: Os 50 anos da Mônica

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Mônica Sousa, a Mônica de verdade, na Mauricio de Sousa Produções

O jeito sensível de Mariângela foi transferido para a pequena Maria Cebolinha, enquanto o apetite voraz de Magali resultou na comilona homônima de vestidinho amarelo. Porém, foi na braveza da pequena Mônica, na época com três anos, que Mauricio de Sousa baseou aquela que viria a se tornar sua principal criação.

A menina e seu coelhinho amarelo (sim, o Sansão original é amarelo) serviram de inspiração para a Mônica dos quadrinhos, a garota dentuça e de vestidinho vermelho que, munida de seu coelho de pelúcia, coloca os meninos para correr quando provocada.

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Em comemoração aos 50 anos da personagem, comemorados neste março, o iG conversou com Mônica Sousa, a Mônica "de verdade", que trabalha ao lado do pai na Mauricio de Sousa Produções, gerenciando o departamento comercial.

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A pequena Mônica Sousa com seu coelho

iG: Quando você descobriu que serviu de inspiração para a Mônica dos quadrinhos?
Mônica Sousa: Quando a Mônica apareceu na primeira tira (em 3 de março de 1963) eu tinha três anos. Mas acho que não me dei conta que tinha inspirado um personagem. Meu pai trabalhava na sala de casa, então crescemos vendo ele desenhar todos os personagens. Não me tocava, por que para nós era algo normal. Quando fui ao programa da Hebe, com mais ou menos cinco anos, achei tudo muito divertido. A Elis Regina me levou ao banheiro (risos). Me dei conta da importância da Mônica, da identificação que as pessoas tinham com ela, quando entrei na escola, com uns seis anos.

iG: Como seus amigos e colegas reagiam quando descobriam que você era a Mônica?
Mônica Sousa: Enchiam meu saco. Mas aí eu fingia que não ligava e eles paravam (risos).

iG: Você tinha fama de ser brava como a personagem?
Mônica Sousa: Eu perguntei ao meu pai: "Como é que pode uma criança de três anos ser brava assim?". Mas depois descobri por conta própria, pois minha filha agia igualzinho à Mônica quando era criança. Ela não era mal educada, da mesma forma que a Mônica não é, mas era brava como eu. Se me tiravam do sério, eu dava coelhadas. Mas sou pavio curto até hoje (risos). Estou tentando melhorar.

Infográfico: Os 50 anos da Mônica

iG: Na época você lia as histórias? Lembra de alguma marcante?
Mônica Sousa: Assim que aprendi a ler lia todas as histórias. A que mais me marcou na revistinha foi "A Ermitã". É uma história em que a Mônica faz brincadeiras meio estúpidas com os amiguinhos e eles dão uma gelada nela. Aí ela vai embora, se isolar do mundo. E acho que isso acontece assim mesmo. Se a criança é muito brava, agressiva, fala coisas erradas, acaba ficando sozinha. Para mim foi uma história marcante. E tinha outra chamada "Os Azuis", escrita pelo meu pai, que é sobre preconceito. Nela todos da turma acordam azuis, menos a Mônica. Essas histórias foram publicadas na década de 1970.

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Mauricio de Sousa e sua filha, Mônica, com as duas versões do coelho Sansão

iG: Você já opinou sobre alguma história?
Mônica Sousa: Opino muito, mas não adianta nada (risos). Eu não leio as histórias antes, só vejo depois que a revista é publicada. Meu pai não me convida. É uma frustação minha (risos). Outro dia fizeram uma história em que aparecem meus três buldogues, que eu tenho em casa, e eu adorei. Mas é curioso como todo mundo quer ser um personagem. A gente não tem noção. Amigos, parentes, leitores que escrevem para nós. Todo mundo quer estar nas histórias da Mônica.

iG: Em relação aos brinquedos, você teve algum preferido?
Mônica Sousa: Na infância eu ganhava todos. Tive a Mônica da Troll, a primeira boneca que saiu e será relançada com um tamanho menor e outro material, pois aquele não tem mais. Acho ela muito especial. E adoro a maçã da Mônica, como todos os dias.

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Mônica Sousa

iG: Seu primeiro emprego foi como vendedora da lojinha da Mônica?
Mônica Sousa: Eu queria muito trabalhar, era meu sonho. Mas meu pai não deixava enquanto eu fosse menor de idade. Tínhamos que estudar. Mas quando fiz 18 anos e entrei na faculdade, pedi o emprego para ele. Virei a melhor vendedora da loja e me apaixonei pala área comercial. Aquilo me fascinava. Naquela época, em 1979, a lojinha da Mônica era bem moderna. Não tinha balcão. As crianças iam lá e brincavam, podiam desenhar, tirar fotos com o coelho Sansão.

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iG: Quando começou a trabalhar no escritório da Mauricio de Sousa Produções você sentiu alguma pressão por ser filha do dono?
Mônica Sousa: Quando entrei todo mundo me tratou mal (risos), achavam que eu ia tirar o lugar deles. Mas fui conquistando a confiança das pessoas, mostrei que estava lá para trabalhar. Nunca fui mimada no trabalho. Passei por todas as durezas de qualquer funcionário normal. Só quando tive meu segundo filho é que ganhei meu primeiro benefício como filha. Aos dois anos ele sofria crises de alergia que me obrigavam a ir todos os dias na escola dele. Por causa disso falei ao meu pai que sairia da empresa. Aí ele me deixou trabalhar em meio período.

Infográfico: Os 50 anos da Mônica

iG: Fora do escritório vocês falam de trabalho?
Mônica Sousa: A gente só fala de trabalho. Não existe outro assunto. Uma vez disse que ele trabalhava demais. Ele não para de ir a reuniões, jantares, viagens... Os filhos vivem dizendo para ele dar um tempo, mas ele diz que não é trabalho, é diversão.

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iG: Em entrevista ao iG em 2011, seu pai disse que estava no meio de um projeto de sucessão, em que ele teria delegados em todas as áreas para garantir que a coisa continue sem ele. Como você vê a empresa sem o seu pai?
Mônica Sousa: Hoje eu não vejo, não tem como ele se aposentar. Quando eu comecei a trabalhar como gerente do departamento de licenciamento, meu pai era mais ativo na área. Depois, quando virei diretora comercial, ele começou a delegar um pouco, pois tinha visto minha capacidade para tomar decisões. Senti que ele começou a confiar mais no meu senso de produtos para licenciamento - antes ele provava tudo.
Ao mesmo tempo o vejo fazer isso com a minha irmã Marina, na área artística. Quando ele vê que pode confiar, e não só em gente da família, mas em outros funcionários, ele passa a delegar mais. Porém, as noções críticas e inovadoras que ele tem eu não vi em ninguém ainda. Ele está anos luz na nossa frente, pensando no que estaremos fazendo daqui a dez anos.

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iG: Você participou de alguma das ações preparadas para os 50 anos da Mônica?
Mônica Sousa: Eu participei de tudo com o departamento comercial. Queríamos fazer com a Mônica algo maior do que fizemos nos 50 anos da Mauricio de Sousa Produções. Desde o ano passado estamos fazendo teasers do Mônica 50 Anos. Entre as ações programadas teremos desfile de moda, bolos de aniversário em comunidades carentes e o retorno da peça "Romeu e Julieta" com os personagens da turma. Também vamos lançar uma série de produtos com a Mônica vintage, com malas, roupas e capas de caderno.

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