Vilhena sobre Lobão: "Não fez mais música comigo e não tocou mais no rádio"

Poeta, produtor e curador lança livro comemorando os 15 anos do Bar Bukowski e fala sobre os sucessos ao longo dos 37 anos de carreira

Priscila Bessa (iG Rio de Janeiro) |

Isabela Kassow
Bernardo Vilhena é o autor de "Bar Bukowski – Histórias que não deveriam ser contadas" que será lançado em janeiro

O rock não morreu. Pelo menos não para o público carioca que ainda conta com redutos fiéis ao gênero musical no Rio de Janeiro, como o Bar Bukowski, em Botafogo, zona sul da cidade, que completa 15 anos neste dezembro. Para comemorar a data, os proprietários, liderados pelo sócio fundador Pedro Berwanger, conhecido como “Kara”, encomendaram um livro reunindo histórias reais protagonizadas pelos clientes que representam o espírito anarquista da casa.

As narrativas, sempre na primeira pessoa, contam com altas doses de sexo, drogas e rock and roll extraídas de 60 horas de entrevista com mais de 60 pessoas. Quem assina o livro “Bar Bukowski – Histórias que Não Deveriam ser Contadas”, com lançamento previsto para janeiro, é o poeta e produtor Bernardo Vilhena, 63 anos, letrista de centenas de hits de sucesso em parceria com nomes como Lobão, Ritchie, Cazuza, Erasmo Carlos e Cláudio Zoli, entre tantos outros.

“Quando fui convidado, em julho de 2012, para escrever um livro a ser lançado em novembro do mesmo ano, pensei: ‘Esses caras devem estar loucos’. Engano meu, eles não estavam loucos, eles eram loucos”, conta Vilhena as gargalhadas. Apesar do prazo apertado, três meses de trabalho, o poeta aceitou o desafio fascinado pelas histórias irreverentes dos funcionários e frequentadores.

Rock x pagode e sertanejo

Isabela Kassow
Bernardo Vilhena é letrista de hits em parceria com nomes como Lobão e Cazuza

Entre elas, estão a ocasião em que os empregados resolveram convidar prostitutas para uma “festinha” no local após o expediente que acabou com polícia na porta; como um garçom foi demitido porque se converteu e parou de beber; e o relato de uma cliente que puxou o DJ para fazer sexo em um canto da casa e acabou convidando uma amiga para um ménage à trois.

“Acho que o Bukowski é um exemplo. Não segue aquela tradição de bares do Rio em que o garçom é um serviçal das pessoas. O garçom não é seu empregado particular. É uma pessoa que tem uma dignidade. Nesse ponto, é libertador”, comenta Vilhena, autor de sucessos como “Vida Bandida”, de Lobão (sete de dez músicas do disco são suas), e “Menina Veneno”, de Ritchie.

Nos anos 1980, o produtor e poeta viu de perto a rotina de excessos dos colegas famosos e encontra nela uma identificação com a liberdade que os frequentadores do Bukowski tanto buscam. “Era muito pior do que se ouve falar”, afirma. Para ele, o rock encaretou e o público segue uma tendência ditada pela televisão.

“Por causa dessa coisa do pagode e do sertanejo, não tem espaço para mais nada. A televisão brasileira funciona como se o Brasil fosse monocultural. A indústria de disco está quebrada, então não pode reagir”, afirma.

“Menina Veneno”

Quando o assunto é o sucesso estrondoso da parceria com Ritchie em “Menina Veneno”, esclarece: “Com ‘Menina Veneno’ eu toquei no coração do país. No total, já vendeu umas 5 milhões de cópias. O erro é dizer que sou o autor de ‘Menina Veneno’ e ponto. Fico um pouco aborrecido quando reduzem a isso”. Vilhena reconhece um certo preconceito em relação às músicas românticas, que acabam sendo tachadas de bregas.

“Eu não sei quando confundiram. Não sei se foi porque Zezé Di Camargo e Luciano gravaram ‘Menina Veneno’, não sei se foi por causa do sucesso que a música teve mesmo, mas acho bem impressionante, genial, ter uma música brega em que o baterista era o Lobão, o baixista era o Liminha, o guitarrista era o Lulu Santos, o tecladista era o Lauro Salazar. Acho que tem também um preconceito com o Ritchie porque ele é estrangeiro”, analisa.

“Lobão odeia as pessoas que amou”

Entre tantas parcerias bem-sucedidas, Vilhena guarda uma história sem final feliz: o rompimento com Lobão. “O Lobão odeia as pessoas que ele amou. Esse é um problema dele, não é meu. No dia em que ele fizer um show sem música minha, aí eu passo a respeitar a opinião dele. Quando a gente resolveu não fazer mais músicas juntos, falei para ele: ‘Então, cara, vou fazer o seguinte: a gente não faz mais música e você não toca mais no rádio’. Parece que a profecia...”, deixa no ar.

Das boas recordações, cita um episódio com Cazuza presenciado na companhia de Erasmo Carlos em um bar badalado da época, na zona sul do Rio. Na ocasião, Cazuza sentou na mesa dos dois e começou a flertar com o namorado de uma moça que estava na mesa ao lado. “Cazuza era muito engraçado. A mulher deu um escândalo. Como ele morria de vergonha dessas coisas, saiu correndo. Ficou dando voltas no quarteirão. Deu uma volta, passou ali e olhou para o cara. Deu a segunda volta e, na terceira, o cara foi (risos). E ela ficou chorando, coitada,”

Com relação ao projeto anunciado recentemente por Omar Marzagão e George Israel de lançar um show com um holograma de Cazuza em 2013, dispara: “Acho a ideia lamentável. Acho que isso é uma coisa digna do Frejat. Se fosse o Frejat podia ser”.


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