Vargas Llosa comemora 50 anos da publicação de seu primeiro livro

"A Cidade e os Cachorros" marcou estreia do ganhador do Nobel na literatura; durante evento em Nova York, escritor peruano lembrou censura e paixão pela arte

iG São Paulo com EFE |

EFE
Vargas Llosa: "não tenho facilidade para escrever, mas isso não tira a fascinação e entusiasmo"

O escritor peruano Mario Vargas Llosa, ganhador do prêmio Nobel , comemorou em Nova York o aniversário de 50 anos de "A Cidade e os Cachorros", seu primeiro romance, que ganhou uma edição comemorativa. Na ocasião, o autor lembrou que o livro o iniciou na na literatura, um "mistério" que ainda o apaixona.

"Escrever é apaixonante. Sinto a mesma ilusão e dificuldades que tive quando escrevi meus primeiros contos. Não tenho facilidade para escrever, mas as dificuldades não tiram nada da fascinação, da exaltação e do entusiasmo", disse Vargas Llosa, aos 76 anos, em um encontro no Instituto Cervantes de Nova York.

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O escritor se referiu à sensação "extraordinária" que sente quando "a história começa a ter vida própria, algo que sempre é misterioso", e que experimentou diante de cada nova obra de sua carreira, iniciada com "A Cidade e os Cachorros".

"Aprendi muito com esse romance, sobre a construção da história, os pontos de vista, a linguagem. Adquiri certa técnica que depois repetiria e aperfeiçoaria em outros livros, e forjei uma forma de escrever que tinha a ver com minha personalidade, com minhas simpatias e diferenças no mundo literário."

Vargas Llosa afirmou que "quase nenhum escritor começa sabendo que tipo de escritor vai ser, já que isso é algo que se descobre com a prática, e por isso as primeiras obras são decisivas". Lembrou ainda as dificuldades que enfrentou à época de seu primeiro romance devido à censura que imperava na Espanha. Segundo ele, a obra só foi publicada graças ao "esforço sobrehumano" de seu editor, Carlos Barral, que manteve um ano de árduas negociações para que o livro fosse lançado.

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"Ele falou com o ministro da Informação, com intelectuais bem vistos pelo regime (franquista), como José María Valverde, para que falassem bem da obra. E eu também tive que viajar para Madri para uma conversa com o chefe da censura", afirmou.

O censor tinha reservas ao uso de certas frases, como a que dizia que um coronel "era gordo, com o ventre de uma baleia", já que a interpretou como uma ironia aos militares. No entanto, o censor concordou em conservar a frase mudando a palavra "baleia" por "cetáceo". "No final, só tive que tirar oito frases, que eram absurdas e disparatadas, e mesmo assim Barral as restituiu na segunda edição."

Ganhador do Nobel de Literatura de 2010, Vargas Loosa brincou dizendo que a condecoração é "uma semana de conto de fadas e um ano de pesadelo". Ao tratar de temas atuais, como o futuro do livro, disse que o formato que enfrenta uma "grande incerteza".

"Minha esperança é que o livro digital coexista com o de papel, e meu temor é que o livro escrito expressamente para as telas seja muito diferente do tradicional, e que as telas façam o que a televisão fez com seus conteúdos: tornaram eles rápidos, leves e inclusive frívolos", questionou.

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