Escritora Tana French encontra nicho em temas obscuros

Em seu mais recente livro, autora de 39 anos discute a situação econômica da Irlanda em meio a assassinatos macabros

The New York Times | - Atualizada às

Obviamente, a identidade do assassino no suspense "Broken Harbor", de Tana French, não é revelada até o fim do livro. Mas, de certa forma, ele está presente o tempo todo – não na forma de um ser humano, mas de uma casa, uma malévola residência que apodrece em meio a um empreendimento imobiliário criado durante o boom do começo dos anos 2000, na Irlanda, e praticamente abandonado durante a crise subsequente.

"Esse lugar está me afetando", afirma o narrador, um detetive de um Esquadrão de Assassinatos ficcional da cidade de Dublin, depois de chegar pela primeira vez ao local onde estavam os corpos ensanguentados dos moradores. "Deve ser algo nos buracos das paredes, ou as câmeras que nunca fecham os olhos; talvez seja todo esse vidro e as casas abandonadas que olham para nós como animais famintos em volta do calor de uma fogueira."

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A escritora Tana French

"Broken Harbor" é o quarto livro de French e, embora seja um suspense psicológico com assassinatos macabros e investigadores problemáticos, o romance também discute a situação do país, retratando uma Irlanda destruída e que consome a si mesma. Na 17ª posição da atual lista dos livros mais vendidos do New York Times, o romance foi elogiado por sua escrita elegante e enredo inteligente.

"Ela tem formas brilhantes de brincar com as expectativas dos leitores", escreveu Janet Maslin sobre a autora no New York Times.

Durante uma recente entrevista no bar de um hotel no centro de Dublin, French, de 39 anos, falou com uma voz mansa, estranhando e se divertindo com o próprio sucesso, que chegou relativamente tarde a uma carreira que nunca planejou. French vive em Dublin com um ator e a filha de 3 anos, mas ela passou a vida em muitos lugares diferentes.

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Seu pai trabalhava com gestão de recursos e viveu com a família em lugares como a Itália, República do Maláui e Estados Unidos, entre outros. A autora escreve "a obrigatória poesia adolescente", em suas palavras, e teve um conto rejeitado pela revista New Yorker, abandonando a ficção para se tornar atriz.

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A escritora Tana French

Mas a sua imaginação dormente renasceu em 2002, quando conseguiu um trabalho em uma escavação arquitetônica em uma floresta próxima a Dublin, durante o intervalo entre duas peças.

"Era um trabalho físico pesado – eu não estava só tirando poeira. Foi então que comecei a pensar: 'E se três crianças viessem até aqui para brincar, mas apenas uma saísse viva?'", comentou French. Ela rabiscou a ideia em uma conta de telefone, mas recebeu o papel de Feste em uma montagem da peça "Noite de Reis", de William Shakespeare, e se esqueceu do assunto.

Cerca de um ano mais tarde ela encontrou a conta de telefone e decidiu transformar a ideia em livro, incluindo um detetive que se vê forçado a confrontar os mistérios do próprio passado durante a investigação (quase nunca chegando a uma conclusão, dependendo do ponto de vista). O resultado foi o livro "In the Woods", que garantiu à autora um empresário, um contrato para a produção de dois outros romances, além de um grande número de prêmios, incluindo o primeiro Prêmio Edgar concedido para um romance de mistério escrito por uma autora norte-americana. (French nasceu em Vermont e tem dupla cidadania.)

Cada um de seus livros é narrado por um dos detetives do Esquadrão de Assassinatos.
"Eu pensei que poderia fazer uma série tradicional, na qual os leitores acompanham os altos e baixos de uma personagem", explicou, "ou posso trocar de narrador e me livrar de ficar presa à mesma personagem por 10 anos e de perceber que estava escrevendo no piloto automático".

Ian Kern, gerente da Mysterious Bookshop, em Manhattan, afirmou que a escrita de French é "fenomenal – não apenas como ficção de mistério, mas como ficção em geral". E acrescentou: "Eu gosto da forma como ela brinca com os personagens. Por mais que eu goste dos livros de Michael Connelly, por exemplo, todos os seus romances lembram Harry Bosch, enquanto estes me fazem lembrar dos livros de Ed McBain sobre o Esquadrão 87, com personagens que entram e saem".

O segundo livro de French, "The Likeness", conta a história de uma detetive que se disfarça para investigar o assassinato de uma universitária que é praticamente idêntica a ela. "Faithful Place", seu romance seguinte, envia um detetive de volta ao seu antigo bairro, onde ele finalmente resolve o mistério do desaparecimento de sua namoradinha, muitos anos antes.

O narrador de "Broken Harbor" é um detetive "caxias" chamado Mick Kennedy, que é assombrado pelo próprio passado à medida que se embrenha na investigação de um mistério envolvendo uma família profundamente problemática. French teve essa ideia quando viu uma estranha forma negra cruzando o balcão da cozinha e não foi capaz de convencer seu parceiro de que aquilo era real. (Na verdade, era apenas um rato.)

"E se isso tivesse acontecido com alguém cujo relacionamento passasse por um mau momento, se essa pessoa ouvisse um barulho constante e a outra questionasse seu senso de realidade?", questionou. Em "Broken Harbor", Patrick Spain, um homem que ganha muito dinheiro e gasta tudo com a mulher e os dois filhos, perde o emprego e fica com uma casa que não pode pagar. Com o passar do tempo ele se convence de que existem três animais malévolos vivendo dentro das paredes.

French afirmou que sua irracionalidade reflete a atual situação da Irlanda, de certa forma. "Houve uma loucura nacional, a mais pura insanidade", afirmou, sobre a bolha imobiliária, na qual dezenas de milhares de pessoas se mudaram para casas novíssimas que agora estão caindo aos pedaços. "Essas residências deveriam ser sólidas fortalezas contra o mundo exterior."

French afirmou que seu próximo livro envolverá um estranho caso no qual a foto de um adolescente assassinado aparece de repente no quadro de avisos de um colégio interno para garotas, juntamente com um bilhete anônimo que afirma saber quem é o assassino. Segundo ela, o livro explora "a tensão, sobretudo entre os adolescentes, entre guardar e revelar segredos".

Embora os livros girem em torno de assassinatos, French afirma que não se interessa por "sangue, terror e crueldade", mas por algo mais profundo: as motivações e as repercussões de um assassinato.

"Sob diversos aspectos, o assassinato – e suas implicações psicológicas – é um dos maiores mistérios da mente humana", afirmou. "Escrever romances de suspense psicológico é uma maneira de explorar os gigantescos mistérios que jamais compreenderei."

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