Zuenir Ventura: "Vou a todas as feiras e bienais que eu posso"

Escritor conversa com o iG sobre seu primeiro livro de ficção e fala de sua participação na Flip

Guss de Lucca - iG São Paulo |

Conhecido por grandes obras de não ficção, como "1968: o Ano que Não Terminou" (1989), e livros reportagem, como "Chico Mendes - Crime e Castigo" (2003), o escritor Zuenir Ventura estreou neste ano na seara da ficção.

"Sagrada Família" , lançado há pouco pela editora Alfaguara, é um misto de "memória e imaginação" do autor. A obra faz uma viagem ao passado, narrando a perda da inocência de um menino em meio a uma numerosa família fluminense.

Convidado da 10ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty , que acontece entre esta quarta (dia 4) e domingo (8), Zuenir participará de duas mesas. Na quinta, mediará Luiz Eduardo Soares e Fernando Gabeira na conversa Autoritarismo, Passado e Presente. Já no sábado (7), Zuenir se encontra com Dulce Maria Cardoso e João Anzanello Carrascoza na mesa "Em família".

Em conversa com o iG , o escritor falou sobre o processo de escrita de "Sagrada Família" e a expectativa em participar da Flip 2012.

iG: Como foi escrever ficção pela primeira vez?
Zuenir Ventura: Realmente é a minha primeira ficção, isso aos 81 anos. Essa história me perseguiu por dez anos. Tinha começado a escrever, parei, fiz outros livros de não-ficção, até que o Roberto Feith (diretor da Alfaguara) insistiu para ver o que eu já tinha escrito.
Eu não queria mostrar, mas acabei enviando e ele me pediu para continuar.
O processo foi muito diferente dos meus livros anteriores, em que eu disparava porque tinha de entregar no prazo. Fiz uns três livros enquanto montava esse. Só na fase final, quando o Roberto decidiu lançar, que tive um prazo.

iG: "Sagrada Família" foi baseado em suas memórias?
Zuenir Ventura: Fiz um livro com as minhas memórias, as dos outros e as memórias inventadas. Essa mistura é o livro.

iG: O senhor se censurou em algum momento para preservar alguém a quem estaria se referindo?

Zuenir Ventura: Isso bateu de vez em quando, por isso transformei tudo em ficção. Tem lances ousados ou mais picantes que são inventados (risos). Eu mesmo perdi de vista o que é real e o que é imaginado. A memória é muito misteriosa. E com o tempo ela vira ficção.
Quando você olha pra trás e lembra de alguma coisa, não sabe se aconteceu exatamente assim. O nosso Pedro Nava, maior ficcionista que tivemos, dizia que não sabemos quando termina a memória e quando começa a imaginação.

Divulgação
Capa de "Sagrada Família", da editora Alfaguara

iG: O senhor citou a hipocrisia daquela época, dos anos 1940 e 1950, no lançamento do livro. Como avalia a hipocrisia de antes e a de agora?
Zuenir Ventura: Não estou falando no plano político, pois lá estamos cheios de hipocrisia. No plano moral está tudo escancarado, hoje as pessoas dizem como trepam, como gozam, é tudo bem despudorado, escancarado. Nos anos 1940 havia muito recato, pudor e também muita hipocrisia. Você podia fazer, contanto que não contasse.

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iG: A inocência também é importante na obra?
Zuenir Ventura: É um livro sobre a perda da inocência, sobre a iniciação e as grandes descobertas e perplexidades. O menino vai se chocando com o que ele vê e não entende. Hoje a descoberta é mais precoce, a criança tem muita informação, já está na internet. E você é preparado pela família e pela escola. Naquela época as pessoas não falavam sobre essas coisas. Tem uma cena real no livro, em que a moça vai para o casamento sem saber o que vai acontecer com ela - aí o marido a devolve aos pais. Essa cena é absolutamente verdadeira. Havia outras que não coloquei na história porque são tão inverossímeis que as pessoas não iriam acreditar.

iG: O senhor gosta de estar em contato com os leitores em eventos como a Flip? 
Zuenir Ventura: Eu adoro. Viajo pelo Brasil há anos. Vou a todas as feiras e bienais que eu posso. Porque é uma forma de contato com o leitor. E é uma maneira de conhecer o Brasil.

iG: O senhor é conhecido por dar dedicatórias, e não simples autógrafos. Não se cansa nesse tipo de evento?
Zuenir Ventura: Eu parei de fazer noites de autógrafos aqui no Rio. A última que fiz durou sete horas. Saí arrasado. Era 1h20 da madrugada e eu quase urinei na calça. Fui atravessar um pátio e quase não aguentei.

Sem falar que as pessoas ficam duas horas na fila, é desagradável. Muitos querem bater um papo com o autor, enquanto quem está atrás faz cara feia, pois está esperando faz tempo. Você fica naquela aflição. Aí eu falei que não vou fazer mais, não. Farei agora na Flip porque é um número mais restrito de pessoas.

iG: Qual a expectativa para mediar o papo entre Luiz Eduardo Soares e Fernando Gabeira?
Zuenir Ventura: Estou muito apreensivo. Eu continuo foca (jargão jornalístico usado para definir o repórter novato), fico com frio na barriga em cada palestra. Estou estudando autoritarismo, porque vou mediar duas feras, duas figuras importantes. Ainda bem que é só mediar, passar a bola para os dois. Vou exercer o meu autoritarismo na contagem de tempo (risos).

iG: E o que espera da mesa em que divide as atenções com Dulce Maria Cardoso e João Anzanello Carrascoza?
Zuenir Ventura: Aí eu vou falar mais do "Sagrada Família", contar histórias do livro, de como foi feito, como era a minha família real.

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