Zuenir Ventura une ficção e memórias em "Sagrada Família"

Escritor transforma lembranças em novas histórias: " em  determinado momento, já nem sabia mais o que era fato real", conta

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Capa de "Sagrada Família", da editora Alfaguara

A epígrafe é elucidativa: "Só dez por cento é mentira. O resto é invenção", lembrança a uma famosa frase do poeta Manoel de Barros. Com esse ponto de partida, o jornalista e escritor Zuenir Ventura sentiu-se à vontade para escrever "Sagrada Família", misto de memória e ficção que a editora Alfaguara lança neste sábado – o lançamento oficial acontece durante a Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip 2012 , em julho.

"São lembranças que transformei em novas histórias", conta. "Em um determinado momento, já nem sabia mais o que era fato real."

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Conhecido por grandes obras de não ficção (como "1968 - O Ano Que Não Terminou"), além de reportagens clássicas transformadas em livro ("Chico Mendes - Crime e Castigo"), Zuenir cultivava havia dez anos o projeto de delinear suas lembranças – não na forma tradicional de autobiografia, mas uma mescla movida à nostalgia.

Assim, "Sagrada Família" concentra-se na cidade ficcional de Florida, na região serrana do Rio de Janeiro, nos anos 1940. Pelos olhos do narrador, Manuéu (alter ego do escritor), surgem personagens hilariantes, como a tia Nonoca, uma viúva fogosa pois ainda jovem, e suas filhas Cotinha e Letinha, incansáveis na luta por um novo amor. Ao traçar o cotidiano de uma pequena comunidade, Zuenir consegue reconstruir um importante período da história brasileira, que tanto compreende a iminente entrada na Segunda Guerra Mundial como o importante passo na modernização da sociedade.

"Essa foi uma época de muito recato escancarado e, ao mesmo tempo, muita malícia escondida, o que resultava em uma grande hipocrisia", observa Zuenir, que se inspirou na história de duas primas para criar as irmãs Cotinha e Letinha. "Ainda está muito viva a memória da minha família, que me serviu de mote", conta o escritor, que contratou uma pesquisadora para acertar datas e fatos históricos que ambientam a trama, enquanto ele próprio se ocupou de ouvir amigos e outros parentes.

"O cineasta Roberto Farias, por exemplo, meu amigo de infância, cobrou a presença da Viuvinha no livro", diverte-se ele, referindo-se à figura da mulher que se tornou lendária na cidade por iniciar sexualmente os garotos. Embora Florida seja fictícia, Zuenir inspirou-se em seus momentos vividos em Friburgo.

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