Lady Gaga e o Little Lord Gaga

Um menino de 12 anos posta um vídeo na rede interpretando um sucesso da cantora e é visto por milhões de internautas

Pedro Alexandre Sanches, repórter especial iG Cultura |

Getty Images
Lady Gaga em ação: espalhafato, escândalo, figurinos chamativos e declarações bombásticas
O menino norte-americano Greyson Michael Chance, de 12 anos, deu um nó na cabeça do mundo musical ao longo das duas últimas semanas. Tudo começou em 28 de abril, quando ele próprio jogou no YouTube o vídeo de uma apresentação escolar em que cantava, ao piano, "Pararazzi", um dos principais sucessos da estrela pop mais comentada e massificada do planeta no momento, Lady Gaga. Em 20 dias, o vídeo colocado pelo garoto já foi visto mais de 17 milhões de vezes, sem contar cópias que se alastram feito Gremlins pela internet.

O nó: o menino dá uma interpretação arrebatada e arrebatadora a um hit pop banal, uma dance music de letra aparentemente fútil sobre fama, grana, glamour, celebridade e superestrelato. Greyson canta como se fosse o último dia de sua vida, endiabrado num arranjo de piano que faz lembrar mais Bertolt Brecht e Kurt Weill que Lady Gaga. Poderia um pirralho pré-adolescente conferir profundidade ao modelo pop mais comercial e superficial de que se tem notícia? Como?

A segunda volta do nó: sabe-se que a nova-iorquina Lady Gaga, hoje com 24 anos, estudou num rígido e caro colégio católico e começou a tocar piano clássico aos 4 anos de idade. Adolescente rebelde, jogou as convenções (e o piano clássico) para o alto e se jogou de cabeça no pop, decidida a conquistar os tesouros capitalistas descritos na letra de "Paparazzi". No curto intervalo de tempo entre o lançamento do primeiro disco ( The Fame , de 2008) e agora, transmutou-se de garota doida pela fama a vendedora de 25 milhões de discos. No mês passado, a revista norte-americana Time colocou a jovem cantora no topo de sua lista das personalidades mais influentes do ano na cultura.

Não foi só a Time . Greyson, já apelidado de Little Lord Gaga, parece ter captado o que há em Lady Gaga, por trás de todo o sucesso. Por baixo da aparente pobreza musical de "Poker Face", "Just Dance", "Bad Romance" e "Telephone", o garotinho parece perceber que não há nada de banal em Lady Gaga, uma artista que recombina e remistura de modo feérico música, moda, cinema, teatro, artes plásticas, desenho animado etc. etc. etc.

Até Greyson aparecer, Gaga impressionava mais pelo aspecto visual que pelo sonoro. Evidência máxima é o furor que ela causa em videoclipe, um formato que de resto andava estéril e decadente. Seu vídeo mais recente, "Telephone", dividido com Beyoncé, foi declarado o mais visto da história do YouTube em abril passado, quando superou a marca de 180 milhões de visitas.

Reprodução
Greyson no vídeo do Youtube: milhões de visitas
Não é para menos. Assistir a um clipe de Gaga é como fazer um passeio a jato pela história da cultura pop. Passam pela telinha do YouTube, em velocidade de raio, referências a David Bowie, Madonna, Andy Warhol, The B-52’s, Michael Jackson, Quentin Tarantino, Marcel Duchamp, Stanley Kubrick, Leonardo da Vinci, Grace Jones, Pet Shop Boys, Alfred Hitchcock, Queen, Salvador Dalí, Blondie, desenho animado, mangá, ABBA, bandas de heavy metal, Cher, Marilyn Monroe, Marilyn Manson, Sex Pistols, Kylie Minogue, Betty Boo, Peaches, Kraftwerk... – a lista é praticamente inesgotável.

Geniozinho

Até se poderia dizer que é tudo um gigantesco pastiche, mas o menino Greyson e mais um sem-número de consumidores dão conta de como ela excita e estimula a imaginação alheia. O YouTube anda abarrotado de imitações, paródias, esculhambações e homenagens a Gaga e a cada um de seus movimentos. Não é à toa que a artista não dá uma entrevista sequer sem agradecer e elogiar repetidas vezes seus fãs – que ela, a Fame Monster (título de seu segundo CD), apelida de “monstrinhos”. Greyson Michael é, por estes dias, o reizinho pop-erudito de todos os “little monsters” da Gagalândia.

Outra volta do nó, diretamente do vídeo escolar que ele colocou no YouTube: após a primeira e surpreendente audição, torna-se diversão garantida revê-lo prestando atenção nos detalhes ao redor. Greyson está de perfil, em primeiro plano, e atrás se aglomera uma plateia formada integralmente por meninas na mesma faixa etária. Conforme a apresentação evolui, são impagáveis as expressões de tédio, desinteresse, surpresa, incredulidade, interesse, perplexidade e indecisão que as garotas vão fazendo – talvez sejam as mesmas caras que nós fazemos do lado de cá da tela do computador, como se fôssemos a continuação da plateia escolar do geniozinho.

Detalhe adicional: ao fundo da cena, atrás das meninas, fica focalizado o tempo todo um grande mapa da América do Sul. O mundo (inclusive o da música) está mesmo virado de ponta-cabeça.

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