José Wilker de volta ao teatro que quer fazer diferença

Diretor de "Palácio do Fim" fala sobre a "adoração da classe C" no Festival de Curitiba

Denis Victorazo, enviado especial a Curitiba |

Em Curitiba, participando do Festival de Teatro, José Wilker lembra que antigamente os espetáculos estreavam na cidade e se davam certo, iam para o eixo Rio-SP. "Se uma peça fala com o público de Curitiba, fala com o público do Brasil."

AgNews
Antônio Petrin, Camila Morgado, Vera Holtz e José Wilker na coletiva da peça "Palácio do Fim"
Wilker já fazia teatro nos anos 60. Era a época do teatro político, engajado. Hoje ele acha que a política partidária só empobreceria o teatro, mas sente falta de um teatro que não seja apenas de entretenimento, que sirva para reflexão. "O teatro tem que ser uma nova maneira de discutir os nossos temas. Dirigi 'Palácio do Fim' para homenagear o teatro em que acredito e exercitar a sensibilidade das pessoas."

Leia também: "Palácio do Fim" leva a Guerra do Iraque ao teatro de São Paulo

Assinado pela dramaturga canadense Judith Thompson, "Palácio do Fim" é baseado em fatos verídicos sobre a invasão americana ao Iraque em 2003.

A encenação de Wilker tem no elenco Antonio Petrin, Camila Morgado e Vera Holtz. Eles estrearam no Rio de Janeiro e passaram por São Paulo antes de se apresentar em Curitiba.

Vera Hotz conta que quando leu a peça achou o texto muito sofrido e decidiu não fazer. Depois de reler passou por cima da dor e ficou com vontade de aceitar o convite, mas com vergonha de pedir para Wilker.

Siga o iG Cultura no Twitter

"Quando eu falei pra minha mãe que o Zé tinha me convidado pra fazer uma peça sobre o oriente médio, ela que é muito estudiosa perguntou: 'Você sabe alguma coisa sobre o oriente médio?' Eu disse que não. 'Então começa a estudar agora'. E eu fui para internet", explicou a atriz.

"E quando íamos estrear no Rio, tinha gente que dizia que o público estava saturado de violência, com as UPP (Unidades de Polícia Pacificadora), os tiroteios, as fugas e todo esse espetáculo da violência. Mas o público foi aumentando cada vez mais", completa.

Camila Morgado interpreta Lynndie, a militar cujas imagens humilhando um prisioneiro preso por uma coleira correram o mundo. Ela conta que foi muito difícil se aproximar da personagem. "Minha sorte foi ter sido chamada por último e ter apenas três semanas para ensaiar. Não tive tempo para sofrer."

Sobre a personagem, Morgado disse tentar evitar quisquer julgamentos. "O que ela fez foi imperdoável, mas ela, de certa forma, também pode ser vítima de um sistema. Eu tento não julgar, para que o público possa ter um julgamento".

A moda da "adoração da classe C"

Além de defender um teatro que tenha alguma consequência na vida das pessoa, José Wilker criticou a moda que chama de "adoração da classe C ou da classe emergente". "Em nome disso está se colocando uma estética que empobrece todos os meios que usam a estética como suporte. Empobrece o teatro, o cinema, a televisão. Por que se decretou que a classe C tem um tipo de sensibilidade para a vida mais pobre que a classe que anteriormente consumia bens culturais. Isso é o assassinato dessa classe. Se você acostuma alguém a comer cocô, esse alguém vai gostar de cocô um dia, mas isso não quer dizer que cocô seja bom! Enfim, falei demais..."

AgNews
A atriz Camila Morgado durante a coletiva de "Palácio do Fim" no Festival de Curitiba
Mas a entrevista terminou descontraída, com Wilker dando sua opinião também sobre os musicais: "Estão importando um formato de musicais que os próprios criadores do gênero já decretaram a morte dele. Eu fiz o 'Hair', mas na época eu era hippie."

Depois da coletiva o diretor contou que sente falta do palco e esse ano volta a atuar numa produção sua, ainda na fase de captação de recursos.

Camila Morgado disse que está adorando trabalhar na nova novela "Avenida Brasil" . "O autor João Emanuel Carneiro é o máximo, e quando vi os primeiros capítulos fiquei feliz em fazer parte daquilo."
Sobre sua saída do "Saia Justa", ela disse que vai sentir falta do programa. "Era muito bom trabalhar com aquelas pessoas. Fiquei de cama quando tive que sair do programa."

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG