iG mostra transformação de Edwin Luisi em uma transexual

Ator comemora 40 anos de premiada carreira com a peça ¿Tango, Bolero e Cha, Cha, Cha" em que interpreta a personagem Lana Lee

Bia Amorim, iG Rio de Janeiro |

A rotina é desgastante e, portanto, desafiadora. Quatro vezes na semana Edwin Luisi chega ao Teatro Clara Nunes - no Shopping da Gávea, Rio - duas horas mais cedo que o público e se submete aos cuidados do maquiador Valter Rocha. Generosas camadas de base, delineador, pó, blush, cílios postiços e todo tipo de truque de esconde e revela - com a ajuda de espartilho e saltos de 15 centímetros -, mascaram as feições do ator e fazem nascer a transexual Lana Lee, estrela da peça “Tango, Bolero e Cha Cha Cha”.

Tamanha dedicação tem um incentivo extra. Aos 63 anos, Edwin comemora 40 anos de uma carreira cheia de sucessos memoráveis, como o protagonista Álvaro da primeira versão de “Escrava Isaura” - vendida para mais de 27 países -, o assassino do personagem Salomão Hayala, mistério que mobilizou o Brasil na novela “O Astro”, entre 1977 e 1978, ou a peça “Eu Sou a Minha Própria Mulher”, onde interpretou 22 papéis diferentes em cena, entre eles, um travesti. Justamente para marcar a data, ele resolveu voltar aos palcos com a mesma personagem que fez sucesso há 10 anos. "Tango, Bolero e Cha Cha Cha me fez virar referência como ator. Só podia ser ela a brindar uma data tão especial comigo", disse o ator paulistano, que foi laureado com importantes prêmios teatrais: Shell, APCA, Mambembe, Qualidade Brasil, Governador do Estado, entre outros.

A fase é de retrospectiva. E ao receber a reportagem do iG nos bastidores da produção, Edwin não apenas aceitou o desafio de mostrar fotograficamente como “nasce a sua estrela”, como também abriu o coração. Na entrevista a seguir, as revelações e considerações contundentes de um ator que fez do palco a extensão da vida. 

iG: Qual a sua avaliação desses 40 anos de carreira?
Edwin: Não foi simples. Tive enormes alegrias, grandes percalços, acertos e erros. O interessante é lembrar de quando decidi fazer isso. As inseguranças que advieram dessa demorada escolha. Mas eu era muito estudioso, dedicado, hábil e bem equipado para a profissão. Já tinha viajado, feito faculdades diferentes, lido muito, falava línguas, montava a cavalo.

iG: Como essas mudanças de faculdades foram surgindo?
Edwin: Eu queria ser médico, mas diante de uma autópsia desisti. Fiz Psicologia, mas saí. Depois cursei Cinema e parei quando ganhei uma bolsa de estudos de História da Arte na França. Depois fiz a Escola de Arte Dramática da USP e me formei aos 26 anos, tarde para época. Eram 400 candidatos e só 11 terminaram o curso. Desses, só eu continuo na ativa. Estou num momento ótimo. Até pensei: está tudo tão bom, que medo! (risos).

iG: Medo por quê?
Edwin: Vejo tanta coisa ruim acontecendo a minha volta e percebo que fui poupado. Construí uma carreira com dignidade e boas escolhas. Conscientemente não vendi a alma ao diabo, como tanta gente faz. Por três vezes recusei papel em novela para viajar com peça, o que é raro. Hoje, os atores saem do teatro para fazer novela sem nenhum pudor e deixam a produção na mão.

iG: Em que momento você se sentiu na estrada certa?
Edwin: Tive uma fase, dos 40 aos 50 anos, que a minha vida ficou morna. A grande virada veio com a primeira versão de “Tango, Bolero e Cha Cha, Cha”, que levei para os palcos há 10 anos. A partir daí não só fiquei seguro, como minha vida melhorou no sentido de me encontrar e ter um pouco de paz.

iG: Ser ator teatral no Brasil é andar na corda bamba?
Edwin: Não temos uma tradição cultural como nos Estados Unidos e Europa. Não temos uma política cultural forte e entre os nossos empresários a ocupação primeira é enriquecer rapidamente. Quando o (Gilberto) Gil foi ministro da Cultura, a gente pensou que fosse melhorar. Foi pior a emenda que o soneto, porque ele chegou a declarar que teatro não era coisa dele.

iG: Em algum momento você teve aquele questionamento de que quem faz teatro não faz televisão?
Edwin: Não. Televisão é subcultura mesmo, é entretenimento e não tem a mesma discussão que o teatro ou a literatura. Tem grandes pessoas na televisão, mas é uma cultura de massa, não dá para equiparar.

iG: Cultura de massa é subcultura?
Edwin: Eu acho que não dá para ter comparação com as grandes discussões que o teatro propõe. A televisão é um entretenimento e quando eu falo subcultura não é um sentido pejorativo. A televisão tenta levantar questionamentos em algumas séries e especiais, mas é raro. Não tenho veleidades de ser um teórico do teatro, mas de ser um obreiro, um cara que gosta de estar no palco, no ofício, como um peão.

iG: O teatro foi mais generoso com você do que a TV?
Edwin: Foi. Eu tenho uma carreira muito engraçada, porque sou extremamente bem sucedido no teatro, mas na TV, não. Foi uma via de mão dupla: rechacei um pouco, deixei de fazer papéis e não cultivei grandes amigos na TV. Não é que eu seja marcado ou que não gostem de mim, apenas fiz o meu trivial diferente.

iG: Você ficou sentido por não ter interpretado determinado papel na TV?
Edwin: Um papel não, mas eu acho que eu poderia ter sido melhor aproveitado. Ainda há tempo e espaço para eu fazer um bom papel na televisão. No teatro já vivi bastante, não tenho mais o que provar. Mas eu queria que mais gente conhecesse o meu trabalho e que falassem: ‘olha, aquele cara da Escrava Isaura voltou’. [o ator ganhou reconhecimento ao fazer o mocinho Álvaro na novela exibida pelo Globo em 1977, vista por milhões de pessoas em todo mundo]

iG: Você disse que ao longo do tempo as pessoas foram fazendo conceitos sobre você. Sofreu algum tipo de preconceito?
Edwin: Existem pequenas coisas que me pergunto se não são apenas da minha cabeça. No começo da carreira chegaram a falar que eu não seria ator porque era arrumado demais. Achavam que eu era o burguesinho que só fazia novelas de época. Outra coisa era o fato de eu trabalhar muito com o Herval Rossano [diretor morto em 2007], com quem fiz 12 novelas. Eu era cria dele e ele não era querido por algumas pessoas dentro da Globo. Não só pelo temperamento difícil, como pela ciumeira entre diretores. Aos poucos a vida se ajeita e hoje eu estou tão bem.

iG: Como funciona a vaidade para você?
Edwin: Existe a vaidade puxada para a soberba, que eu não tenho. Fisicamente? Tenho. Durante a formação da minha personalidade, fui campeão brasileiro de ginástica olímpica. Então, me alimentar bem, fazer ginástica e usar um bom xampu para mim é a mesma coisa. Aos 17 anos eu já sabia que faria plástica. Se eu posso ir ao dentista e fazer uma jaqueta, por que não posso arrumar a minha cara? Acho hipócrita.

iG: Rugas são problema para um ator?
Edwin: Meu físico do pescoço para baixo tem muito menos idade que a cara. Não dá para ter a cara defasada com aquilo que eu posso fazer em cena. Por que não ter uma vida mais longa no trabalho, com papéis de menos idade? Por que tenho que ficar velho, com cabelo branco se meu corpo está serelepe? O que eu faço hoje no palco tem muitos atores de 40 anos que não conseguem fazer. Com a cara ‘mais limpa’ posso ser melhor em cena.

SERVIÇO:
TEATRO CLARA NUNES - Shopping da Gávea.
Rua Marquês de São Vicente 52, Gávea (21) 2274-9696
Classificação: 14 anos / Temporada até 29 de agosto
Qui, sex e sab - 21h30. Dom - 21h. R$ 70 (qui e dom) e R$ 80 (sex e sáb).

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