Malu de Bicicleta , escritor fala de suas adaptações para o cinema e de trabalho como diretor" / Malu de Bicicleta , escritor fala de suas adaptações para o cinema e de trabalho como diretor" /

"Gosto mais de dirigir do que escrever", diz Marcelo Rubens Paiva

Em Paulínia como roteirista de Malu de Bicicleta , escritor fala de suas adaptações para o cinema e de trabalho como diretor

Marco Tomazzoni |

Divulgação/Leandro Moraes
Marcelo Rubens Paiva inicia temporada de nova peça no Espaço Parlapatões, em São Paulo
Um pouco antes do debate de Malu de Bicicleta , exibido no Festival de Paulínia, o escritor e jornalista Marcelo Rubens Paiva espera do lado de fora do estúdio amarelo, onde fica o lounge do evento. Cigarro na mão, vê uma funcionária da equipe indo reabastecer a térmica de café lá dentro e pede, por favor, uma xícara. Pouco depois ela volta, pedido atendido, ele sorri. “Aleijado é foda, melhor do que ser celebridade”, brinca, ácido, lembrando dos privilégios que tem em restaurantes de São Paulo.

O currículo de Rubens Paiva é de conhecimento público há quase 30 anos, quando Feliz Ano Velho foi publicado e a vida do estudante que fraturou a coluna virou referência nacional. Depois de muitas peças (uma delas, E Aí, Comeu? , ganhadora do prêmio Shell), sete romances publicados e alguns trabalhos na televisão (“tchau, nunca mais”, garante), ele estreia como roteirista de longa-metragem em Malu de Bicicleta , baseado em seu livro de mesmo nome. O espetáculo O Predador Entra na Sala , escrito há mais de uma década, marca sua segunda investida como diretor – A Noite Mais Fria do Ano , de 2009, foi a primeira – e inicia temporada na próxima semana.

E vem mais por aí. O escritor, hoje com 51 anos, tem uma série de projetos engatilhados no cinema, todos com roteiro seu, o suficiente para lançar um filme por ano daqui a algum tempo, e mais peças para dirigir. Na rápida entrevista a seguir, ele fala sobre tudo isso, do processo de criação, da tarefa solitária de escrever e de seu alterego, o ator Marcelo Serrado.

iG: Você pegou gosto pela direção?
Marcelo Rubens Paiva: Peguei. Descobri que gosto mais de dirigir do que de escrever.

Por quê? Por ter controle total sobre o texto?
Não sei, cara. É o exercício de uma troca que o escritor não tem. O escritor é muito sozinho, com as ideias na cabeça dele, solidão dele, neuroses dele... Quando se dirige, você está com uma equipe de atores, tem o cenógrafo, o assistente de direção, a produtora, o cara da luz, cada um traz um pouco de sua experiência. Cada um lê o personagem da sua maneira e traz coisas de seu inconsciente. É uma grande brincadeira, um grande jogo, uma terapia coletiva. Isso para o escritor, que vive solitário, é uma oportunidade de criar com pessoas. Estou adorando. Até vou dirigir uma peça que não escrevi e também fui convidado para dirigir um infantil, mas não topei porque não era um texto em que eu me identificava.

Que peça é essa que você também vai dirigir?
Vou dirigir no Rio uma peça que eu traduzi, se chama Deus é um DJ [do alemão Falk Richter] e estreia no começo do ano que vem. Também vou dirigir outra peça minha, essa sim inédita, que se chama O Book . Escrevi no ano passado e tem a ver com um book de putas.

Sua segunda peça como diretor, O Predador Entra na Sala (1997), estreia em breve. Por que remontá-la depois de tanto tempo?
O texto é inédito até hoje. Ia fazer com a Luciana Vendramini, mas na época ela teve uns problemas e não pôde mais. Daí que sobrou dinheiro de uma peça do Marião [Mário Bortolotto]. A gente ia fazer uma viagem em dezembro, mas ele levou os tiros e tivemos que cancelar. Fomos no patrocinador devolver o dinheiro e eles pediram para trocar por uma palestra, coisa e tal. Fizemos e foi ótimo, mas daí a produtora e também atriz Anna Cecília Junqueira sugeriu que a gente fizesse uma peça. Ela conhecia o texto do Predador , se encaixava perfeitamente no papel e eu disse, “vamos”? Dei também o texto para o Raul Barretto, que adorou, e estreamos na semana que vem.

O Predador chegou a ser publicado?
Tem uma versão pirata na Internet que vazou há muito tempo, lá por 1996, que inclusive foi montada várias vezes no interior. Mas eu já mudei um monte. O personagem principal era hippie, e a filha dele, punk. Agora o personagem é o punk e a filha, uma patricinha, para você ver como é a evolução das gerações. Reescrevi bastante.

Divulgação/Leandro Moraes
Marcelo Rubens Paiva e Marcelo Serrado: "é uma parceria que me deixa feliz", afirma escritor
A sinopse fala da relação entre pai e filha, mas também sobre a pressão e o mercado editorial. Tem alguma de coisa de autobiográfica nisso?
Total. É a vida de um escritor em crise e que recebe a visita de uma filha que ele não conhece, o que modifica a rotina da vida dele. E eu sou um escritor que moro sozinho, trabalho em casa, e eventualmente alguns amigos moram comigo, se separam e vão para lá, ou às vezes eu me caso. É interessante como a entrada dessa terceira pessoa interfere, muda um pouco o seu dia-a-dia, seu processo de criação. Foi um pouco inspirado nisso, de como essa solidão necessária do escritor é rompida por uma pessoa completamente diferente que entra na sua casa e bagunça tudo. E A casa do escritor é toda bagunçada. Bortolotto, por exemplo. Ele tem rinite e mora num apartamento que tem um milhão de livros e CDs. Já falei várias vezes, “Mário, vou mandar minha diarista um dia aí pra fazer uma limpeza porque é impossível”, e ele não deixa, porque ninguém pode tirar a bagunça do lugar. Essa peça é um pouco isso, a interferência que o mundo externo tem sobre a criação, esse parodoxo: enquanto um cara precisa da sua solidão completa para escrever, por outro lado o mundo é o que faz ele viver.

Feliz Ano Velho ainda vende bem?
Ô, e como. É só olhar no meu blog, tem comentários de muita gente que acabou de ler. É adotado em muita escola, leitura obrigatória no vestibular da Universidade de Brasília. Ele virou um clássicozinho descolado. Feliz Ano Velho é mais famoso do que eu. Tem mais gente na comunidade do livro no Orkut do que na do Marcelo Rubens Paiva. Na época em que eu acessava o Orkut, a minha tinha 4 mil pessoas e na do Feliz Ano Velho , 8 mil.

E teus projetos no cinema? Pelo que ouvi, tem muita coisa a caminho.
O cinema sempre esteve em paralelo com a minha literatura. Assim que escrevi Blecaute , por exemplo, a Chroma Filmes comprou os direitos, mas não conseguiram filmar. Assim que lancei o Bala na Agulha , a Globo comprou os direitos, ia ser uma minissérie. Chegaram até a anunciar, o Daniel Filho ia fazer, mas a Marluce [diretora-geral da TV Globo] vetou aos 45 do segundo tempo porque era a história de um michê. Minha explicação [para esse interesse] é porque escrevo de um jeito muito aristotélico, cinematográfico, com começo, meio e fim, tanto que em cinema, sempre se faz roteiro em três atos. Se você olhar meus livros, todos eles – coincidentemente, não porque pensei nisso – têm três capítulos. Então, quando a indústria lê meus livros, vê aquele filme. Desde o começo tinha esse interesse, mas acho que agora, com a retomada, com um nível de 60, 70 produções por ano, está aparecendo mais.

Quais livros estão sendo adaptados?
Agora tem o Malu de Bicicleta , depois vem o Bala na Agulha . A Segunda Vez Que Te Conheci está com a Conspiração Filmes, mas vou dar uma olhada. Três peças minhas já estão roteirizadas, que são No Retrovisor , E Aí, Comeu? e As Mentiras que os Homens Contam [adaptação de Luiz Fernando Veríssimo]. Como tenho uma paixão absurda, louca pelo cinema e como adquiri através do teatro uma técnica muito boa de lidar com timing e diálogo – cinema é isso –, me ofereço como roteirista desses projetos. Em Feliz Ano Velho não dei palpite nenhum. Era moleque ainda, não sabia nada e nem queria me meter, estava muito envolvido por ser uma história pessoal. Agora não, são histórias ficcionais e dá para ter esse distanciamento.

Você tem uma proximidade com essas produtoras grandes, não? Conspiração, O2, Gullane.
Tenho, porque, no caso da O2, eu e o [Fernando] Meirelles trabalhamos juntos na época do Olhar Eletrônico [programa da TV Cultura], ele era meu iluminador, e o Marcelo Tas, meu câmera, então a gente se conhece há muito tempo. O Meirelles me mostra um pouco de todos os filmes dele. O Cao Hamburger foi meu colega de escola. A Conspiração é dos meus amigos de botequim do Rio de Janeiro. Os Gullane nunca trabalhei, vai acontecer agora. Ainda não posso falar o que é, mas está praticamente fechado.

E o Marcelo Serrado está nesses projetos? Você comentou ontem que ele é quase teu alterego.
Ele é meu amigo há muito tempo, desde quando ele veio fazer uma peça do Zé Celso em São Paulo. O Marcelo foi quem me pediu No Retrovisor , na época do Beijo no Asfalto , que ele fazia, e muito bem, com Alessandra Negrini e direção do [Marcus] Alvisi. A gente saía muito e ele me perguntou, “Você não tem uma peça com dois atores? Quero fazer com o [Rodrigo] Santoro”, que é o melhor amigo dele, mas eu não tinha. Isso foi no domingo. Na segunda-feira, acordei com uma ideia, que era No Retrovisor , e escrevi durante a semana. Na sexta, quando ele voltou a São Paulo pra fazer a peça, contei pra ele e no dia seguinte fizemos uma leitura. Depois disso, foi um fenômeno – acho que é minha peça mais completa, perfeita, mais elogiada pela crítica – e pintou a ideia de fazer um filme. Ao mesmo tempo, ele leu o Malu de Bicicleta assim que lancei e disse que ia fazer esse filme. Tinham várias pessoas me procurando, mas pensei que aquele personagem era o Marcelo, que não é um galã de novela, é um ator, tem uma densidade muito grande.

Ele está muito bem nesse filme.
É impressionante, ele fala com o olhar. Nem ele sabe disso, como o Marcelo Mastroianni também não sabia o quão bom era. Mas agora ele está ganhando prêmios, as pessoas descobriram que ele é um grande ator. Aí começamos o Malu de Bicicleta . Agora ele quer filmar o No Bala na Agulha e vai me pedindo outro projetos. É até engraçado, porque nessa peça que vou dirigir no Rio, pensaram em chamar o Marcelo. Falei “pelo amor de Deus, não agüento mais trabalhar com ele” (risos), mas ele se encaixaria perfeitamente no papel. A gente é muito parecido: somos perfeccionistas, fazemos dez coisas ao mesmo tempo, temos uma visão de vida muito parecida. A gente brinca que ele é o rei do Rio, eu de São Paulo. Se você for pro Rio e precisar de alguma coisa, fala com o Serrado. Se for pra São Paulo, fala comigo. E deu essa química, assim como Scorsese com De Niro, e agora com o Di Caprio. Acho que é legal um autor, diretor, encontrar um cara com que role essa sintonia. Ele lê as coisas que escrevo e entende o que quero dizer. Realmente, é uma parceria que me deixa feliz.

E essa vontade de dirigir teatro, não vai passar também para o cinema?
Não, eles acordam muito cedo. Às seis da manhã, não consigo. Teatro a gente ensaia à tarde ou à noite, nunca de manhã.

Acompanhar as filmagens do Malu não te fez mudar de ideia?
Não, nem um pouco (risos), tanto que eu chegava às dez. É muito cedo, muito trampo. Acompanhei muito mais as filmagens do Malu porque agora no Brasil é preciso aprender a fazer roteiros de baixo orçamento. Então, como autor, queria saber o que era barato e o que era caro. Por exemplo, eu achava que era caro ter muito personagem, e não é, isso é baratíssimo, porque todo ator quer fazer cinema e a gente tem muitos amigos. Comecei a ver na prática o que no roteiro ajudava e atrapalhava, para já escrever com isso em mente.

Serviço

Malu de Bicicleta
Direção de Flávio Tambellini
Com Marcelo Serrado, Fernanda de Freitas, Marjorie Estiano
Estreia: novembro de 2010 (previsão)

O Predador Entra na Sala
Texto e direção de Marcelo Rubens Paiva
Espaço Parlapatões, São Paulo
Estreia em 28 de julho de 2010
Quartas e Quintas às 21h
Ingressos: R$30 (inteira) e R$15 (meia)

* o repórter viajou a convite do festival

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