Globo prepara lançamento de Roque Santeiro em DVD

Considerada o maior sucesso da emissora, novela volta à tona em meio a boatos de uma acidentada adaptação cinematográfica

Pedro Alexandre Sanches, repórter especial iG Cultura |

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Logo da novela Roque Santeiro : país se enxergou no espelho com a história do falso santo milagreiro
Roque Santeiro, uma das produções mais bem-sucedidas da história da Rede Globo, será também a primeira telenovela lançada oficialmente e na íntegra em DVD. A Globo Marcas promete para o início de agosto a caixa com 16 DVDs e cerca de 50 horas de duração.

O êxito de Roque Santeiro 25 anos atrás é suficiente para justificar a entrada tardia da rede na comercialização caseira de suas novelas. Hoje, a teledramaturgia da Globo circula livremente na internet, seja de modo fragmentado, via YouTube, seja num mercado paralelo que oferece Roque Santeiro em oito DVDs, por R$ 80, ou em 52 volumes, por R$ 300 (segundo a Globo, a versão oficial custará R$ 250). A mais recente Caminho das Índias , vendida na pirataria por R$ 350, deve ser a próxima a ser lançada com o carimbo Globo Marcas.

Procurada para comentar a pirataria de seus produtos, a rede emitiu uma resposta lacônica: A TV Globo busca combater esta prática tão prejudicial através da veiculação de campanhas educativas em sua programação e da adoção de medidas repressivas.

Roque Santeiro costuma ser considerada a novela de maior audiência da emissora. Os números são controversos, mas fala-se de 63 ou 67 pontos no Ibope, em média. No decorrer de 209 capítulos, exibidos entre 24 de junho de 1985 a 22 de fevereiro de 1986, bordões criados pelos atores Lima Duarte e Regina Duarte se tornaram mania nacional. Ele, na pele do Sinhozinho Malta, celebrizou a frase "tô certo ou tô errado?", dita em tom ameaçador e acompanhada de um chacoalhar de pulseiras com sonoplastia de guizo de cascavel. Ela, como a Viúva Porcina, tornou moda nãoo só o grito estridente de "Mina!" (para chamar a empregada doméstica interpretada por Ilva Niño), como também o figurino espalhafatoso de turbantes, brilhos, cores e maquiagem berrante.

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Os atores Lima Duarte, Regina Duarte e José Wilker como seus personagens de Roque Santeiro
A trama girava em torno de Roque (José Wilker), dado como morto numa peleja contra o bandido Navalhada (Oswaldo Loureiro) e tido como santo milagreiro pela crença popular da fictícia cidade nordestina de Asa Branca. Roque voltava à cidade natal 17 anos depois, sem saber de nada, para encontrar uma viúva de araque (Porcina era a que foi sem nunca ter sido) e causar desespero na elite conservadora de Asa Branca, que se beneficiara fartamente da exploração comercial do falso herói.

Em tom de sátira e pastelão, o coronel Sinhozinho Malta, o prefeito Florindo Abelha (Ary Fontoura), o padre Hipólito (Paulo Gracindo), o comerciante Zé das Medalhas (Armando Bogus) e a beata Dona Pombinha (Elosa Mafalda) espelhavam o Brasil de então, recém-saído do ciclo militar e recém-governado pelo civil José Sarney. O país se enxergou no espelho, e transformou Roque Santeiro em coqueluche. Era a libertação de um grito preso na garganta também para o autor da novela.

Ligado ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), o baiano Dias Gomes já fora censurado duas vezes por conta daquela história. Em 1965, foi interditada pela Censura sua peça teatral O Berço do Herói. No argumento inicial do autor de O Pagador de Promessas (1960), o protagonista era um (falso) herói de guerra, o Cabo Jorge, militar como os que governavam o país desde o golpe de 1964.

A primeira versão, que deixou de ser antes de ter sido

O Cabo Jorge voltaria dez anos mais tarde, camuflado e travestido de civil, na primeira versão global de Roque Santeiro , com o mesmo Lima Duarte interpretando Sinhozinho Malta, mais Betty Faria como Porcina e Francisco Cuoco no papel-título. A versão de 1975 foi vetada pela Censura na noite da estreia. Um compacto de Selva de Pedra substituiu a novidade abortada, enquanto a esposa de Dias Gomes, Janete Clair, preparava às pressas uma trama substituta, que entraria no ar três meses depois. Pecado Capital estrearia com o mesmo elenco da novela que deixava de ser antes de ter sido.

A quem reclame de censura e falta de liberdade de expressão no Brasil de hoje, instrutiva a justificativa de proibição enviada à Globo pela Censura: A novela contém ofensa moral, ordem pública e aos bons costumes, bem como achincalhe à Igreja. O que aconteceu foi que o governo interceptou uma conversa telefônica de Dias Gomes, em que ele contava que Roque Santeiro era o Cabo Jorge disfarçado e afirmava que esses militares são muito burros e não iam perceber nada. O grampo telefônico custou mais dez anos de espera a Roque Santeiro .

Sob os ventos da Nova República, a Globo se dispôs a refazer a produção, mas não contou de início com o entusiasmo do autor, que não escrevia uma novela desde 1979. Foi convocado o novelista semi-estreante Aguinaldo Silva, que assumiu a escrita dos capítulos do ponto onde Dias havia parado. Vitaminado pelo sucesso, Aguinaldo adicionou seus cacos à novela, além de personagens novos como o padre progressista Albano (Cláudio Cavalcanti), que polarizava com o padre Hipólito e vivia um romance com a filha do Sinhozinho, Tânia (Lídia Brondi).

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Viúva Porcina e Sinhozinho Malta: bordões dos personagens se tornaram mania nacional
A briga de padres alegorizava a tensão entre um Brasil decadente, conservador, e outro ainda indefinido que tentava nascer - e vazou para a chamada vida real. Diante do êxito da novela conduzida por Aguinaldo, Dias pareceu se enciumar e retomou o controle da trama a partir do capítulo 163. As criações do pupilo foram abandonadas, inclusive o padre vermelho, totalmente esvaziado pelo autor original.

Ironicamente, Aguinaldo se consolidaria como autor de novelas a partir dos anos 90 com uma série de tramas inclinadas alegoria nordestina e ao realismo fantástico que Dias Gomes consagrara nos anos 70 em obras como O Bem-Amado (1973) e Saramandaia (1976). Dias afastou-se de vez das novelas em 1990, e Aguinaldo prosseguiu na mesma linha com Tieta (1989), Pedra Sobre Pedra (1991), Fera Ferida (1992), Porto dos Milagres (2001), Senhora do Destino (2004)...

Brigas à parte, entre as várias raízes do sucesso de Roque Santeiro estava a amálgama criada em desarmonia pelos dois autores. A novela apostava no riso, na comunicação fácil e direta e até em histórias de lobisomem (na figura soturna do professor Astromar de Ruy Rezende), mas tinha um quê de Glauber Rocha - desde a música de abertura, em que Moraes Moreira falava sobre deus e o diabo na terra. Do filme Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) vinham os atores Maurício do Valle, Othon Bastos e Yoná Magalhães, essa agora no papel da cafetina Matilde, desafiadora da moral e dos bons costumes defendidos pela primeira-dama Pombinha. Paulo Gracindo, agora padre, encarnara o ditador Porfírio Diaz em Terra em Transe (1967).

Em 1985, estavam mortos Glauber Rocha e o hermetismo glauberiano do Cinema Novo dos anos 60. A ressurreição de Roque Santeiro revisitou a terra em transe glauberiana em linguagem popular e comercialmente bem-sucedida, como do gosto da Globo. Hoje, a rede tenta lucrar de novo com Roque Santeiro , enquanto segue acidentada a produção de uma versão cinematográfica anunciada por Daniel Filho (diretor da versão abortada de 1976), com Antônio Fagundes como Sinhozinho Malta, Fernanda Torres como Porcina e Lázaro Ramos como Roque. Daniel Filho desligou-se do projeto em março, Aguinaldo Silva afirmou à mesma época que não faria mais o roteiro, e o destino dessa nova encarnação do mito permanece incerto.

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