Filha de Che Guevara no Leblon: "Discuto com minha filha a cada 5 minutos"

Aleida Guevara defende MST, reclama do preço dos carpinteiros em Cuba e fala sobre os conflitos com a nova geração da família de sobrenome histórico

Valmir Moratelli, iG Rio de Janeiro |

George Magaraia
Aleida Guevara, 50 anos, uma dos cinco filhos de Che

Poucas pessoas no mundo carregam um fardo tão grande quanto Aleida Guevara. O sobrenome único substitui qualquer outra apresentação. Ela é filha de Che Guevara, o guerrilheiro, herói e líder da revolução cubana. Como herdeira desse ícone, Aleida precisa conviver com todas as questões que o sobrenome lhe traz. Ainda que isso não pareça um problema aparente em seu discurso. “Tenho um privilégio espetacular de ser filha de quem sou. A luta dele não foi para me dar um bom futuro, mas pelo futuro de todo o povo. Sou fruto do amor de um homem e uma mulher e, mais do que isso, do amor de um homem pelo seu povo”, afirma.

Dos líderes socialistas Aleida herdou a disposição para falar por horas a fio, sem interrupção, em pé. E é para cerca de 150 pessoas que ela discursa por exatas 3 horas e 15 minutos, na noite fria de uma segunda-feira chuvosa, no Leblon, zona sul do Rio. Fãs de Che, militantes de esquerda e políticos, como o ex-senador Saturnino Braga, que ficou ao seu lado quase o tempo todo, lotaram até as escadas do atual teatro Oi Casa Grande, que comemora 45 anos com uma série de palestras .

Aleida chega pontualmente às 20h. Faz um discurso de mais de uma hora, sobre o atual momento político de Cuba . Temas previsíveis se sucedem. Arranca os primeiros aplausos ao proferir duras críticas ao bloqueio econômico dos Estados Unidos. Defende o MST como o “movimento social mais importante das Américas, por lutar pela reforma agrária”; critica a democracia como um “modelo criado pelo gregos que nem eles praticaram”; classifica a igreja católica como “ultrapassada por colocar a mulher em papel secundário desde o século 11”; e fala do projeto de “um satélite chino-venezuelano, que levará internet a todos em Cuba”.

George Magaraia
Aleida tem duas filhas e mora em Havana, capital de Cuba

Bochechas coradas

A senhora de 50 anos é a segunda dos cinco filhos de Che. Não usa maquiagem. As bochechas são rosadas naturalmente. Não tem as unhas feitas nem é adornada por nenhum tipo de joia, a não ser por um relógio branco. Nada mais. Aleida tinha 7 anos quando o pai morreu. Mas o tal “fardo” pelo sobrenome que carrega parece possibilitar que ela fale muito no passado. “É a revolução em pleno curso”, diz o tempo todo. Cita que “Cuba está sendo alvo de ataques não apenas verbais, mas também bacteriológicos”. E dá como exemplo um surto de dengue hemorrágica na ilha em 1980, que teria matado 151 cubanos, 101 crianças dentre eles. A plateia ouve em silêncio.

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Entretanto, é quando se deixa mostrar mais na intimidade que Aleida conquista os presentes não tão alinhados com seu pensamento. Moradora de Havana, conta que tem duas filhas, uma de 22 e outra de 21 anos. “Discutimos em casa a cada cinco minutos”, afirma. “A mais velha está cursando Economia. Ela é jovem e quer ter roupa bonita, ter algum dinheiro para consumir uma bebida. Mas sabe que tem que se limitar”. Aleida fala das diferenças de discurso que a nova geração da família Guevara profere nas ruas. Recentemente, ela ouviu a filha conversando com um amigo que quer sair do seu país. “Ela disse para ele ter consciência do que estava falando, para pensar com calma numa atitude que não teria volta. Se fosse comigo, teria dado um esporro nele, aos gritos”, avisa. O público reage com aplausos.

Assim como o pai, ela seguiu carreira médica. Nas horas seguintes, o teatro é envolvido por um clima romantizado em que o público a ouve contar, entre outras coisas, que ganha o equivalente a 35 CUCs por mês como pediatra (a moeda cubana para turistas, quantia equiparada a 35 dólares).

George Magaraia
Livio Basevi, de 8 anos, ouve atento
Sorrisos raros

Aleida também sabe ser divertida. Conta que, há algumas semanas, precisou de um carpinteiro para consertar uma gaveta de sua cozinha. Profissão cuja mão de obra é escassa na ilha. O homem tirou as medidas e fez um orçamento estrondoso. “Me cobrou 575 pesos cubanos! De onde eu ia tirar isso tudo? Pela mãe que o pariu! Não tem como. Agradeci e o mandei ir embora”, conta ela, aos risos.

E como faz com a gaveta? “Tem que se buscar alternativas. Apesar de sermos uma sociedade socialista, vivemos neste planeta”. É com metáforas que Aleida se municia para explicar como se vive em Cuba desde o desmantelamento da União Soviética, então maior patrocinadora do regime. “Imagina uma pessoa pintando o teto de casa, vem alguém e lhe tira a escada. Não podemos deixar as conquistas da revolução desaparecerem. Mas agora temos que construir uma escada própria para continuarmos pintando o teto”, diz.

A herdeira de Che tem também humor para rir de suas próprias convicções. Conta que um fictício jornalista chega em Havana e vai a uma casa para entrevistar uma dona de casa. A senhora, fraca de fome, aceita o papo. “Ah, sim....”. Ele quer saber com quem ela vive. “Ah... com... meu pai”. Daí aparece um senhor nu, bem magro e igualmente fraco. A mulher o intercede. “Papai, tape seus testículos. Temos visita”. O jornalista completa: “Isso, mande-o tapar seus ovos”. A mulher então se assusta. “Não diga esta palavra, que ele pode pensar que é de comer”. A plateia aplaude efusivamente. Fidel não faria melhor.

“Diários de Motocicleta”

O líder da revolução cubana, símbolo maior da utopia socialista, figura da pop-art cult das décadas seguintes, mascote da torcida do Flamengo, o jovem pueril de “Diários de Motocicleta” ou ainda, para ficar com outro exemplo mais recente do cinema, o “Che” que Benicio del Toro interpretou em dois longas de Steve Soderbergh. Todos estes podem ser chamados de pais de Aleida, visto que a história se serviu de diferentes visões do controverso personagem argentino.

Mas a filha de Che prefere a visão de Walter Salles à de Soderbergh, o Che vivido por Gael Garcia Bernal do que por Del Toro. “É que o ‘Diários’ é um filme todo latino, feito em parceria com vários países latinos. O outro é de Hollywood, não tem a ternura que o Walter soube dar à história. Gael é mais Che do que Benício”, analisa.

A única vez que Aleida cita o pai é para explicar o que considera o maior desafio da revolução na atualidade. “Che falava em trabalho voluntário. Quando você trabalha, tem ganância. Mas quando se trabalha pelo outro, você tem a noção do que é ser útil. Perder esta consciência social é um risco imenso para o que ganhamos até aqui”.

George Magaraia
Cercada de fãs de seu pai, a médica sorri para fotos

“Yankees não”

Após a palestra Aleida respondeu perguntas do público durante mais de uma hora. Alguém quer saber o que ela aconselha para o Brasil. Um senhor chuta a resposta, baixinho: “Educação para os niños”. Errado. “Reforma agrária”, ela diz, para delírio dos presentes.

Às 23h15, ela encerra a rodada de perguntas. Aleida é então cercada por gente munida de máquinas fotográficas, camisetas e fotos de seu pai. Todos querem um autógrafo, um pedaço de história. Com braços levantados, os mais exaltados gritam: “Cuba sim/ yankees não/ viva Fidel / e a revolução”. Aleida posa para algumas fotos. Já não é a defensora política de Cuba em cena. Mas a guardiã da posição de popstar que seu pai se tornou. Logo ela se desvencilha da multidão que a cerca, direto para um táxi que a espera na calçada. Não é fácil ser filha de quem é.

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