Festival de Teatro de Curitiba tem noite de diversão e nostalgia

Evento recebe 'Escravas de Amor' e nova peça de Edson Celulari, 'Nem Um Dia Se Passa Sem Notícias Suas'

Denis Victorazo, enviado especial a Curitiba |

Na segunda noite do Festival de Teatro de Curitiba, a companhia Carioca Os Fodidos Privilegiados divertiu as quase 2 mil pessoas que estavam no Teatro Guaíra com a comédia "Escravas do Amor", adaptação e direção de João Fonseca, da obra de Nelson Rodrigues.

Esta é, na verdade, uma remontagem muito bem-vinda do espetáculo que estrou no Rio de Janeiro em 2006.

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Atrizes do espetáculo 'Escravas do Amor'

"Escravas do Amor" era um folhetim escrito sob o pseudônimo Suzana Flag. Como era publicado originalmente em jornal diário muito antes de ter sido lançado em livro, o espetáculo faz bom uso dos "capitulos", deixando sempre para depois a melhor parte.

Quando a jovem, bela e rica Malú, perde o namorado que morre misteriosamente as vésperas do noivado, sua mãe se desespera e confessa que, no passado, eles haviam tido um relacionamento e era a ela que ele amava de verdade. Ciúmes, traições, vinganças - ou seja, uma deliciosa família normal rodrigueana.

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Cena de 'Escravas do Amor'
Como numa boa novela, ou num melodrama dos bons, mesmo que se conheça bem a fórmula, a gente se diverte e até se surpreende com a coragem de ir fundo no clima. Melhor ainda que ler Suzana Flag hoje é assistir uma encenação com bons comediantes. As frases anos 1940 são irresistíveis.

Como ficar imune ao personagem de uma tia que diz, "Sou solteirona"; ou ao despeito de outra que pondera, "Ela não é mal arranjada, mas aposto que usa cinta"? Ou então a um amante que dasafia: "Que graça tem beijo de marido?"

Há ainda frases que hoje seriam proibitivas: "Compreendi então os homens que batem em certas mulheres", ou simplesmente apresentar uma personagem de criada como "a criolinha".

A montagem de João Fonseca, também diretor do mega-sucesso "Tim Maia", em cartaz em São Paulo, é rica em detalhes, passagens de cena criativas, e boa direção de movimento de Ana Bevilaqua. Tem tudo para ser outro sucesso quando entrar em cartaz em São Paulo ou no Rio.

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No elenco, junto com bons atores de teatro como Roberto Lobo, Rose Abdallah, Fabrício Belsoff e Paula Sandroni, estão Juliana Baroni e Sérgio Marone nos papéis jovens, e não fazem feio ao lado dos 13 colegas.

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Edson Celulari e Pedro Garcia Netto

Manhã de bom humor em família

Em uma entrevista coletiva pela manhã, Edson Celulari estava de bom humor. "Vocês acordam cedo!", disse aos jornalistas.

Celulari e seu sobrinho, o ator Pedro Garcia Netto, falaram da importância do Festival: "Aqui é o lugar para se perguntar se o teatro que eu penso é o teatro que eu faço" admitiu Celulari. Falaram também das dificuldades de encontrar um bom dramaturgo nacional. Eles exibem nesta quinta e nesta sexta em Curitiba, no Teatro Bom Jesus, a peça "Nem Um Dia Se Passa Sem Notícias Suas", da dramaturga carioca Daniela Pereira de Carvalho, que tem direção de Gilberto Gawronski.

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Edson Celulari e Pedro Garcia Netto
"É tão legal pegar um autor jovem brasileiro com essa qualidade e é tão difícil! Mas já tivemos momentos piores", afirma Celulari, que tem feito espetáculos grandiosos (seu mais recente trabalho foi o musical "Hairspray") e queria um trabalho pequeno, de câmara. "Cheguei a dois agora. Monólogo eu não penso em fazer por enquanto. Vou olhar para quem? Trocar com quem? Pode ser que mais tarde eu mude de ideia."

Trabalhar em família não foi difícil para os dois atores que interpretam irmãos nessa peça. "Às vezes o Pedro fala uma parte do texto e eu penso: ele está imaginando o meu tio, ou alguém da família", conta. "Nosso relacionamento é bom. Às vezes o diretor dizia para eu parar de proteger o Pedro e para ele parar de me respeitar tanto!".

Da infância, Pedro conta que lembra de acompanhar o tio ao teatro quando criança e inclusive de ter varado a noite uma vez no ensaio geral de Caligula, com direção de Djalma Limonge Batista. "O ensaio acabou às 9h, e acordei no teatro e guardei essa imagem pra sempre. Eu devia ter uns 12 anos." O tio corrige: "Imagina, você já era adulto!" arrancando risos de todos.

A verdade é que foi inevitável para Pedro ter em Edson uma referência: "Por ser uma pessoa bem-sucedida e por eu ter ido morar na casa dele quando fui com minha mãe para Rio de Janeiro". Mas como os dois são produtores do espetáculo, não tem nada de ator convidado: "Os dois mandam", afirma Celulari.

Leia também: Homenagem a Picasso abre o Festival de Curitiba

Em maio e junho a família leva o espetáculo a São Paulo. Eles estarão no teatro Cultura Artistica Itaim e esperam que o público paulista se emocione com "Nem Um Dia Se Passa Sem Notícias Suas" como tem acontecido por outras cidades.

"Nunca vi tantos homens se emocionando como agora", admira-se Celulari, "mas mais importante do que isso é a reflexão que essa peça traz".

O Festival de Teatro de Curitiba acontece até o dia 8 de abril.

ESCRAVAS DO AMOR
Direção: João Fonseca
Teatro Guairão
Última sessão nesta quinta, às 21h

NEM UM DIA SE PASSA SEM NOTÍCIAS SUAS
De: Daniela Pereira de Carvalho
Direção: Gilberto Gawronski
Teatro Bom Jesus
Quinta e sexta, às 21h

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