Felipe Hirsch compila "Trilhas Sonoras de Amor Perdidas"

Diretor estreia em São Paulo o segundo espetáculo da trilogia "Som & Fúria"

Marco Tomazzoni, iG São Paulo | 18/06/2011 14:19

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Espalhados pelo palco, transformado na sala de um apartamento, estão caixas e caixas de cassetes, uma vitrola, poltrona, sofá e discos de Patti Smith, Bob Dylan, Marc Bolan. Andando de um lado para o outro, Guilherme Weber fala da dificuldade de escrever nas linhas estreitas de uma fita e do prazer de encontrar uma garota cantando baixinho aquela música que só você conhece.

O contexto é familiar, mas não se trata de uma nova temporada de "A Vida É Cheia de Som e Fúria" (2000), famosa adaptação da Sutil Companhia de Teatro para o best-seller "Alta Fidelidade", de Nick Hornby. "Trilhas Sonoras de Amor Perdidas", que estreia neste sábado no Sesc Belenzinho, em São Paulo, dá sequência àquele universo, transformado com o passar do anos.

Foto: Claudio Augusto

Natália Lage e Guilherme Weber no espetáculo "Trilhas Sonoras de Amor Perdidas"

"Trilhas" é, uma década depois, a segunda parte da trilogia "Som & Fúria", fenômeno de público que levou aos palcos o mundo dos aficionados por rock e música pop. Ao longo da última década, o diretor Felipe Hirsch se transformou num dos expoentes do teatro no país, comandou dezenas de espetáculos – "Avenida Dropsie", "O Vampiro de Curitiba", "Viver Sem Tempos Mortos", "Não Sobre o Amor" – e estreou como cineasta, ao lado de Daniela Thomas, no longa-metragem "Insolação" (2009). Uma crise de estresse e um convite dos organizadores do Festival de Curitiba foram o estopim no ano passado para que ele voltasse no tempo e recuperasse aquele espírito, embora um pouco mais doloroso.

Na história, Weber é um jornalista e DJ fascinado por mixtapes, coletâneas em cassete para os mais diversos motivos – fitas para sair de casa, dançar, namorar, dormir. Fruto de uma vida pontuada por músicas e bandas tocando nos momentos-chave, ele relembra sua relação com Soninho, uma antiga namorada interpretada por Natália Lage. Tudo é passado a limpo, ao longo de pouco mais de três horas de espetáculo.

"Trilhas Sonoras de Amor Perdidas" integra uma mostra de repertório da Sutil Companhia, que está completando 18 anos de fundação. O espetáculo divide temporada no Sesc Belenzinho com "Thom Pain / Lady Grey" (2007) e a premiada "Não Sobre o Amor" (2008).

Foto: Claudio Augusto Ampliar

Felipe Hirsch: "Precisava falar de raízes de novo"

Em entrevista ao iG, Felipe Hirsch fala da inspiração para "Trilhas Sonoras", as comparações com "A Vida É Cheia de Som e Fúria", críticas, música e seus futuros projetos no cinema.

iG: Por que depois de tanto tempo você voltou para o universo de "Som e Fúria"?
Felipe Hirsch: Quando a gente era garoto na época de "Som e Fúria", tinha a ideia de fazer uma trilogia musical, sobre música, mas isso foi esquecido completamente. A vida levou a gente para mil lugares diferentes, fizemos espetáculos importantes tanto para a história da companhia quanto do teatro brasileiro – "Pterodátilos", "Não Sobre o Amor", tanta coisa diferente. Então não pensávamos em voltar. Mas existia essa questão e fui acumulando material para esse tal segundo espetáculo. Aí bati de frente com uma coletânea do (guitarrista do Sonic Youth) Thurston Moore sobre mixtapes ("Mix Tape: The Art of Cassette Culture", de 2005), assunto que me interessava. Fiquei meio impressionado, canalizei essa busca e fui juntando material, tanto pessoal quanto de outros pesquisadores sobre isso, sendo que só o que mudava era a tecnologia - K7, CD ou CD-R.

iG: Pesquisadores? Existem pesquisas sobre isso?
Felipe Hirsch: Depende do que você considera um pesquisador. No caso do Thurston Moore, acho que se enquadra, um cara que dedicou a vida inteira à música, que pensa nela conceitualmente. Greil Marcus, um cara que já escreveu sobre isso e respeito profundamente. Não são acadêmicos, embora alguns até sejam. Juntar esse material há tempos acumulado e produzir o texto é que foi muito difícil. Aí voltamos a tocar nesse assunto de alguma maneira. Tem uma questão pessoal. Esses espetáculos fazem bem pra mim, são doces, me estimulam emocionalmente, de uma forma menos racional.

iG: Por quê?
Felipe Hirsch: Estava fazendo uma série de espetáculos que considero passos muito fortes e bonitos na história da Sutil e aí tive um "breakdown" no ano passado, um estresse físico e mental muito grande. Precisava de alguma maneira falar de raízes de novo. "Não Sobre o Amor" falava disso, mas de uma maneira melancólica, diferente. Queria achar de novo essa linguagem de amigos, de pessoas que conheci e com quem conheci essas músicas. É uma peça sobre a despedida desse universo. E também um momento um pouco de descanso, de serenidade em relação a isso, embora seja um espetáculo emocionalmente muito impactante. É impressionante a resposta que a gente teve em redes sociais, nos ensaios abertos em Curitiba e Porto Alegre. "Som e Fúria" levou muita gente pela primeira vez ao teatro, e acho que o "Trilhas" pode fazer a mesma coisa.

iG: Você chama as apresentações anteriores de ensaio aberto.
Felipe Hirsch: Levei muito tempo adaptando o texto e ensaiamos pouco, por isso já tínhamos como proposta fazer as três apresentações em Curitiba e as duas em Porto Alegre como ensaio aberto. Só porque era uma oportunidade que tínhamos de testar. O primeiro dia em Curitiba foi caótico. mas hoje não tenho o menor problema com espetáculos caóticos. É a vida. Se eu tivesse problema com isso não poderia fazer teatro, só cinema ou qualquer outra coisa. No segundo dia, já foi mais equilibrado, assim como Porto Alegre. O espetáculo que está estreando já é mais dentro do que a gente pretendia.

Foto: Claudio Augusto

O apartamento onde ocorre a trama da peça, que estreia em São Paulo

iG: Nas críticas que li, as pessoas reclamam da longa duração e da semelhança incômoda com "Som e Fúria", no sentido de repetição.
Felipe Hirsch: Isso não ouvi. Sinceramente, não vejo como uma repetição, acho uma análise um pouco precipitada. A gente fez “Som e Fúria” que, de alguma maneira, é bem original. Tem, então, um pouco dessa linguagem e temos a liberdade de desenvolver algo a partir dali. A coisa da duração, por incrível que pareça, é mais dita pela mídia do que pelo público, o que lamento profundamente. Ouvi pessoas falando que assistiriam a até quatro horas, que queriam que fosse um filme para ver de novo. Não fiz o espetáculo pensando nisso, ele acabou sendo assim, com três horas e pouco. Quem acha que é longo, fazer o quê? É um espetáculo todo pensado, tudo tem um sentido racional, interessante. Mas não posso ficar carregando pela mão quem acha o contrário. Já vi coisas de 40 minutos insuportáveis, assim como coisas de sete horas. Depende muito. Ninguém me provou que um espetáculo de duas horas com uma pessoa é mais demorado do que com duas ou algo parecido.

iG: Que caminho o "Trilhas" segue nessa linguagem que vocês criaram em "Som e Fúria"?
Felipe Hirsch: É mais uma peça de câmara, diferente do “Som e Fúria”, que tinha uma estrutura muito ligada ao que seria um roteiro de cinema, ou seja, com cortes muito rápidos de tempo e espaço. "Trilhas" acontece o tempo todo dentro do mesmo lugar, na mesma noite, só que com os caminhos que a memória pode abrir na narrativa de um espetáculo. Nesse sentido, é muito mais dramatúrgico do que o primeiro.

iG: "Som e Fúria" tinha uma linguagem mais pop.
Felipe Hirsch: Sim, bem mais. Nesse sentido, o “Trilhas” é um espetáculo muito mais maduro, de dramaturgia, diferente do "Fúria", que era mais uma aventura. Nos propusemos a não ter medo de fazer um espetáculo onde se falasse mesmo ao longo de três horas de um relacionamento.

iG: A música tem um papel maior no “Trilhas”?
Felipe Hirsch: As músicas são muito diferentes. No "Som e Fúria", eram muito ligadas ao humor do preconceito, das pessoas que desconsideram coisas que acham ruins, como alguns personagens daquele livro. Eles tinham um amor muito grande pela soul music e havia o fator primordial [do protagonista] ser um cara que está envelhecendo, o que se manifestava nas músicas que ele ouvia. No “Trilhas”, a música é o conteúdo de algo que de alguma maneira vai traduzir uma emoção em relação com outra pessoa, um recado, uma história de amor, uma despedida. Nesse aspecto, a música é muito mais conceitual. Ela era quase ilustrativa, enquanto aqui é muito mais temática.

Foto: Claudio Augusto Ampliar

Toca-discos na cenografia de Daniela Thomas

iG: A música faz parte da narrativa?
Felipe Hirsch: Sim, de uma forma mais ampla, intensa. E também tem uma diferença de sensibilidade. É um espetáculo mais punk, protopunk, de garage bands, pós punk. Vai desde a Factory, do Velvet Underground, até o 2 Tone [gênero criado na Inglaterra nos anos 1970 que une ska, punk e reggae] de Specials. É um espetáculo mais pessoal, sem dúvida nenhuma, mais hard, menos doce.

iG: É reflexo da maturidade?
Felipe Hirsch: É reflexo da dramaturgia que foi composta, do momento que vivi. "Trilhas" é mais difícil. Acho que é uma despedida do que me acompanhou na juventude. Dos amigos com quem escutei Patti Smith, Buzzcocks pela primeira vez. Despedida de uma cidade... Uma série de coisas.

iG: Quantas músicas são no total?
Felipe Hirsch: [Pensa] Umas 90 e poucas.

iG: A companhia paga os direitos autorais?
Felipe Hirsch: A gente paga ao Ecad, infelizmente, uma porcentagem de bilheteria por espetáculo. Acho difícil que coisas tão lado B... É muito polêmico, isso. Como esse dinheiro vai chegar na mão da família do Vince Taylor na Inglaterra?

iG: O que você acha do Congresso criar uma CPI para investigar o Ecad?
Felipe Hirsch: Para mim é tão interessante o Senado e o Congresso investigarem alguém, porque parece que é o oroboro, uma cobra mordendo o próprio rabo. Não consigo entender isso. A CPI me parece um movimento completamente político. Não sei onde estão os maiores bandidos do Brasil, mas não diria que estão no Ecad. Acho desagradável lidar com isso [direitos autorais]. A gente quase não ganha, ou não ganha nada, porque sai imposto da bilheteria. Seria um dinheiro bem-vindo para pagar um ator que fica três horas e meia em cima do palco, mas se vai para o Vince Taylor, está ótimo, para o David Bowie... Mais do que merecido.

iG: O público precisa conhecer as músicas para se relacionar com o espetáculo?
Felipe Hirsch: Não acredito muito nisso. Acho que conseguimos apresentar música para as pessoas de uma maneira que elas sejam envolvidas, que saiam querendo conhecer aquilo, e é justamente o que a gente mais escuta. E se precisasse conhecer, estava todo mundo perdido, porque o negócio é bem B-side [risos].

Foto: Claudio Augusto Ampliar

"O espetáculo não é nostálgico; é apaixonado, e paixão não é uma coisa fácil"

iG: Qual era a sua relação com as mixtapes? Tinha esse hábito?
Felipe Hirsch: Não. Sempre quis contar uma história boa de mixtape, mas não tinha esse hábito. Infelizmente era uma farsa [risos]. Talvez tenha mandado algumas, recebido outras, mas não era um fator primordial. Não ganhei ninguém com uma mixtape. No meu caso, é mais teórico. Embora isso não deixe de interessar como tema, ou na ficção, acho lindo.

iG: Você falou que sofreu uma crise no ano passado por trabalhar muito. Continua nesse ritmo?
Felipe Hirsch: Sim. Quando tive a crise de saúde no ano passado, tracei vários objetivos para que eu não voltasse a ter outra. O único que não consegui me livrar foi o trabalho, que talvez fosse o principal [risos]. Trabalho muito, saio de uma coisa para a outra. Toco quase 30 projetos ao mesmo tempo, em média, inclusive com coisas para 2012, 2013, 2014.

iG: Como foi a relação de “Insolação” com o público?
Felipe Hirsch: Foi bem esquizofrênico. A gente teve críticas lindas lá fora, coisas que não esperava escutar na minha vida. O curador do Festival de Veneza disse que desde o Cinema Novo não via alguma coisa que o empolgava tanto. Críticas maravilhosas. No Brasil, também, mas são todas críticas com um pouco de receio de desenvolver o tema. Preocupadamente superficiais, quase numa área de segurança. Com respeito, mas com um pouco de medo. E é para ter mesmo: é um filme difícil, sobre coisas complexas, lapidado ao longo de cinco anos. Aí foi distribuído maravilhosamente [irônico], oito cópias, duas semanas em cartaz, essa maravilha que é a distribuição no Brasil. Quando "Insolação" chegou em DVD, comecei a receber muito carinho, porque as pessoas começaram a ter tempo de rever, pensar. Cresceu muito. É um filme difícil, mas a gente sabia que era para ter orgulho do que fizemos. E não tenho orgulho de todos os meus trabalhos, não.

iG: Quais, por exemplo?
Felipe Hirsch: Fiz espetáculos que não deveria ter feito, principalmente no começo deste século. Fiz um chamado “Como Aprendi a Dirigir um Carro”, que era para ter sido feito seis anos antes. Fiz outro, “Jantar entre Amigos”, com a Renata Sorrah, que me arrependo... “Arrependo” é uma palavra horrível – não teria feito. Na época me interessava em estudar naturalismo, dramaturgia anglo-saxã, por uma série de razões, memória, inclusive, mas hoje não teria levado ao palco.

iG: O cinema é ainda um meio que te atrai?
Felipe Hirsch: Tenho dois projetos para 2014. Eles dependem de dinheiro, isso me irrita. Um é “O Filho da Mãe”, do [escritor] Bernardo Carvalho, que vai ser filmado no Brasil e Rússia. Ainda estou analisando se vou fazer ou não, mas amo esse livro. O outro não posso falar, é secreto. E tenho dois menores, que simpatizo mais porque podemos fazer mais rapidamente. Um deles é com a minha parceira, Daniela Thomas, e o outro com [o cartunista] André Dahmer.

iG: Existe possibilidade de se completar a trilogia "Som e Fúria"?
Felipe Hirsch: Remota, mas existe. Costumo dizer que não esperem. A segunda parte só aconteceu porque quisemos fazer, não para respeitar uma trilogia. A gente já estava em outra na vida, com milhões de outras coisas. Só que aconteceu um momento que quisemos fazer. Pode haver um momento em que isso aconteça de novo, mas não esperaria. Tenho uma coisa muito louca com relação ao “Trilhas”. Quando reensaiamos o “Som e Fúria” [para um nova temporada que não se concretizou, por problemas de direitos autorais], ficamos muito emocionados. Fizemos espetáculos tão importantes, mas como esse tem uma emoção diferente. A gente só foi sentir isso de novo com o “Trilhas”. Era um espetáculo tão impactante que me causou alguns problemas. Assistir ele todos os dias causa um desgaste emocional, sabe? Tem uma delicadeza, um jeito de contar a história... Não é nostálgico, é pior que isso. Ele é apaixonado, e paixão não é uma coisa fácil.

SERVIÇO – MOSTRA SUTIL COMPANHIA DE TEATRO
Sesc Belenzinho, São Paulo
Ingressos de R$ 6 a R$ 24
Telefone: (11) 2076-9700

"Trilhas Sonoras de Amor Perdidas"
De 18/06 a 31/07
Sábados, às 20h; domingos, às 18h
Duração: 3h, com intervalo de 15 minutos

"Thom Pain / Lady Gray"
De 23/06 a 07/07
Quintas, às 21h (no feriado do dia 23, a sessão será às 18h)
Duração: 2h com intervalo de 15 minutos

"Não Sobre o Amor"
De 15/07 a 31/07
Sextas e sábados, às 21h30; domingos, às 18h30
Duração: 1h25

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