'Experiência não se transfere', diz Antonio Fagundes sobre dividir palco com o filho

Veterano ator está na peça 'Vermelho', que estreia neste mês; leia entrevista

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

Um recorte na vida do pintor russo Mark Rothko (1903-70) serviu de pretexto para a reunião de Antonio Fagundes e seu filho, Bruno - pela primeira vez nos palcos. Dirigida pelo experiente Jorge Takla, a dupla  traz ao Brasil a peça "Vermelho", montada originalmente na Broadway e ganhadora de seis prêmios Tony, o "Oscar" do teatro nova-iorquino. O espetáculo marca a inauguração do Teatro GEO, sala com 600 lugares que fica dentro do Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo.

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Antonio e Bruno Fagundes em ensaio da peça 'Vermelho'

Em conversa com a imprensa na tarde desta terça-feira (20), Fagundes, o pai, afirmou que a peça "achou" os dois que, por vias diferentes, se depararam ao mesmo tempo com o texto do norte-americano John Logan, indicado três vezes ao Oscar ("Gladiador", "O Aviador", "A Invenção de Hugo Cabret").

Em parceria com Takla, Fagundes comprou os direitos para uma adaptação brasileira. Embora outros atores estivessem no páreo para interpretar Ken, o assistente de Rothko, o nome de Bruno sempre voltava à mesa. "No fim, não havia outra opção", disse o diretor. "É um desafio para qualquer ator contracenar com Antonio Fagundes, e um grande risco."

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Antonio e Bruno Fagundes em 'Vermelho'
Bruno não escondeu seu contentamento com a oportunidade – "É uma delícia dividir um momento tão importante da minha carreira com ele, que tem de profissão o dobro da minha idade" –, mas, diferentemente da afirmação de Takla, nega temer a pressão de estar no palco ao lado do pai. "Estou enfrentando a dificuldade que todo ator da minha idade teria. É um personagem complexo, o mais importante da minha vida. A pressão parte do meu profissionalismo de fazer dar certo."

Embora carinhoso com o filho durante toda a coletiva, Fagundes disse esquecer as ligações quando os dois estão em cena. "Não faço essa confusão porque são personagens muito diferentes de nós. Nos jogamos no lado profissional e esquecemos que somos pai e filho."

O ator nem mesmo admitiu tentar ajudar Bruno com sua experiência. "Tenho uma teoria de que experiência não se transfere, é um farol voltado para dentro. Não adianta tentar passar se a pessoa não tiver conhecimento e vontade próprias. Isso eu sei que Bruno tem. Aprendi muita coisa com ele e tenho certeza que vou continuar aprendendo ao longo da temporada."

Mesmo assim, Fagundes comentou que, de certa forma, o espetáculo tem níveis de leitura diferentes, um deles de uma relação paternal. Situada entre 1958 e 1959, a trama de "Vermelho" enfoca o período em que Rothko, nascido na Rússia, mas criado nos EUA, trabalhou numa série de murais para o restaurante Four Seasons, em Nova York.

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Expoente do expressionismo abstrato norte-americano ao lado de Jackson Pollock e de Willem de Nooning, ele era na época um astro das artes plásticas e muito zeloso de seu trabalho – orientava as galerias em que seria exposto, a posição da luz e não só a distância, mas o tempo que o espectador deveria observar sua obra - que era, defendia, uma janela para a "tragédia humana".

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Antonio Fagundes na peça
Apesar da conceituação, Rothko topou receber uma fortuna (o equivalente hoje a US$ 30 milhões, ou R$ 54 milhões) para vender os painéis ao restaurante, o início de um período de crise que culminou com seu suicídio, em 1970. Para atender à encomenda, o artista contratou um assistente, Ken, de outra geração e com outras ideias, quando a pop art começava a fazer sucesso. "A peça, no fim das contas, fala do crescimento da relação improvável de um menino de 22 anos, uma força da natureza, e um pintor de 56 anos, amargo e cheio de incertezas", disse Fagundes.

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Jorge Takla, Antonio e Bruno Fagundes em entrevista
O ator, aliás, raspou os cabelos para ficar mais próximo do personagem, careca na vida real. "Não é um documentário, mas queria lembrar que era alguém diferente de mim. Adoro a composição, interpretar alguém que pensa, age e se comporta de outra forma. Por isso, adorei raspar a cabeça."

Fagundes também pinta em cena, parte do trabalho de workshop e pesquisa que fez com Bruno para entender melhor o texto, rico em citações artísticas. "Fizemos um mergulho nesse universo. Está no meio, vamos continuar assim até o fim da temporada", afirmou, contando que atualmente os dois se debruçam sobre "O Nascimento da Tragédia", de Nietzsche.

Takla destacou que o público não precisa entender de artes plásticas para compreender a peça ("essa é a genialidade do texto"), mas uma exposição com os principais pontos abordados no espetáculo, com textos sobre escolas e obras, ficará em exibição em um andar acima do teatro. Além disso, Fagundes disse estar disposto a fazer um bate-papo com o público todos os dias, ao final da sessão.

"Não posso exigir que [os espectadores] tenham estudado tanto quanto a gente e percam a beleza desses movimentos e conflitos", explicou o ator, que está em negociações com o teatro GEO para concretizar esse espaço de debate. "Gosto muito de conversar com a plateia, que nunca é a mesma, até para passar informações sobre a biografia de Rothko"

"Vermelho"
Estreia 30 de março de 2012
Teatro GEO: r. Coropés, 88, São Paulo
Quintas e Sábados, às 21h; sextas, às 21h30; domingos, às 18h
Ingressos: R$ 100 (balcão) e R$ 120 (plateia), à venda pela bilheteria ou na internet ( www.showcard.com.br )
Informações: (11) 3728-4930

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