Musical sobre transexual roqueira, sucesso no exterior, quer se manter pop, defende o ator

Um transexual imigrante fruto da Alemanha dividida, vocalista de rock, vítima de uma cirurgia de mudança de sexo mal sucedida. Essa figura singular é o herói de "Hedwig e o Centímetro Enfurecido", musical em cartaz em São Paulo depois de uma temporada de sucesso no Rio de Janeiro. À época, o burburinho ficou por conta da escalação de Paulo Vilhena , hoje fora do elenco, como um dos atores no papel principal – um dos porque o Brasil foi o primeiro lugar no mundo em que o protagonista acabou dividido em dois.

Análise: em SP, musical "Hedwig e o Centímetro Enfurecido" mostra vigor

Felipe Caravalhido e Felipe Caravalhido, as duas Hedwigs, com a atriz Eline Porto entre eles
Divulgação
Felipe Caravalhido e Felipe Caravalhido, as duas Hedwigs, com a atriz Eline Porto entre eles
Adaptado de um espetáculo cult do circuito off-Broadway, levado depois aos cinemas por seu criador, John Cameron Mitchell, "Hedwig" ganhou cara brasileira através de um dos heróis do pop nacional oitentista, Evandro Mesquita, que mostra sua faceta como diretor. Se à primeira vista o cantor de "Você Não Soube Me Amar" parece uma escolha frágil para um universo tão rock 'n' roll, no fundo 'Hedwig" é o que o próprio personagem sonha em ser: pop.

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Em entrevista ao iG , Evandro comentou que há tempos sonhava em levar aos palcos algo do gênero. "Sempre quis fazer uma ópera rock, desde a primeira vez que ouvi 'Tommy', do The Who, apresentado pelo Zé Rodrix, no seu apartamento na Prudente de Morais, no Rio", disse. "Adoro essa linguagem pop, de quadrinhos, que conseguimos imprimir."

"Hedwig" é pop nas referências, a começar pelo som, bastante glam, inspirado em David Bowie e Lou Reed, ícones da sexualidade dúbia no rock. As músicas tem apelo inegável e vem embaladas pelo peso de uma banda completa ao vivo – guitarra, baixo, bateria e teclado.

Evandro Mesquita:
AgNews
Evandro Mesquita: "não temo plateia nenhuma"
Trata-se do Centímetro Enfurecido, grupo que acompanha Hedwig enquanto ele/ela conta sua história no palco de uma casa de shows qualquer. A jornada começa na Alemanha oriental, quando, ainda criança, ouvia rock na rádio do exército norte-americano, e continua anos mais tarde com sua paixão por um sargento ianque e a operação que lhe deixou com um "centímetro enfurecido" entre as pernas. Já nos Estados Unidos, conhece o jovem Tommy Gnosis, que pouco depois sai em carreira solo e faz sucesso com as canções de Hedwig. Resta à estrela segui-lo país afora, tentando chamar os holofotes para suas plumas e paetês.

O rock e a temática colorida traziam embutidos o risco de encontrar uma plateia refratária, conservadora, mas o diretor usou isso como combustível. "[O desafio] era fazer com que o espetáculo não fosse restrito a um certo tipo de público, que essa história emocionasse heteros, gays, senhoras, senhores e a rapaziada em geral. Que ele não perdesse a força do rock 'n' roll, não se 'broadwayzasse' nem perdesse o brilho e a purpurina."

Evandro sustenta que não teve medo da reação do público – "respeito, mas não temo plateia nenhuma" – e que até agora não ouviu nenhuma reclamação. "Nada. Apenas um amigo que faz vale-tudo disse que tinha muita coisa em inglês... Mas aí a culpa é dele de não ter a tecla SAP no celular."

"Drag queens são espaçosas"

Encenada em vários países e dona de um verdadeiro séquito de fãs, a peça ganhou uma novidade no Brasil: dois atores no papel principal. Pierre Baitelli e Felipe Caravalhido são os atuais responsáveis por Hedwig, o primeiro de peruca loira, como no original, e o outro, de cabelos pretos (Paulo Vilhena, em sua temporada, encarnava uma ruiva).

A dupla está sempre junta no palco e não tem o objetivo de representar faces diferentes do mesmo personagem. De acordo com Evandro, a ideia era ampliar as "possibilidades teatrais" de algumas cenas que eram apenas narradas. "As transexuais, travestis e drag queens são espaçosas, parecem duas, aproveitando também a dupla personalidade num universo meio bipolar, homem-mulher. [Os atores] se misturam e cada um leva para a cena um pouco das suas características, pesos, vivência, mas sem precisar explicitar essa divisão. Os dois formam a personalidade dramática desse personagem", justificou.

Felipe Caravalhido, a nova Hedwig
Divulgação
Felipe Caravalhido, a nova Hedwig
A saída de Vilhena, impossibilitado de assumir o compromisso em São Paulo, deixou a equipe um pouco apreensiva. "Fiquei com um certo medo, pois foi muito difícil formar o elenco", disse Evandro, que nunca pensou em encarar o salto plataforma de Hedwig. "Já fiz mulheres, mas eu fico um trubufu muito feio."

A solução foi procurar de novo e "o universo conspirou a favor", segundo o diretor. "Felipe se encaixou como uma luva. Vi que ele canta muito bem logo de cara e só teria que ter o esforço de decorar e assimilar o espírito da nossa criação que já navegava com sucesso. Ele está brilhante."

As liberdades com o texto original foram uma forma de buscar originalidade e identificação com o público brasileiro. "Queria que fugíssemos dos gastos clichês de shows de travestis", afirmou Evandro.

"Filme e peça são sucessos, mas quis que fizéssemos o nosso arranjo para aquela linda sinfonia, aproximássemos um pouco daqui. Eu e Jonas [Calmon Kalbin, o produtor] trabalhamos uns dois anos no texto e músicas, lixando, limando e bordando.Tivemos um cuidado grande com as letras e diálogos, para que ficassem redondos e não soassem com uma tradução."

Serviço – "Hedwig e o Centímetro Enfurecido" em São Paulo
Teatro Nair Bello
Shopping Frei Caneca, 3º andar
Até 16 de outubro de 2011
Sexta, às 21h30; sábado, às 21h; domingo, às 18h
Ingressos: R$ 60
Informações: (11) 3472-2414

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