Espetáculo de Pina Bausch une Saramago, Norah Jones e comédia

"Ten Chi", coreografia inédita da companhia alemã, é apresentada no Brasil a partir desta quinta-feira

Paola Deodoro, iG São Paulo |

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Os bailarinos Eddie Martinez, Azusa Seyama e Fernando Suels em cena de "Ten Chi"
A viagem de Pina Bausch acabou. Não pela morte da coreógrafa, em 2009. Menos ainda pelo fim de seu legado artístico, infinito, e que reserva algumas obras inéditas, outras inacabadas, para ainda surpreender seu fiel público durante muitos anos.

O que parece ter chegado ao fim foi a série de peças criadas por ela e classificadas como relatos de viagem coreografados. “Ten Chi”, espetáculo que abre nesta quinta-feira (dia 14 de abril) a temporada de dança do Teatro Alfa, em São Paulo, e fica por lá até o dia 19, é o último deles. O resultado de um trabalho nascido no Japão em 2004.

Assim como em “Água”, desenvolvido no Brasil, “Bamboo Blues”, na Índia e “Breath” (“Respiração”), em Istambul, “Ten Chi” (“Céu e Terra”) aproxima o espectador de uma cultura específica entre os patamares da dança, do teatro, da música, do texto e de todos os elementos, perceptíveis ou não, da obra que a alemã leva para cima do palco.

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A divertida performance da atriz Mechthild Grobmann
Pela quinta vez no Teatro Alfa, a Pina Bausch Tanztheater Wuppertal, agora coordenada por Robert Sturm, pareceu bem à vontade durante o ensaio aberto na noite de quarta, ao qual o iG esteve presente. Boa parte da descontração é graças ao estilo da peça. “Ten Chi” é praticamente uma comédia.

Acompanhando os passos típicos (daqui a uns anos dará para dizer clássicos) da dança contemporânea, o espetáculo abusa do texto. Bertold Brecht e José Saramago são declamados, acompanhados de uma trilha sonora que inclui Norah Jones e Gustavo Santaolalla. A atriz Mechthild Grobmann, entre o palco e a plateia, misturava lições de bem-estar dizendo “gergelim estimula as glândulas sexuais” a uma divertida performance semântica, brincando com as palavras japonesas mais populares: sushi, samurai e gueixa, repetidas com um esforçado sotaque entre o português e o alemão.

De repente, em uma mudança simbiótica, surgem os bailarinos, que se esgueiram, dividindo o espaço com um gigantesco rabo de baleia entre a cenografia. A linguagem contemporânea é clara, a perfeição técnica está lá, os cortes com continuidade dos movimentos, a força, a precisão, a leveza, tudo.

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Laszlo Szito mistura movimentos de dança oriental e contemporânea
Mas o que faz da obra de Pina Bausch um legítimo “Pina Bausch” é a maneira como a trama é conduzida. Por mais bailarinos que sejam, todos são atores integrais. É onde também de destaca a brasileira Regina Advento, parte da companhia desde 1993. Engraçada e sutil nas interações com o público, aproveita estar em casa para tomar para si grande parte do texto inicial, todo falado em português.

É exatamente o entre-e-sai ritmado e a profunda diferença de perfis e estilos no mesmo grupo que garantem o diferencial definitivo da PBTW; o que faz o trabalho desta companhia multinacional se tornar encantador, mesmo para quem não entende de dança.

A primeira explicação para o fenômeno foi dada pela própria Pina, que dizia que “quando falar torna-se impossível é preciso dançar”. A segunda quem dá é a bilheteria. Os ingressos para a temporada brasileira de cinco dias estão esgotados.

Quem não conseguir assistir ao vivo, ainda terá a chance de conhecer a obra da coreógrafa no cinema. "Pina", de Wim Wenders, que passou pelo Festival de Berlim neste ano , tem estreia mundial programada para maio. Assista ao trailer do filme abaixo:

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