Escultura de Brecheret é a 'mais valiosa' da coleção de banqueiro

Edemar Cid Ferreira, despejado na semana passada por não pagar aluguel, tem entre 1,5 mil e 1,8 mil obras de arte em sua mansão

Augusto Gomes, iG São Paulo |

Uma escultura da década de 1920 do artista plástico Victor Brecheret é a obra mais valiosa da coleção do banqueiro Edemar Cid Ferreira. Essa é a avaliação do arquiteto Alberto Sauro, o perito responsável por determinar o valor das peças encontradas na mansão de 4,1 mil metros quadrados, localizada no Morumbi, em São Paulo.

No último dia 21, Ferreira foi despejado por não pagar o aluguel da casa. Segundo levantamento inicial, há entre 1,5 mil e 1,8 mil obras na residência. Entre os brasileiros, há nomes como Victor Brecheret, Di Cavalcanti, Cândido Portinari e Maria Martins. Entre os internacionais, artistas do calibre de Robert Rauschenberg e Anthony Gormley.

"Como estamos no início do trabalho de perícia, ainda é cedo para falar em valores. Mas essa peça [a escultura de Brecheret], aparentemente, é a mais valiosa ", afirma. Nascido na Itália em 1894, Brecheret emigrou para o Brasil ainda na infância. É considerado o introdutor da escultura moderna no país. Sua obra mais famosa é o "Monumento às Bandeiras", no parque Ibirapuera, em São Paulo.

Segundo Sandra Brecheret Pellegrini, filha do escultor, a obra é da década de 1920, época em que seu pai estudava na Europa. "É uma escultura de granito, bem resistente. Não tem nome, porque papai não costumava batizar suas obras. Mas as pessoas costumam chamá-la de 'Banho de Sol'", explica. Ela conta que seu primeiro proprietário a comprou para decorar a frente de sua casa. "Depois, ela foi adquirida pelo David Libeskind, um dos mais importantes arquitetos brasileiros. Ele a vendeu para o Edemar no final dos anos 1980 ou no começo dos anos 1990."

Outros pontos altos da coleção, de acordo com o perito Sauro, são pinturas de Cândido Portinari e de Robert Rauschenberg e uma escultura de Maria Martins. "São peças que podem valer R$ 800 mil cada uma, numa avaliação inicial", afirma. Ele acredita que há entre "30 e 40 obras bastante valiosas" na casa. O valor total do acervo, no entanto, ainda é impossível de calcular, segundo Sauro. "Vamos levar pelo menos 60 dias para fazer o inventário. Depois, consultaremos especialistas, colecionadores, galeristas, leiloeiros, para descobrir quanto as peças valem."

O futuro desse acervo ainda é incerto. O mais provável é que, a princípio, as obras tenham o mesmo destino das mais de 10 mil peças que formavam o acervo do Banco Santos: serão expostas em museus de São Paulo. Posteriormente, elas poderiam ou ser integradas definitivamente à coleção dessas instituições ou então leiloadas para saldar as dívidas do banco, liquidado em 2004. Outra possibilidade é que a própria casa do banqueiro seja transformada num centro cultural.

[]Sem critério

As obras reunidas por Edemar Cid Ferreira são bastante diversas. "Ao ver a coleção, lembrei da Mostra do Redescobrimento, que ele organizou em 2000. É um acervo que tem de tudo, sem seleção nenhuma", avalia a crítica de arte Thaís Rivitti. Ao contrário de outros colecionadores, Edemar não privilegiava uma época ou um movimento artístico. "Sua coleção não tem uma linha definida. Esse é até um dos motivos que dificulta a criação de um museu a partir dessas obras", diz.

Em meio a tantas dúvidas, pelo menos uma coisa é certa: um dos principais compradores de arte do Brasil está fora de cena. "Se algo assim acontecesse nos anos 1980, quando havia três ou quatro grandes colecionadores no país, seria uma catástrofe para o mercado brasileiro", acredita a artista plástica Leda Catunda, um dos nomes presentes no acervo de Edemar. "Hoje, com o volume de galerias e feiras que temos, o efeito é bem menor."

Para ela, ter uma obra sua na coleção de Edemar é indiferente. "Eu não dou importância. Depois que a obra sai do ateliê, ela ganha vida própria", acredita a artista. Sandra Brecheret Pellegrini não vê problemas nesse tipo de exposição pública. "Eu fico triste pelas circunstâncias em que isso está acontecendo, claro. Mas a obra do meu pai está aparecendo em jornais, sites e televisão. Para mim, essa publicidade é positiva."

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