Em novo balé do Grupo Corpo, o mar deságua no palco

Companhia recria cantigas medievais galegas no espetáculo 'Sem Mim'; turnê tem estreia em São Paulo

Luciana Araujo, especial para o iG |

Minas Gerais não tem saída para o mar. Mas um mar saído de Minas deságua nos palcos brasileiros a partir desta quinta feira (dia 4), com a estreia no Teatro Alfa, em São Paulo, de "Sem Mim", o mais novo balé do Grupo Corpo.

A coreografia de Rodrigo Pederneiras foi inspirada pela trilha original que José Miguel Wisnik e Carlos Núñez compuseram a partir de sete cantigas medievais do poeta galego-português Martín Codax. Há participações vocais de Milton Nascimento, Chico Buarque, Mônica Salmaso, Ná Ozzetti, Rita Ribeiro e Jussara Silveira.

José Luiz Pederneiras/Divulgação
Bailarino em ensaio do espetáculo 'Sem Mim', do Grupo Corpo

As vozes da MPB não são um mero toque de brasilidade na trilha deste que é o 35º espetáculo do grupo mineiro. Instrumentos daquela época, como a gaita de fole, são orquestrados com viola caipira e percussão, devolvendo às cantigas de amigo do século 13, que geralmente têm interpretações eruditas, sua raiz popular. Só que neste caso, enlaçada com a musicalidade de nossa terra, mas não apenas - ritmos galegos, como a alvorada, também se misturam com o africano lundu e Bach.

"Assim, em vez de buscar um preciosismo de arquivo, tentando recuperar uma improvável versão 'autenticamente' medieval", esclarece José Miguel Wisnik, "achamos que seríamos mais fiéis a elas tratando-as, com toda a delicadeza, como nossas e atuais". Os interlúdios instrumentais com versões de temas populares tradicionais dos repertórios galego, português e brasileiro foram recolhidos por Núñez em longa pesquisa que resultou em seu disco "Alvorada do Brasil" (2010).

José Luiz Pederneiras/Divulgação
O eseptáculo 'Sem Mim', do Grupo Corpo
Descobertas em 1913 por um livreiro espanhol, publicadas em tiragem de apenas dez exemplares no ano seguinte, as partituras de época dessas canções medievais ficaram perdidas por décadas.

A execução dessas composições nos originais dura 17 minutos - já "Sem Mim" tem duração de 47 minutos, o que dá uma pista do quanto Wisnik e Núñez criaram além.

A cadência desses sons une-se aos lamentos femininos das letras, que têm como principal tema o mar que leva e traz o amor. O mesmo mar que ondula salgado no horizonte e nos olhos daquela que chora, leva o amado para terras desconhecidas e até à morte, também figura na paisagem como esperança e mistério.

"O mar separa e une, é vigoroso e delicado, calmaria e fúria, feminino e masculino", destaca Rodrigo Pederneiras, ao colocar lado a lado contrastes que motivaram o desenvolvimento de sua coreografia.

A temática levou o coreógrafo a deixar neste balé, mais do que em qualquer outro do grupo, uma divisão muito clara dos papéis das mulheres e dos homens no palco. "Mesmo quando se dança em conjunto, há uma certa ruptura entre elas e eles. Está aí também o 'Sem Mim' que dá título à peça", conta. "Ela está sempre evocando a ausência dele."

Formalmente, o coreógrafo buscou eliminar um trabalho de braços que tendia a arredondar o gestual dos espetáculos do grupo. "A intenção é encontrar um despojamento cada vez maior da utilização do corpo", explica. O resultado é uma ondulação que, tal mar, nasce sempre do chão.

O cenário desenvolvido por Paulo Pederneiras procura um recorte nessa paisagem que se move. É também uma espécie de útero que envolve os bailarinos num meio líquido. Para esse efeito, trabalhou com um tecido utilizado em estufas na agricultura, capaz de refletir a luz, também criada por Paulo.

O figurino de Freusa Zechmeister praticamente desnuda os corpos, tecendo-os com uma segunda pele que parecem tatuagens. Assim, os movimentos ao mesmo tempo se fixam nos corpos dos amantes-bailarinos.

Ao todo, serão nove apresentações em São Paulo, entre 4 e 7 e 10 e 14 de agosto. Depois a turnê segue para Belo Horizonte (Palácio das Artes, 17 a 21 de agosto), Rio de Janeiro (Theatro Municipal, 25 a 29 de agosto) e Brasília (Teatro Nacional, Sala Villa-Lobos, 10 a 13 de novembro).

Complementa o programa a coreografia "O Corpo" (2000; 42 minutos), também de Rodrigo Pederneiras, com música de Arnaldo Antunes, que não é apresentada em São Paulo desde 2001.

Sem Mim
Local: Teatro Alfa (r. Bento Branco de Andrade Filho, 722, São Paulo; tel. 5693-4000)
Datas: 4 a 14 de agosto; quarta, quinta e sábado, 21h; sexta, 21h30; domingo, 18h
Duração: "O Corpo" (42 min); intervalo de 20 min; "Sem Mim" (47 min)
Preços: Setor 1 e 2, R$ 100; Setor 3, R$ 70 e Setor 4, R$ 40
Como Comprar: 5693-4000 e 0300-789-3377

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