Domingos Oliveira: "cinema não é uma vocação do Brasil"

Diretor carioca segue falando de política, governo, Woody Allen, morte e música

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

Na segunda parte da entrevista (leia a primeira aqui ), Domingos Oliveira adentra a política. O diretor e dramaturgo defende a criação do Ministério da Arte, refuta o modelo de indústria cinematográfica que tentam implantar no Brasil e aproveita para cutucar os realizadores do país (“os filmes que ganham dinheiro são péssimos”).

Domingos também fala de seu amor por Woody Allen, de futuros projetos – um deles, inclusive, talvez seu melhor roteiro – e de como gosta de cantar (!).

iG: Você falou da relação entre teatro e cinema. Li um artigo em que você dizia: "Temos de fazer filmes populares de arte. Ou até impopulares, porém de arte". Qual era sua intenção?
Domingos Oliveira: Penso que a arte é a partida de tudo e a chegada de tudo. Não é necessário num país como o nosso fazer maus filmes ou más peças. É necessário fazer bons filmes e boas peças, inclusive para vencer o mercado externo, no caso do cinema, porque não é com filme de produção que vai se quebrar a barreira do mercado externo: é com filmes de arte, filmes de autor, filmes necessários de serem feitos. Acho que esse critério da arte tem sido muito esquecido. As companhias e concursos atuais nem lêem mais os roteiros, querem saber quanto dinheiro você arranjou, qual é a sua capacidade de captação, etc, etc... Só dinheiro. E arte não tem nada a ver com isso. Tem a ver com a humanidade melhorar. Propus a existência do Ministério da Arte, não o Ministério da Cultura. A arte é da mesma espécie da cultura, mas é diferente: a arte vai na frente, ela é a locomotiva. Isso é o que interessa. Um filme que emane mistérios e artes irreveladas. Um filme bom, né? Peça boa.

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Domingos Oliveira autografa livro no Rio; à esquerda, o inseparável copo de uísque
Mas o grande público não tem muita consciência disso, certo?
Poderia ter através de campanhas governamentais. Em países como a França e Alemanha, que gastam grande orçamento nisso, tem uma educação do público, desde a escola primária. Mas aqui os dirigentes acham que o cinema e o teatro são diversão. Qual diversão? Música, o baile, o futebol... Já a arte é diversão e ensinamento. Ela é uma coisa muito importante socialmente e uma atividade de utilidade pública. Tem que ser sustentada pelo governo como o exército, a saúde. E essa coisa de fazer o cinema e o teatro através da isenção fiscal é um absurdo. Outro dia li no jornal a reação de um funcionário do governo inglês a isso: “Não, nós prezamos muito nossos impostos. O dinheiro tem que cuidar da infra-estrutura da atividade, não bancar filmes ou peças”. E é isso mesmo, temos que criar condições para que todos possam fazer. E proteger os artistas do país, saber identificar em cada Estado as produtoras e os profissionais mais criativos, são eles que têm que ser apoiados. A arte é feita de indivíduos. Não se precisa criar uma indústria cinematográfica no Brasil. Não existe isso. Com ótimos artistas, você tem uma indústria automaticamente. O foco é o artista.

E os jovens talentos, como ficam?
É preciso ter uma máquina para descobrir, detectar jovens talentos. E apoiá-los, jovens ou velhos. Você tem que apoiar quem é bom, não quem ganha dinheiro. Os filmes que ganham dinheiro são péssimos, né? Não é só um business.

Você já falou um pouco sobre isso e li no seu blog que você não consegue ver filmes brasileiros porque são todos muito chatos. Chatos em que sentido?
Eu disse isso, é?

É.
Devo ter dito isso provocativamente. Tem muito filme brasileiro interessante. Mas em geral a gente não sabe fazer, não. Ainda não tem uma indústria desenvolvida a ponto de todo mundo saber fazer. Cinema não é uma vocação brasileira. O futebol, a música, são, mas o cinema, não. É uma coisa que estamos aprendendo a fazer, e aprendendo a fazer sob um ponto de vista errado. A prova disso é que os filmes não se pagam. É um sinal inequívoco. A coisa de você ganhar patrocínio para fazer filme distancia o espectador da obra, porque você fica mais interessado em arranjar patrocínio do que fazer o filme para o público.

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Adoro trabalhar barato. O que é caro não é livre
Inclusive a questão maior dos filmes não se pagarem passa diretamente por não haver público.
O patrocínio afasta o cinema do público. Na Argentina, o filme é feito com o dinheiro do bolso dos produtores, com uma ajuda ou outra. Lá importa se o filme tem o aval do público ou não. Aí você vê o desenvolvimento do cinema argentino, que dá de dez na gente.

Ainda nessa conversa de incentivo governamental, você já sabe em quem vai votar? A classe artística anda dividida entre Marina e Dilma.
Eu só decido na última hora. Tem um fato inegável de que o Lula tem feito um modelo mais voltado para os pobres do que os governos anteriores. Tem outros méritos também, mas é uma escolha complexa, não acho claro em quem votar, não. Mas tendo a votar com o Lula, ou seja, na Dilma. Ou não votar, que é um direito meu.

Você já fez isso antes, de anular ou justificar o voto?
Já tive anos em que não tive em quem votar. Se o candidato ganha, você colaborou em uma coisa errada. Preferi não passar por isso algumas vezes. Nesse ano acho que voto com a Dilma, mas quero ouvir antes ela falar sobre a arte, não voto em ninguém antes disso. É minha profissão, é muito importante e tenho que defendê-la.

Qual é o seu cineasta em atividade favorito?
Não sei... Tem um cara italiano que se chama Muccino, Gabriele Muccino, que andou fazendo uns filmes muito bons, O Último Beijo (2001), depois foi capturado pelos Estados Unidos e fez À Procura da Felicidade (2006). Acho que no cinema italiano moderno estão começando a aparecer nomes muito interessantes. No cinema americano também, eles fazem cinema muito bem. Os melhores diretores são o que todo mundo acha, [Martin] Scorsese, [Steven] Spielberg.

E talvez Woody Allen.
Woody Allen é o maior de todos. Esse é um gênio, o melhor pensador do mundo moderno. O último filme dele é um absurdo, uma maravilha, Tudo Pode Dar Certo .

O que acha do paralelo que fazem entre você e ele, que Woody está para Nova York assim como você está para o Rio?
Acho justo, porque tenho grande identificação com o cinema dele. Enquanto eu fazia Todas as Mulheres do Mundo (1967), ele estava fazendo O Que É Que Há, Gatinha? (1966). Ele tem bem mais recursos para trabalhar do que eu e trabalha bem à beça. Mas bem à beça. Ele é um gênio. Eu sou um trabalhador. Mas temos uma visão de mundo muito semelhante.

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Domingos Oliveira e a mulher, Priscilla Rozenbaum
Por falar nele, a sua relação com a morte continua a mesma, de que é uma sacanagem?
Sim, tenho essa posição: sou contra. Acho uma sacanagem, uma ignomínia. Tem alguma coisa errada nesse esquema. Não é possível que tenhamos de ser mortais, que tenhamos que morrer. Há um erro em algum lugar: a natureza nos deu a vontade de ser imortal, mas ao mesmo tempo nos mata. Talvez nós não sejamos mortais, estejamos mortais. No futuro, talvez, seremos imortais. Não sei.

Você nunca transformou essa indignação em um texto?
Acho que todas as minhas peças falam disso. O homem que depois dos 40 anos não tem preocupação com a morte é um imbecil.

Sei que em geral seus projetos são muitos, mas quais são eles agora?
Meu próximo projeto é o primeiro que me derem dinheiro para fazer. Quero muito fazer um filme que escrevi, acho que é meu melhor roteiro, chamado Os Inseparáveis , uma espécie de continuação de Separações (2002), que acompanha aqueles personagens até o fim da vida. No teatro, acabei de fazer essa peça sobre minha infância e pretendo fazer esse ano uma nova peça que estou escrevendo, com assistência da Priscilla Rozenbaum, que vai dirigir uma adaptação do Dostoivéski, adaptado por mim.

Você pretende continuar filmando sem complicações técnicas, em digital, como em seus últimos filmes?
É o que gosto de fazer, mas o mercado não está permitindo fazer muito isso, não. Agora com essa mania de 3D, 5D, está se exigindo uma qualidade técnica maior. São melhor recebidos os filmes mais caros, com apelo da TV Globo, atores midiáticos... Está se tornando uma coisa quase obrigatória. Estou tentando seguir uma linha de trabalho em que possa ceder nesse aspectos e fazer outras coisas pensando em mim.

Você vai ter que se adaptar para essa realidade, é isso?
Um lado obedece todas essas leis de mercado, mas é preciso ter outra linha de ação que não dependa só dele. Eu tenho vontade qualquer hora de sair fazendo um longa-metragem que não vá para o cinema, só para a internet ou outros meios. Não vai para o cinema porque é tecnicamente vagabundo, e eu adoro isso, trabalhar barato. Aquilo que é caro não é livre.

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O espetáculo do artista é ele mesmo
Há algum tempo você comentou que achava suas entrevistas repetitivas, sempre falava as mesmas coisas. O que você diria que tornaria uma entrevista memorável?
O espetáculo do artista é ele mesmo. Depois de uma certa idade, fica difícil você dar um espetáculo absolutamente novo. [Federico] Fellini fez sempre o mesmo filme, [Luchino] Visconti também. O artista faz sempre a mesma obra. Eu tento melhorar esse espetáculo, ou seja, tento melhorar a mim mesmo. Pode ser que isso, de repente, se traduza numa grande novidade. Quero fazer esse ano um espetáculo sobre minha filosofia, meu modo de pensar, um monólogo, talvez, com música e dançarinos cantores. Uma das coisas que mais gosto de fazer é cantar.

Você está falando sério?
Cantar é a coisa que mais gosto de fazer na vida. Já fiz muitos shows, agora estou pensando em convidados para trabalhar num bar da Lapa. Já fiz muitos cabarés filosóficos e muitos shows em vários lugares. Shows com textos, interpretações, junto com amigos. É o que mais gosto de fazer.

Não seria uma surpresa, então, se nos próximos meses víssemos você cantando em um espetáculo solo.
Não digo solo, mas com amigos que cantam também. Todo mundo tem o direito de cantar, não é preciso cantar bem. Aliás, eu não gosto de cantar bem: quando começo a aprender uma música, desisto dela e boto outra no repertório. Cantar também tem que ser uma aventura.

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