Deborah Colker: 'Ainda vou ser uma carnavalesca'

Após temporada no Cirque du Soleil, coreógrafa estreia trabalho mais “maduro” e inspirado em obra russa

Valmir Moratelli, iG Rio de Janeiro |

Depois de coreografias entre vasos espalhados no chão, escaladas sincronizadas em paredes, comissões de frente em escolas de samba do Rio , apresentação na Copa do Mundo da Alemanha, em 2006, e até empréstimos de sua dança ao badalado Cirque du Soleil, Deborah Colker foi buscar no clássico “Evguêni Oniéguin”, do escritor russo Alexandr Púchkin, do século 19, o balé que apresenta agora. Completando 18 anos com sua companhia de dança, Deborah parece sentir a responsabilidade de suas últimas investidas rumo a uma maior projeção internacional. Com “Tatyana”, ela se reencontra com o clássico, deixando um pouco de lado a estética moderníssima que se tornou marca de seu balé.

Deborah apenas pontua as cenas de seus bailarinos com rápidas entradas no palco do Theatro Municipal do Rio, onde estreou na noite dessa quarta-feira , 25. A idade, ela diz, já é outra. “Não dou conta. Agora, por exemplo, está todo mundo descansando, e eu estou aqui no teatro”, diz, aos 50 anos.

Isabela Kassow
Não quero dar nota para o trabalho dos outros. Meu trabalho é fazer e ser julgada

Há dois anos, ela comandou “Ovo”, se tornando a primeira brasileira a criar um espetáculo para o canadense Cirque du Soleil. Elogios não lhe faltaram. Mais até do que os que ouviu ao criar coreografias de comissões de frente da escola de samba Viradouro, do Rio de Janeiro, de 2004 a 2006. Ao menos no mundo do carnaval, Deborah não conseguiu a unanimidade que conquista nos teatros. Sua passagem não foi marcada apenas por notas 10. “Mas ainda quero ser carnavalesca”, projeta.

Uma árvore em cena

“Tatyana” é uma história de amor em que dois personagens vão se transformando, marcando a passagem do campo para a cidade. Uma árvore metálica de 6,5 metros de altura revestida de madeira, criada pelo cenógrafo Gringo Cardia, compõe o primeiro ato do espetáculo. “É a vida no campo,

o espaço imaginário, sonhador e lúdico”, explica Gringo, que acompanha Deborah desde o começo da companhia. No segundo ato, telas gigantes que projetam linhas em computação gráfica tornam a cena mais, digamos, racional e urbana. É aí que a apresentação fica mais interessante, ganhando agilidade e temperatura. O público viaja para o palco.

“Tatyana” chama atenção por duas coisas, que diferem dos trabalhos anteriores de Deborah. É um espetáculo linear, onde uma história é contada; e a coreografia dialoga com o clássico. “Não me incomodo de transitar no clássico sendo uma artista contemporânea. Talvez este seja o sinal de que amadureci, após 12 espetáculos”, diz.

A seguir o papo com a coreógrafa.

iG: Quando surgiu a ideia de “Tatyana”?
Deborah Colke r: Em 2005, logo depois que fiz “ Cruel ”, que fala sobre o desejo que a gente às vezes não reconhece. Ali comecei a perceber a minha necessidade pela dramaturgia. Com “Ovo” (Cirque du Soleil), fui obrigada a criar uma história que falasse para o netinho, para o pai e para o avô. Aí me senti pronta para “Tatyana”.

iG: E por que uma história russa?
Deborah Colker
: Comecei a fazer a minha adaptação assim que li a sinopse, achei incrível. A história gira em torno de Tatyana, uma menina introspectiva, que tem como hábito a leitura compulsiva de livros. Ela não é triste, apenas sozinha. Até conhecer um homem, que depois diz não ao seu amor. Foram dois anos de montagem do espetáculo.

Isabela Kassow
Um espetáculo mais clássico. "Talvez seja sinal de que amadureci", diz Deborah

iG: No Brasil, dois anos não é muito tempo para uma montagem?
Deborah Colker
: É longo para o padrão de montagem teatral. As pessoas montam uma peça em, no máximo, sei lá, uns três meses. Quando se tem muito dinheiro, a gente ensaia seis meses ( risos ). Imagina então o que é ficar dois anos. É um trabalho mais sofisticado, um processo de muita experimentação.

iG: Um processo caro, inclusive.
Deborah Colke
r: Sim. Mas não sei de valores. Se você me perguntar quanto vale “Tatyana”, não sei dizer. Quem cuida disso é João Elias, produtor executivo da companhia. São 17 bailarinas em cena. Todos com carteira assinada, plano de saúde, vale-alimentação... Além dos quatro técnicos de cena, dois assistentes, professores... É uma equipe gigante e com trabalho estável. Fora a equipe de criação que muda a cada espetáculo. Por isso digo que meu processo de criação se parece mais com cinema do que com o teatro.

iG: Entre seus últimos trabalhos, “Tatyana” é um espetáculo mais clássico. Cansou-se de ser contemporânea?
Deborah Colke
r: Não ( risos )! Adorei isso, gosto de fazer algo clássico... Clássico no sentido de certas regras. Não me incomodo de transitar no clássico sendo uma artista contemporânea. Só fiquei com cinco personagens de todo o livro, e trouxe o autor para dentro. Então, sim, é atitude contemporânea. Ao mesmo tempo tem estrutura clássica, segui a linha linear da história. A linguagem é clássica, a maneira que me relacionei com a música também. Talvez este seja o sinal de que amadureci, após 12 espetáculos na carreira.

iG: Por que você entra cada vez menos em cena nos seus espetácul os?
Deborah Colker
: Porque não dou conta. Agora, por exemplo, está todo mundo descansando, e eu estou aqui no teatro, falando com você. Tenho dois filhos, um neto, carreira internacional... Foram decisões forçadas das quais não me arrependo. Quando assinei com o Cirque em 2006, sabia que teria uma ponte aérea Rio-Montreal, que não é Rio-São Paulo. Sabia que minha vida ia mudar. E mudou.

iG: Como foi esta mudança?
Deborah Colker
: Em tudo que você possa imaginar. Estou indo no dia 15 de junho para Chicago, nos Estados Unidos. Não sou obrigada a ir ao Cirque o tempo todo, mas a imprensa me quer para as estreias. Me ligam dizendo que tenho que ir, porque todo mundo quer me ver. “Ovo” está arrebentando no mundo inteiro.

Isabela Kassow
Faça sol ou faça chuva, estou na minha aula de balé

iG: Tem previsão para vir ao Brasil?
Deborah Colker
: Sabe que sempre pergunto isso quando me ligam lá do Cirque? Mas não há qualquer previsão. Eles ficam rodando os Estados Unidos e, em 2012, vão para a Austrália. Acho que devem segurar para estrear por aqui em 2016, por causa das Olimpíadas.

iG: No que sua passagem pelo Cirque du Soleil te acrescentou como coreógrafa?
Deborah Colker
: Me deu o diploma de diretora. Não tem mais essa de ser só uma coreógrafa. Nunca vou deixar de ser coreógrafa, é parte de mim. Mas agora também sou diretora. O Cirque me deu experiência e respaldo incríveis. Nada é maior do que aquilo. Não tem Broadway ou Disney que seja mais do que aquela arena.

iG: Você voltaria a coreografar uma ala de escola de samba?
Deborah Colker : Não comandaria mais uma ala, porque ia querer fazer daquela ala uma escola à parte. Mas eu seria uma carnavalesca de uma escola. Aliás, é um desejo cada vez mais forte em mim.

iG: Te incomodou, na época que foi coreógrafa de carnaval, não ter sido entendida pelos jurados?
Deborah Colker
: Tirei duas notas baixas, mas foram descartadas, então fiquei com notas máximas... Ah, não me incomoda porque as pessoas sempre me criticam, faz parte. O trabalho do crítico é esse, o cara que dá nota quer isso. Já me chamaram até para ser jurada, eu não fui. Não quero dar nota para o trabalho dos outros. Meu trabalho é fazer e ser julgada.

iG: Apesar de ter 50 anos, você mantem o pique nos palcos. Da onde vem esta vitalidade de uma avó que parece ser a netinha dançando?
Deborah Colker : ( Risos ). Sou apaixonada pela vida, pelas pessoas. Aprendo toda hora, a cada dia percebo que não sei de nada. Tenho tanto para aprender. As emoções, afetos, emoções que guiam o homem... Se posso falar que tenho algum segredo? Faça sol ou faça chuva, estou na minha aula de balé. Isso é uma chave-guia, aquela chave que abre qualquer porta.


Serviço :
“Tatyana” – Cia. de Dança Deborah Colker
Dias 26 e 27, às 21h; Dia 28, às 17h e 21h; Dia 29, às 17h
Local: Av. Almirante Barroso, 14 / 16. Centro, RJ (bilheteria)
Preços: a partir de R$ 20 (galeria lateral)

    Leia tudo sobre: deborah colkertatyanagringo cardiatheatro municipal

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG