Damien Hirst prepara exposição em 11 galerias ao mesmo tempo

Estrela do mundo da arte, inglês vai promover retrospectiva de quadros pontilhados na rede Gagosian; leia entrevista

The New York Times |

Na época em que os mercados financeiros estavam à beira de um desastre, em 2008, o artista britânico Damien Hirst esnobou seus negociantes e convenceu a Sotheby's de Nova York a leiloar 223 obras de arte, em sua maioria recentes.

Havia animais mortos – tubarões, zebras, leitões e até um bezerro – flutuando em formol, mergulhados em tanques de vidro gigantes; armários cheios de diamantes; e pontas de cigarro. E uma abundância de quadros: quadros giratórios, quadros de pontos, quadros com borboletas presas sob vidro.

Mais de 21 mil pessoas se reuniram na Sotheby's para ver a pré-exposição. A venda, realizada em setembro durante dois dias, contrastando com o seu pano de fundo – a crise financeira mundial, que já se desenrolava – arrecadou um total de US$ 200,7 milhões (R$ 367 milhões).

Andrew Testa/The New York Times
Damien Hirst deitado em frente a uma de suas obras na Galeria Gagosian de Londres
Logo antes do leilão, Hirst proclamou o fim daquelas telas abstratas de pontos com cores de doces. Ele também disse que pretendia parar de fazer quadros giratórios e de borboletas, bem como instalações com animais mortos. Para alguns, pareceu uma estratégia inteligente de vendas, que teria caracterizado o leilão como uma oportunidade única, mas Hirst insiste que não foi o caso.

"Eu tinha mudado", explicou ele, sentado em um escritório do andar de cima da galeria Gagosian da rua Brittania, em uma tarde pouco tempo atrás. "Na época do leilão, eu havia chegado ao ponto em que sabia que tinha definitivamente feito o suficiente."

Uma mudança de atitude típica de Hirst, porém, viria a acontecer. Ele começou a fazer quadros com pontos outra vez, e – como acontece todos os anos – esse artista de 46 anos também está promovendo uma outra mostra. Dessa vez, ele convenceu o dono da galeria, Larry Gagosian, a deixá-lo assumir todas as suas 11 galerias – as duas de Londres; três em Nova York; uma em Paris, Roma, Hong Kong, Atenas, Genebra e Beverly Hills, na Califórnia – para realizar uma retrospectiva de seus quadros com pontos.

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Obra de Damien Hirst no extinto restaurante londrino Pharmacy
A exposição, que vai de 12 de janeiro a 18 de fevereiro, não tem como deixar de evocar ao menos um clichê ou dois: por exemplo, o fenômeno oftalmológico conhecido como moscas volantes e o jogo de ligar pontos, apenas para citar os mais óbvios. Assim como tantas das coisas feitas por Hirst, a exposição deve atrair uma saraivada de críticas. Até mesmo a própria ideia da exposição é excomungada por alguns.

Richard Dorment, crítico de arte do Daily Telegraph, em Londres, chamou os quadros com pontos de "incrivelmente chatos". Quando indagado sobre a premissa da mostra das galerias Gagosian, respondeu: "Acumular um monte deles em um espaço como a Turbine Hall, da Tate, pode provocar um impacto visual, mas eu não entendo o motivo de encher todas as galerias Gagosian ao redor do mundo. A qual finalidade isso vai servir?".

Hirst já ouviu todas essas queixas antes. "Eles foram os últimos trabalhos meus que emplacaram", disse ele sobre os quadros com pontos. "Uma vez, alguém veio até mim e disse: 'Por que é que você faz esses pontos estúpidos? Eles são bobos. São um insulto à pintura"'. Mas, para Hirst e Gagosian, o negócio é sério.

"É como levar uma mostra a vários lugares", disse Gagosian em uma entrevista por telefone. "Essas pinturas já fazem parte da cultura popular. Você as vê em propagandas, roupas, carros. Elas se tornaram parte do nosso vocabulário visual" [em 2003, Hirst pintou um barco de 220 lugares, que atravessou o Tâmisa da Tate Britain à Tate Modern, com pontos de 35 cores].

A exposição realizada nas galerias Gagosian vai incluir cerca de 200 obras, feitas ao longo de 20 anos, vindas de coleções de 20 países. Os empréstimos são provenientes de museus e colecionadores de todo o mundo. Menos de um terço da exposição estará à venda.

Eu costumava deixar buracos no meio dos círculos para que eles não ficassem perfeitos.

Embora representantes da galeria digam que ainda é cedo para falar em valores, obras comparáveis negociadas em leilões atingiram preços que vão de US$ 100 mil a mais de US$ 1,8 milhão, dependendo da data, tamanho, projeto e condição. A mostra será seguida por uma retrospectiva completa na Tate Modern, que vai estrear no dia 4 de abril.

Recentemente, Hirst passou uma tarde enfurnado em um escritório da galeria da rua Britannia, na região de King's Cross, onde maquetes em papelão branco de todas as 11 galerias Gagosian estavam dispostas em mesas, com reproduções em miniatura de cada tela penduradas nas paredes das maquetes.

"Essa mostra é algo que eu sempre quis fazer", disse Hirst, que vestia seu habitual uniforme de calças jeans e casaco de capuz. "Espero que cada galeria mostre a sua própria personalidade. A Avenida Madison tem uma atmosfera que lembra mais os antigos mestres; por isso, vamos colocar os quadros mais antigos lá."

Hirst disse que teve a ideia da mostra durante uma visita que fez a Nova York, enquanto olhava para uma parede na entrada da galeria da Avenida Madison, onde estavam listadas as exposições abertas em todos os endereços da Gagosian. "De repente, pensei, 'Ah, meu Deus, poderia ser uma espécie de retrospectiva de museu se eu a realizasse em todas as nove galerias ao redor do mundo'" (desde então, a Gagosian abriu mais duas).

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Obra de Damien Hirst em museu de Melbourne (Austrália)
É provável que a ideia dos quadros com pontos, disse Hirst, tenha vindo, de modo inconsciente, de seu pai, que era vendedor de carros em Leeds, ao norte da Inglaterra, e pintava a porta de sua casa com pontos azuis.

"Ele pegou uma tigela, recortou um círculo, o cobriu e depois pintou os pontos com tinta spray", disse Hirst. "Eu costumava dizer às pessoas que morava na casa da porta branca com pontos azuis."

Hirst começou a fazer a série dos pontos em 1986. "Na época, eu fazia espécies de colagens que lembravam um pouco pinturas de Nicholas de Stael ou Hans Hoffmann e estava resolvendo um monte de problemas formais relacionados à cor", disse ele. "Continuei trabalhando neles porque eles sempre ficavam ótimos. A ideia era que ela seria uma série interminável. É uma ideia mais conceitual do que real."

As primeiras pinturas de pontos foram feitas diretamente na parede, acrescentou ele, "de modo que parecia que uma máquina gigante as tinha feito".

Superficialmente, elas são pinturas alegres, mas existe nelas uma inquietação subjacente. Perdemos as referências, já que é difícil manter a concentração nelas.

"Foi uma espécie de tentativa de negar que existia um artista ali, então eram pinturas que aparentavam ser de uma felicidade infinita", disse Hirst. Mas, ao longo dos anos, sua ideia passou por muitas transformações. Ele passou por uma fase em que queria ter certeza de que o observador saberia que as pinturas tinham sido feitas por um homem.

"Eu costumava deixar buracos no meio dos círculos para que eles não ficassem perfeitos", disse ele. "Em alguns quadros, eu dava apenas uma mão, para que se pudesse ver o branco da tela, e em alguns havia marcas, gotas e arranhões, de modo que eles ficavam um pouco deformados. Eu me digladiava com os meus assistentes que queriam deixá-los perfeitos, mas gradualmente, ao longo dos anos, mudei minha opinião a respeito. Agora eu gosto de como eles são quando ficam quase perfeitos."

Das centenas de telas com pontos, apenas cinco foram pintadas pelo próprio Hirst. "Quando eu elaborei o modo de fazer as pinturas, costumava vendê-las por aproximadamente 50 libras e, em seguida, usava o dinheiro para empregar outras pessoas para pintá-las", disse ele, explicando que diz a seus funcionários que quer que as cores sejam aleatórias. Uma vez, um assistente pintou uma fileira de cinco pontos amarelos. "Eu disse a ele que aqueles pontos não eram aleatórios", lembrou Hirst. "E nós tivemos uma briga feia. Agora percebo que ele estava certo e eu estava errado."

Outro assistente poderia receber o crédito pela volta do artista aos pontos. "Ele me mostrou que conseguia pintar coisas realmente bem pequenas", disse Hirst, "e eu disse: 'Uau!'. Aquilo marcou um novo começo". E os pontos voltaram, agora cada vez menores e menores.

No momento, uma pintura que não ficará pronta a tempo de integrar a exposição está sendo preparada. Hirst designou a dois assistentes a tarefa de criar uma tela de 2 milhões de pequenos pontos, cada um com cerca um milímetro de diâmetro. Ele estima que essas duas pessoas vão demorar nove anos para preparar o quadro.

"Não é o tipo de coisa que dá para produzir rápido", disse ele. "Uma pessoa só consegue pintar durante 15 minutos. Depois disso, os olhos começam a ficar um pouco estranhos."

Para alguns, a ideia de contemplar galerias que contêm apenas telas cheias de pontos pode parecer algo insuportavelmente monótono. Mas não para o artista, como seria de se supor.

"São coisas muito difíceis de olhar", disse ele. "Superficialmente, elas são pinturas alegres, mas existe nelas uma inquietação subjacente. Perdemos as referências, já que é difícil manter a concentração nelas. Devemos nos concentrar no padrão, nos pontos individuais ou no quadro como um todo? Depois que começamos a olhar para elas, ficamos perdidos."

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