Corpo de Millôr Fernandes é cremado no Rio de Janeiro

O velório reuniu parentes e amigos do jornalista no cemitério Memorial do Carmo

Anderson Dezan, iG Rio de Janeiro |

Parentes e amigos de Millôr Fernandes se despediram nesta quinta-feira (29) do jornalista no Rio de Janeiro. Realizado no cemitério Memorial do Carmo, na zona portuária da capital fluminense, o velório teve início por volta das 10h20. A cremação do corpo ocorreu às 15h.

AE
Millôr Fernades destacou-se como desenhista, humorista, dramaturgo, escritor e jornalista
Millôr Fernandes morreu na última terça-feira (27), aos 87 anos, vítima de falência de órgãos múltiplos. Sua saúde estava debilitada havia algum tempo. No ano passado, o jornalista passou quatro meses internado na Casa de Saúde São José, mas, na época, a família não autorizou a divulgação de boletins médicos.

Confira charges e amostras da obra de Millôr

“Uma coisa que aprendi com o meu pai foi que jamais devemos utilizar o humor para humilhar alguém. O humor é uma arma muito forte”, disse Ivan Fernandes, filho do jornalista. Confira abaixo alguns depoimentos de alguns familiares e amigos de Millôr que estiveram no velório:

Ivan Fernandes, filho: “Meu pai tinha uma coisa interessante. Ele gostava de ser chamado de bate-pronto. Uma vez, numa noite de autógrafos, um homem fez uma brincadeira com ele após comprar um livro. Pediu para que meu pai escrevesse qualquer besteira e ele respondeu na hora: então dita. Meu pai tinha essa rapidez”.

Ruy Castro, escritor: “Eu o conhecia desde 1968 e, desde então, não se passou um dia que uma frase dele não iluminasse algo que estava obscuro. Digo isso como leitor e amigo. O Millôr era mais fascinante falando do que escrevendo”. “Ele era um filósofo de categoria internacional. Todos os pensadores internacionais batidos no liquidificador não dariam meio copo do Millôr”. “Quando surgiu o computador ele era chamado de cérebro eletrônico. Millôr virou e disse: ‘O cérebro eu já tinha. Só faltava a eletrônica’. Em outra situação, quando ocorreram as indenizações de algumas pessoas que foram exiladas na época da Ditadura Militar, ele recusou-se a receber o dinheiro e declarou: ‘Não sabia que minha luta pela liberdade era um investimento’”.

Hélio Fernandes, irmão: “Falo como amigo mais velho do Millôr. Quando ele nasceu, eu tinha dois anos. Meu irmão já nasceu extraordinário. Foi um gênio completo como Chico Anysio. Ambos eram gênios e insubstituíveis. Mas o Millôr foi o gênio mais eclético que conheci. Todo mundo o respeitava porque ele era um personagem supersincero. Ele fazia tudo com a maior naturalidade”.

Cora Rónai, jornalista: “Vivemos juntos os últimos 32 anos vividos por ele. O Millôr era muito mulherengo. Havia um consórcio de mulheres atrás dele. Era impossível conhecer Millôr e não se apaixonar. Era um sedutor nato, charmoso e romântico. Se estivesse a fim de seduzir alguém, ele seduzia. Quando comecei a namorá-lo, fiz uma cena de ciúmes e disse que não participaria do consórcio. Mas ele começou a mandar flores, emissários e recados através de amigos. Aí reavaliei minha posição. Quando você encontra alguém incomum, sua vida também fica incomum. Morávamos em casas diferentes”. “Pensei em não vir aqui hoje porque nosso pacto era para a vida, não para a morte. Não sou a viúva, mas era a mulher dele”. “Tem duas frases dele que uso na minha vida: ‘Como são admiráveis as pessoas que não conhecemos muito bem’ e ‘Não se amplia as vozes dos imbecis’. Esta última ainda é mais importante na profissão de jornalista”.

Sílvio Tendler, cineasta: “Tristeza e saudade. Esses são os meus sentimentos neste momento. O Millôr foi uma das cabeças mais inteligentes que conheci. A sua ida deixa uma lacuna muito grande na cultura brasileira. Foi com ele que aprendi a ser contestador. O intelectual não pode ser acomodado”.

Marcelo Madureira, humorista: “Millôr foi um cara que traduziu Shakespeare. Fiquei pessoalmente comovido com sua morte. Eu me sinto profissionalmente órfão. Ele era um pensador que provou que o humorista pode ser um intelectual”.

Otávio Augusto, ator: “Além de um grande amigo, o Millôr era um grande artista. A liberdade que ele sempre cultivou é algo inspirador”.

Paulo Casé, arquiteto: “Tivemos mais de 30 anos de convivência. Gostávamos de jogar conversa fora. O Millôr era um deus da sabedoria”.

Chico Caruso, cartunista: “Ele era um cara muito trabalhador e competitivo. Não admitia ninguém mais inteligente que ele, nem o computador. Millôr tinha o espírito do carioca. Ele tinha obstinação e individualismo, mas naquilo que o individualismo tem de bom: a força que todos precisam encontrar em si mesmo para vencer”.

Hubert, humorista: “Millôr foi o sujeito que mais e melhor exerceu a liberdade de expressão. Falava sobre tudo. Você ficava até meio humilhado. A gente usa só 10% da capacidade do nosso cérebro. O Millôr usava muito mais. As frases dele nós vamos usar daqui a 100 anos. Dizem que ele era o Oscar Wilde brasileiro, mas a verdade é que o Oscar Wilde era o Millôr da língua inglesa”.

Marília Pêra, atriz: “Ele era um homem livre. Não era ligado a nenhum time de futebol, religião ou partido político. Isso é incrível. Além disso, era muito culto, inteligente e engraçado".

Walter Salles, cineasta: “Perder o Millôr é como perder o Pelé e o Garrincha de uma vez só. A palavra gênio foi muito banalizada por causa do futebol, mas o Millôr foi uma das poucas pessoas que poderiam ser realmente chamadas de gênio”.

Soraya Ravenle, atriz: “O Millôr era uma das cabeças mais incríveis deste país. A multiplicidade dele não existia e nem vai existir em mais ninguém. Era um homem que nunca se prendeu a nada e nem a ninguém. Talvez possa ser a única pessoa que tenha vivido dessa forma, sem rabo preso. Tínhamos uma relação pontual. Ele foi a alguns espetáculos que fiz e, no final, ia me cumprimentar. Ele não fazia ideia o quão importante esses gestos foram pra mim. Até hoje eles servem de alimento e impulso na minha vida”.

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