Conheça o ¿Instituto Galpão Gamboa¿, laboratório teatral instalado no Centro do Rio

Marco Nanini e o produtor Fernando Libonati idealizam inovadora fábrica de artes cênicas

Valmir Moratelli, iG Rio de Janeiro |

Ao final da rua em curva, se avista o morro da Previdência, a favela mais antiga do Rio e recentemente pacificada (com uma Unidade de Polícia Pacificadora). Do lado esquerdo, a Cidade do Samba, um sopro de novidade que aportou na região central da cidade, por tanto tempo degradada. Os demais espaços são ocupados por casebres e fábricas desativadas ao longo dos últimas décadas. A rua da Gamboa é um retrato do descaso com que as autoridades lidaram com este pedaço da cidade, vizinho à zona portuária.

Exatamente ali está localizado o “Instituto Galpão Gamboa”, que o ator Marco Nanini e seu fiel escudeiro e produtor teatral Fernando Libonati inauguraram no dia 19 de agosto. “Não tenho notícia de qualquer iniciativa parecida no Brasil. É um teatro e uma oficina ao mesmo tempo, localizada numa região desfavorecida”, define o ator.

Um casarão de três andares, espremido por uma fábrica de piso para elevadores e de azulejos, adornada na fachada por cartazes de peça teatral, chama atenção de quem passa por ali. O prédio ainda é novidade. “O que é isso, hein? Escola ou igreja?”, pergunta um senhor, que vai caminhando pela calçada e se depara com a reportagem do iG .

Léo Ramos
Galpão Gamboa: "sonho quixotesco" de Marco Nanini

O “Galpão Gamboa” não é escola nem igreja. Mas, segundo seus idealizadores, tem um viés educacional e catequizador. “A ideia não é focar no lado social apenas. Queríamos um espaço para preparar nossas peças, sem ter que nos preocupar com horário comercial dos teatros convencionais”, diz Nanini, que se refere ao prédio como seu "sonho quixotesco". Há uma ampla sala de ensaios, uma sala de espetáculos com capacidade para público de 120 pessoas, confortável camarim, um ateliê de costura, uma cantina e espaço para montagem de cenários. Tudo com acesso facilitado para portadores de deficientes físicas – com rampas e banheiros adaptados.

O terceiro andar é reservado para atividades físicas, com finalidade social. O “Galpão” oferece aulas de muai-thai para jovens de 8 a 16 anos, além de ioga e, em breve, curso de corte e costura para a comunidade. “Quero aprender a costurar, porque no carnaval poso arrumar um emprego em algum barracão de escola de samba”, planeja a dona-de-casa Maria Araújo.

Projeto exportação

Léo Ramos
Ateliê do Galpão Gamboa
Foi no “Galpão Gamboa” que a peça “Pterodátilo”, atualmente em cartaz no teatro das Artes, na zona sul carioca, foi montada. Em todos os sentidos. Desde do figurino à estrutura de iluminação e até os ensaios abertos ao público. “Aqui temos espaço para fazer os testes necessários e também mostrar à população como é que se monta um espetáculo”, diz Fernando Libonati. Em breve, o teatro local vai receber a peça “Cachorro”, de Vinicius Arneiro, com ingressos a R$ 10.

Pelos cálculos de Libonati, eles gastam mensalmente cerca de R$ 15 mil para manter toda a estrutura – o valor dobra se tiverem que calcular gastos com produção de peça. Sem qualquer patrocínio de iniciativa privada ou de ajuda governamental. “É por amor mesmo”, define.

Nanini avisa que “Pterodátilo” chega a São Paulo em março, no Teatro Shopping Frei Caneca. O que só reforça a ousadia do Galpão, de querer “exportar” suas produções. Como sempre foi a finalidade primeira daquela região portuária. Além de receber outras produções independentes, eles pretendem que o espaço seja referência para a comunidade local, carente de cultura e de opções de lazer. “Encenamos a peça aqui, de graça. Mas não veio tanto público local como pretendíamos. Ainda vamos ter que reforçar junto à comunidade esta ideia de que teatro não é só para a elite. Tem gente que não vai ao teatro por achar que precisa de um ritual, de estar bem vestido”, analisa Nanini.

Confira na galeria a seguir fotos do espaço:

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