Como as obras de arte estão ganhando as ruas de várias cidades do mundo

O francês Marc Pottier, curador e consultor de arte, explica o que leva os artistas a optarem por expor suas peças no meio das calçadas e praças públicas

Valmir Moratelli, iG Rio de Janeiro |

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O curador Marc Pottier
Esqueça as filas intermináveis dos museus mais famosos do mundo, o silêncio das salas de exposição e as peças cercadas de segurança e intocáveis perante o público. É cada vez mais comum o uso do espaço público para se expor obras de arte. O movimento, conhecido como “arte pública”, tem como defensor o francês Marc Pottier.

Um dos mais renomados consultores de arte da atualidade, Pottier esteve no Rio para uma palestra na Casa do Saber. O assunto, claro, foi a importância de se levar para as ruas obras de arte cada vez mais impactantes. “A arte exposta no espaço público faz parte da qualidade de vida de um determinado lugar. O importante é que a exposição possa estar na vida normal das pessoas, na rua, no metrô, no aeroporto... São objetos que vão dar embasamento e uma estética diferentes à cidade”, diz ele, que é curador e consultor de arte, já foi adido cultural do consulado francês no Rio de Janeiro e hoje tem um escritório de consultoria de artes plásticas em Paris, na França.

Após atuar em escritórios no Japão, EUA e França, Pottier começou a organizar uma série de exposições nos EUA, na Europa e no Brasil. Atualmente, está envolvido em diversos projetos de arte pública, como dois imensos jardins nos Emirados Árabes. Para o Brasil, ele prepara o projeto “Mobilizarte”. “A ideia é que possamos fazer exposições temporárias em várias cidades brasileiras, a partir do Rio de Janeiro, como um percurso cultural. Se tudo der certo, vai acontecer já em 2012”, diz.

Pottier conversou com o iG horas antes de sua palestra. Adiante, o papo.

iG: Qual a função da “arte pública”?
POTTIER: A arte exposta no espaço público faz parte da qualidade de vida de um determinado lugar, remete a garantir ao público encontrar objetos de qualidade em seu dia a dia. Estou falando de obras de arte expostas em lugares que possam ter contato com o maior número de pessoas possível. O importante é que a exposição possa estar na vida normal das pessoas, na rua, no metrô, no aeroporto... São objetos que vão dar embasamento e uma estética diferentes à cidade.

iG: Os museus estão ficando obsoletos?
POTTIER: Não. Quando se está visitando um museu, você entra num mundo à parte. Ao sair dali, voltamos ao normal. A arte no espaço público permite que se coloque este tipo de experiência dos museus fechados no seu caminho. E isso pode ser arte definitiva ou temporária.

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A obra no Millenium Park revitalizou um dos bairros de Chicago, nos Estados Unidos. Mais visitantes, mais turistas

iG: Estas obras expostas nas ruas também poderiam estar em museus?
POTTIER: Não, porque elas foram pensadas para outro lugar de exposição. A Arte no espaço público precisa ter o público andando, em movimento, com prédios, trânsito, a agitação normal das cidades. Não tem nada a ver com exposições de museus. Não funcionaria no espaço fechado, porque não foi feita para isso.

iG: Como estas obras dialogam com o espaço urbano?
POTTIER: É possível criar uma outra atividade na comunidade. Cito por exemplo a Fronçoise Schein, artista da Bélgica. Ela trabalhou os conceitos de direitos humanos na favela do Vidigal, em 2002. Para isso, ela criou um espaço de discussão de arte onde antes era um monte de entulho, poeira, lixo, na subida da favela. Hoje, é um organizado ponto de ônibus com azulejos, um espaço para as pessoas esperarem sua condução. É uma forma de arte e uma experiência de vida. Uma coisa útil em todos os sentidos.

iG: Obras de arte também são formas de reurbanização?
POTTIER: Claro, é a última utilidade de arte no espaço público. Em Chicago, por exemplo, as obras que foram ali colocadas (do indiano Anish Kapoor, no Millennium Park) são hoje visitadas por milhões de pessoas. Ouso afirmar que estas pessoas vão até lá para ver estas obras. As praças se revitalizam, porque atraem muitas pessoas ao local antes

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Chafariz de Jaume Plensa, em Chicago
esquecido. Isso melhora a imagem da cidade, com fotografias que rondam o mundo. Em termos de turismo, é um caminho maravilhoso.

iG: O que se leva em consideração quando uma obra é feita para ficar no meio da rua?
POTTIER: Tudo depende da região. Os artistas estudam as funções da obra de acordo com os espaços. As regras públicas devem ser respeitadas, mas também precisam ir de acordo com a imaginação do artista. A luz é outra, o barulho é intenso em alguns lugares, a ação da chuva e do vento... Tudo deve ser levado em conta.

iG: No Brasil, que cidade seria um bom “museu a céu aberto”?
POTTIER: Um só lugar? O Rio é uma cidade única, com arquitetura das montanhas e do mar. Mas meu desafio seria imaginar obras ao longo das grandes avenidas de Brasília, que já é uma cidade de arquiteturas. Um artista pode pensar coisas incríveis para aquela cidade.

iG: Estátuas de personalidades e políticos, por exemplo, expostas em praças, também são uma forma de arte?
POTTIER: Dependendo de como você enxerga isso, sim. Esculturas foram uma forma que se achou para celebrar os homens poderosos. Na Grécia Antiga, onde isso começou no Ocidente, você tinha basicamente os imperadores e os deuses representados... A religião dominando o espaço urbano junto com a política.

iG: Uma das estátuas mais visitadas no Rio é a do poeta Carlos Drummond de Andrade, na praia de Copacabana. O que acha dela?
POTTIER: Acho que estátua de personagens reais, hoje, é uma coisa um pouquinho démodé (risos). Prefiro uma instalação onde o público tem a chance de descobrir o mundo da pessoa homenageada. Uma estátua é diferente de uma obra que tenha elementos que vão entrar na personalidade da cidade ou mesmo da pessoa. Os artistas estão inventando outras maneiras de gerações futuras entenderem quem foi a pessoa a qual se quer lembrar. Obras mais completas, para valorizar o assunto. E não apenas uma imagem.

iG: Qual é a mais cara obra exposta em espaço público?
POTTIER: São assuntos confidenciais, que não me permitem te responder em detalhes. Uma obra pode ser de 20 mil reais a 20 milhões de dólares.

iG: E quais são as próximas “intervenções” urbanas que seu escritório está desenvolvendo?
POTTIER: Estou trabalhando de Paris, com minha equipe, para um projeto em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes. Estamos fazendo dois parques públicos para a família real. Para o Brasil, trabalho no ‘Mobilizarte’, que será um projeto cultural móvel. A ideia é que possamos fazer exposições temporárias em várias cidades brasileiras, a partir do Rio de Janeiro, como um percurso cultural. Se tudo der certo, vai acontecer já em 2012.

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