Grupo Voina já promoveu orgias em museus, depredou viaturas policiais e desenhou um pênis em uma ponte

O desenho de um pênis em uma ponte, a realização de uma orgia durante as eleições presidenciais, virar sete viaturas policiais de cabeça para baixo... Vandalismo ou arte? Depende do ponto de vista. O coletivo de artistas russo Voina tem sido perseguido há três anos pelas autoridades do país por atos como estes - o que resultou na prisão de dois integrantes do grupo -, mas, ao mesmo tempo, ganhou a admiração do grafiteiro Banksy e o apoio de galerias de arte russas.

A primeira ação do grupo aconteceu em fevereiro de 2008, dois dias antes das eleições presidenciais que levaram Dmitry Medvedev ao poder. Cerca de 12 integrantes, incluindo uma grávida, invadiram o Museu de Biologia russo e fizeram uma orgia. Enquanto isso, seu líder Alexei Plutser-Sarno segurava um cartaz que dizia "Transem pelo Urso Teddy", em alusão ao sobrenome do presidente, que deriva da palavra russa para urso. Segundo o grupo, a manifestação era contra as eleições "pornográficas e ridículas" que estavam acontecendo.

Pelo ato, eles foram acusados de disseminar a pornografia e, desde então, passaram a viver às escondidas, sem telefones e com constantes mudanças de endereço. Em 10 de novembro do ano passado, dois integrantes do grupo, Oleg Vorotnikov e Leonid Nikolayev, foram presos enquanto dormiam. Plutser-Sarno, o líder, estava na casa um dia antes da prisão. Banksy ofereceu 80 mil libras de fiança para as autoridades, que recusaram e mantiveram a dupla presa até esta terça, dia 22. Vorotnikov e Nikolayev só foram soltos porque o julgamento ainda está distante, mas continuam sob a acusação de vandalismo, que pode condená-los a sete anos de prisão.

Há um temor na Rússia de que a perseguição ao grupo signifique uma volta da censura dos tempos da União Soviética. Isso, no entanto, não parece intimidar o grupo. Antes das prisões de novembro, o Voina fez sua ação mais controversa, chamada de "Revolução do Palácio": viraram sete carros de polícia para baixo, alguns com policiais dentro.

Plutser-Sarno, de 48 anos, vive como um nômade. Entra e sai da Rússia constantemente pela fronteira com o Cazaquistão, não dorme no mesmo lugar duas noites seguidas e só aceitou conceder uma entrevista ao jornal britânico The Independent por Skype, sem revelar sua localização. "Não é fácil nos encontrar e os policiais são corruptos. Eles não se preocupam em ir atrás de artistas pobres. Preferem roubar dinheiro de empresários", disse o líder do Voina, que nega que suas ações sejam vandalismos. "Se os artistas consideram isso arte, pessoas do ramo consideram também, o que elas são? Lutamos contra as autoridades criminosas", declara.

O reconhecimento do meio artístico chegou ao ápice neste mês, quando a obra "Pênis Capturado pela KGB" foi indicada ao prêmio "Inovação 2010". A Voina, no entanto, refutou a participação, alegando que não faz arte por dinheiro ou prêmios, e sim para sensibilizar as pessoas. "Pênis Capturado pela KGB" consiste em um enorme desenho de um pênis na ponte Liteiny, em São Petesburgo, que, quando é levantada, fica de frente para a sede da FSB, agência de inteligência sucessora da KGB.

Não é apenas a indicação ao Inovação 2010 que legitima o trabalho da Voina. Olesya Turkina, curadora do Museu Russo de São Petesburgo, diz que o grupo segue a tradição dos artistas do futurismo russo do início do século 20, e louva as ações. "Isto é arte revolucionária", disse em entrevista ao The Independent. "O 'Pênis Capturado pela KGB é uma obra genial, que demonstra nosso estado fálico e patriarcal." Para ela, é um absurdo que os artistas sejam acusados da mesma forma que grupos skinheads que fazem atos racistas. "Após a Perestroika, tivemos uns 15 anos de liberdade intelectual, mas agora há sinais de que ela está indo embora", conclui.

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