Wim Wenders filma no Brasil e fala de nova era no cinema

Convidado da 32ª Mostra de São Paulo, diretor alemão concede entrevista ao iG

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

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Wim Wenders orienta o roqueiro Campino no set
Pela segunda vez no Brasil, e no mesmo ano, o cineasta alemão Wim Wenders participa agora da 32ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Ontem à noite, depois da exibição de seu último filme, “Palermo Shooting”, o diretor conversou madrugada adentro com o público presente no Cinesesc sobre esse e trabalhos anteriores. Bem humorado, fazendo graça o tempo todo com a plateia, brincou com Leon Cakoff, diretor do festival: “você não devia ter me dado aquelas caipirinhas.” Na sequência, recebeu das mãos de Cakoff o Troféu Humanidade, homenagem máxima do evento, entregue em outras edições a Manoel de Oliveira e Amos Gitai, entre outros realizadores.

Algumas horas antes, à tarde, Wenders concedeu uma entrevista exclusiva ao iG , enquanto uma tempestade relâmpago desabava sobre a capital paulista, e mostrou a mesma disposição. Surpreso com a quantidade de chuva, não pôde deixar de comentar o que, acredito, deve ter encarado como um fenômeno tropical. “Já estive no Brasil antes, mas nunca vi isso!” O quadro ficou completo quando começou a cair granizo no lounge da Mostra, na rua Augusta. Pequenas pedras de gelo aterrissaram na mesa e o diretor fez menção de fazer companhia às outras em seu copo de refrigerante, mas em seguida mudou de ideia.

Além de apresentar o ciclo “Carta Branca a Wim Wenders”, em que escolheu 15 filmes a seu critério para integrar o festival, o cineasta admitiu que vai aproveitar a passagem pela cidade para filmar algumas cenas. O trabalho deve acontecer ao longo desta quarta-feira, mas Wenders não quis dar detalhes, alegando que o cronograma seria decidido depois com Cakoff. A experiência deve integrar um longa-metragem produzido pela Associação da Mostra, a exemplo de “Bem-vindos a São Paulo”, exibido nos cinemas em 2007. Cakoff já havia falado ao iG sobre o projeto, quando comentou que tudo é feito no improviso. “É uma nova forma, ousada, de se trabalhar”, disse na ocasião.

“Palermo Shooting” (ainda sem título em português ou previsão de estreia no Brasil) mostra os dilemas do fotógrafo Finn, que leva uma vida no piloto automático em Düsseldorf, na Alemanha, se dividindo entre trabalhos no mundo da moda e outros de inspiração artística. Os últimos, aliás, rendem uma citação a São Paulo – o personagem recebe um convite para expor suas obras em outdoors da cidade e até planeja a disposição das fotos em uma maquete do primeiro andar do Masp. “Li que São Paulo ia eliminar e limitar todo tipo de publidade nas ruas e achei uma ideia tão legal e corajosa que não podia deixar de alguma forma falar sobre isso”, explicou Wenders.

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Dennis Hopper: a morte em "Palermo Shooting"
Na entrevista, o diretor de “Asas do Desejo” e “Buena Vista Social Club” ainda falou de suas relações com o rock ‘n’ roll – utilizado em peso na trilha sonora de “Palermo Shooting”, que conta inclusive com uma participação de Lou Reed –, do tabu de filmar a morte em pessoa, do declínio do cinema hollywoodiano e do futuro digital da sétima arte.

iG: Além de sua paixão pela fotografia, a morte é a grande protagonista de “Palermo Shooting”. O fim da vida é um tema que lhe interessa?
Wim Wenders: Me parece que uma das mudanças mais óbvias na cultura contemporânea é que a era do computador tornou possível fingir que somos imortais. Todos nós – eu, você e todas essas pessoas aqui – estamos sempre correndo atrás do tempo perdido, com mais e mais coisas que precisamos fazer, mas não conseguimos dar conta. Temos uma vida tão rica e, ao mesmo tempo, vivemos cada vez menos no presente. E a tecnologia à nossa disposição –dispositivos eletrônicos, computadores, internet, email, câmeras, celulares – não ajuda a nos manter sintonizados com o nosso tempo. Na verdade, todos fingimos ser imortais, é uma doença contemporânea. A realidade é que muitos vão chegar ao fim algum dia e perceber que perderam a maior parte de suas vidas, que não estavam lá e jogaram tudo fora. Então pensei que se ficássemos conscientes de nossa mortalidade novamente, poderíamos melhorar nossas vidas, mais dispostos a viver no presente. Ao lidar com o assunto, achei inevitável confrontar a morte e o lugar para isso é o cinema, onde você pode de fato encontrá-la. Não há solução melhor.

iG: Este é o primeiro longa-metragem que você filma na Alemanha em mais de uma década – o último foi “Tão Longe, Tão Perto” (1993) – mas mesmo desta vez boa parte da história se passa em Palermo, na Itália. Sei que você se denomina um viajante, mas você sente a necessidade de também filmar em lugares diferentes?
Wim Wenders: Desde de que comecei a fazer filmes, fui movido por um senso de lugar. O desejo de filmar em certos locais, em uma paisagem ou uma cidade, foi a força maior da maioria dos meus filmes. A ideia de Palermo estava lá desde o início, mais pelo aspecto, como se fosse uma Havana na Europa. Somente só quando estava escrevendo o roteiro e morando na cidade antes das filmagens é que descobri que aquele era o melhor lugar possível para essa história. Acredito que um lugar pode despertar certas coisas, oferecer outras e até nos chamar. Palermo me chamou para contar essa história.

iG: Li que você escreveu o papel especialmente para Campino, o protagonista. Como foi a experiência de trabalhar com ele, um ator não-profissional e um roqueiro?
Wim Wenders: Era arriscado fazer um filme sobre esse tema. É um grande tabu: você pode matar mil pessoas em um filme, mas não pode falar da morte. Por causa desse risco, decidi não confiar em nada em que conhecia, nem na minha habilidade, nem nos filmes que fiz antes – devia fazer algo completamente arriscado. Pensei, então, que seria bom se meu maior aliado não fosse um ator, que pudesse confiar em sua profissão, mas alguém que, assim como eu, começasse do zero. Conheço Campino já há muito tempo, dirigi um clipe da banda dele, então sabia que ele tinha essa presença de conseguir tomar conta do palco a cada show, queria que ele fizesse isso na frente das câmeras. Campino já escreveu muitas músicas sobre morte, o logotipo do grupo tem uma caveira e o próprio nome da banda (Die Toten Hosen), que é bem difícil de traduzir, tem a ver com a morte. Tudo indicava que seria uma boa escolha.

iG: Em todos esses anos, qual foi sua relação com o rock ‘n’ roll? Tem alguém com quem você ainda gostaria de trabalhar?
Wim Wenders: Já abordei mais ou menos esse assunto em “Ode to Cologne”, filme meu sobre uma banda de rock alemã, BAP. Eles vivem e trabalham em Colônia, compõem e cantam em um dialeto que só é entendido lá, tanto que até na Alemanha foram necessárias legendas para o filme. É o único filme de rock que já fiz, mas talvez tenha algumas partes em “Soul of a man”, que é meu filme sobre blues. Sempre quis fazer alguma coisa com Patti Smith. Na verdade, ela até filmou algumas coisas em Palermo para esse último filme, em um lugar belíssimo. Depois escrevi duas ou três grandes cenas para ela, mas infelizmente Patti não pôde voltar. Já assisti ao documentário sobre ela que está aqui na Mostra, é excelente.

iG: Na sua opinião, existe alguma filmografia no mundo hoje que se destaca? Onde Hollywood se encaixa nisso?
Wim Wenders: Bem, os melhores filmes feitos recentemente são documentários, como “Darwin’s Nightmare” e “Corporation”. Mas a Romênia e a Coréia do Sul, Japão, Taiwan e outros países da Ásia estão fazendo filmes fantásticos. É uma época de mudanças no cinema. Acho que o cinema norte-americano foi dominante em todo o mundo por muito tempo, e agora, especialmente se comparado à América Latina, se perdeu. Porque ele é tão formulaico, tão baseado em receitas. Acredito que o público que está crescendo hoje em dia com o YouTube e esse tipo de tecnologia digital não necessita de fórmulas. Os jovens não querem, não precisam mais delas. Optam por aquilo que é muito mais real, pesquisam novas formas. Acredito que o cinema norte-americano terá que se repensar para sobreviver.

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