Werzer Herzog elogia Glauber Rocha e Garrincha

Em São Paulo, diretor alemão fala da carreira e aconselha jovens a ver a "vida de verdade"

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

AE
Werner Herzog: "Três meses caminhando valem mais do que três anos numa escola de cinema"
Embora os personagens de Werner Herzog vivam no limite, o cineasta alemão está longe de qualquer crise. Ao participar nesta terça-feira (17) de um congresso sobre jornalismo cultural e de uma coletiva de imprensa em São Paulo, o maior nome do Novo Cinema Alemão, ao lado de Wim Wenders, mostrou descontração, solicitude e simpatia ao falar sobre sua obra - que, aliás, não para de crescer.

Seu último filme a chegar ao país foi "Vício Frenético", de 2009, estrelado por Nicolas Cage, mas ele garante que já fez oito ou nove depois disso, todos ainda inéditos no Brasil. O último deles, que estreou há pouco nos Estados Unidos e na Europa, rendeu um discurso apaixonado e tem uma premissa intrigante: documentar, em 3D, desenhos rupestres numa caverna francesa.

Parece estranho, inusitado, mas a obra de Herzog, hoje com 68 anos, nunca foi fácil. Em especial nos anos 1970 e 1980, os trabalhos do diretor serviam como farol para quem procurava um cinema intenso, às vezes desesperador, que mesmo assim encontrava poesia em diálogos e paisagens. "Aguirre, a Cólera dos Deuses", "Fitzcarraldo", "Nosferatu", "O Enigma de Kaspar Hauser" e "Coração de Cristal", para citar alguns, são assim, bálsamo e pimenta ao mesmo tempo.

Já "Cave of Forgotten Dreams", a "caverna dos sonhos esquecidos", foge dos delírios da ficção, apesar de ser tão ou mais incrível. Herzog teve acesso à caverna Chauvet, no sul da França, um dos maiores patrimônios do mundo de arte pré-histórica - lá estão desenhos perfeitamente conservados, feitos há 32 mil anos. A entrada de turistas é proibida e até mesmo o número de pesquisadores é limitado, já que a respiração humana ajuda a deteriorar o material.

nullDepois de muito negociar com o governo francês, Herzog conseguiu permissão para entrar na caverna, na condição de funcionário do Ministério da Cultura, ganhando um euro como remuneração. Era uma forma de recompensar um sonho adolescente. O diretor comentou que seu "despertar intelectual" aconteceu aos 13 anos, ao ver o desenho de um cavalo na capa de um livro sobre a caverna Lascaux, outro sítio histórico francês. Começou a trabalhar recolhendo bolas numa quadra de tênis e só sossegou com o livro nas mãos. "O entusiasmo que tive ao abri-lo me acompanha até hoje", confessou.

Acompanhado de apenas três técnicos, Herzog só podia caminhar por uma passarela de metal de 60 centímetros de largura, já que o solo da caverna permanece intocado há 20 mil anos. Imagine tudo isso carregando um pesado equipamento em 3D, única forma encontrada, segundo o cineasta, para retratar com fidelidade os desenhos, pintados em rochas com profundidade e saliências. "Não sou um grande amigo do 3D, sou bastante cético, mas nesse caso era indispensável", disse ele. "O 3D não será o futuro porque em nossas vidas não vemos assim, nem é confortável para o cérebro."

Documentário e Glauber Rocha

Divulgação
O diretor com membro da equipe na caverna Chauvet
"Cave of Forgotten Dreams" é mais um documentário das dezenas que Herzog dirigiu nas últimas décadas e que ganharam projeção internacional a partir do excelente "Meu Melhor Inimigo" (1999), sobre sua relação tempestuosa com o ator Klaus Kinski. O gênero sempre interessou o cineasta, que se debruçou sobre ele com afinco, deixando a ficção meio de lado. Uma pequena mostra dos documentários do alemão está sendo exibido no Instituto Goethe de São Paulo ( consulte a programação aqui ).

"Hoje somos atacados por novas formas de realidade: as redes sociais, Photoshop, games, efeitos especiais. Como cineastas, temos que achar uma resposta. Estou procurando uma. Não existe objetividade como tentam os documentários que vemos todo dia na TV. O diretor precisa ser um poeta, buscar o êxtase da verdade, ir além dela, atrás de algo que nos ilumine, como Glauber fazia. É esse o cinema que precisamos."

A citação a Glauber Rocha, um dos homenageados do congresso, não é gratuita. Herzog morou algumas semanas com o diretor brasileiro em 1975, durante uma temporada na Universidade de Berkeley, na Califórnia. Os dois conversavam sobre cinema, a Bahia e o sertão. "Sinto muito falta dele [em 2011, lembram-se 30 anos da morte de Glauber]. Seus filmes ficarão para sempre. Apenas um brasileiro é mais intenso do que ele: Garrincha. Mas no nível intelectual, sem dúvida é Glauber."

Outro assunto na pauta da dupla era... caminhar. Segundo Herzog, viajar a pé é um dos principais conselhos para quem pretende ser cineasta. "Três meses caminhando valem mais do que três anos numa escola de cinema", garantiu ele, que escreveu um relato da viagem de mil quilômetros que fez de Munique a Paris no livro "Caminhando no Gelo", publicado no Brasil. Por falar nisso, o diretor acredita que seus livros, ao invés dos filmes, serão seu legado para a posteridade. Difícil de acontecer.

Divulgação
Klaus Kinski em "Fitzcarraldo" (1982): documento falso para filmar no Peru
A ideia de caminhar, segundo Herzog, está relacionada a conhecer a "vida de verdade" e não ver o mundo passar pela janela do carro ou do trem. Suas outras sugestões para jovens diretores seguem essa linha: trabalhar onde há vida (um bordel, um matadouro, ou como segurança de um manicômio) e arranjar US$ 5 mil, valor que já possibilita a produção de um longa-metragem caseiro.

"Quando eu era jovem, câmeras eram caras. Roubei uma e fiz meus primeiros filmes. Aprendam também a arrombar fechaduras e falsificar documentos", aconselhou o diretor, sem medo do politicamente incorreto. Uma autorização supostamente assinada pelo presidente do Peru, cheia de carimbos e caligrafia caprichada, foi, segundo ele, essencial para driblar o exército durante as filmagens de "Fitzcarraldo" nos Andes.

Atualmente, Werner Herzog está filmando e editando o documentário "Death Row", sobre a vida dos presidiários no corredor da morte. O material até agora é tão intenso que, além de render outros quatro episódios além do filme original, fez com que o diretor voltasse a fumar e reduzisse o número de horas trabalhadas por dia, fato raríssimo em sua carreira. Herzog prometeu que o filme chegará ao Brasil, o que não aconteceu com seus trabalhos mais recentes porque ele não teria se envolvido na distribuição.

"Não estava mais no controle disso porque abri mão da produção. Como produtor, gastava 75% do meu tempo em busca de patrocínio, acordos com TVs e coisas assim. O problema é que ninguém em Hollywood conhece a realidade ou tem ideia de que há um mercado aqui, por exemplo, para meus filmes".

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