Wagner Moura não decepciona em "Vips"

Ator alimenta múltiplas personalidades de farsante célebre; filme une entretenimento e sofisticação na medida

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

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Três encarnações diferentes de Wagner Moura em "Vips": camaleão inspirado em fatos reais
Grande vencedor do Festival do Rio , onde conquistou quatro prêmios, "Vips", trabalho de estreia em longa-metragem do diretor publicitário Toniko Melo, é um fruto incomum no cinema brasileiro, assim como os recentes "Reflexões de um Liquidificador" e "Corpos Celestes" . Não só por ser uma parceria bissexta com um estúdio de Hollywood – a Universal Pictures bancou boa parte do orçamento de R$ 8 milhões –, o que lhe garantiu apuro técnico, visual e, na teoria,comunicação fácil com o público, mas também pela história redonda e com perfil pouco explorado no país. A grande vitória do projeto, porém, tem nome e sobrenome: Wagner Moura .

O ator aparece em quase 100% das cenas do filme, inspirado no livro "Vips - Histórias Reais de um Mentiroso", de Mariana Caltabiano, que também dirigiu um documentário sobre o personagem . Hoje na cadeia, Marcelo Nascimento da Rocha era um famoso estelionatário, cujo principal feito foi se passar pelo filho do presidente da companhia aérea Gol num carnaval fora de época de Recife, em 2001, inclusive dando entrevista para Amaury Jr. Os roteiristas Bráulio Mantovani ("Tropa de Elite 1 e 2", "Cidade de Deus") e Thiago Dottori partiram da história real para criar, como enfatizaram à imprensa, uma obra de ficção.

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Juliano Cazarré e Wagner Moura: piloto iniciante
Pinceladas dos fatos até povoam a trama, como o caso em Recife, mas não há nenhum compromisso com a realidade, embora nem o filme ou sua campanha promocional tratem de deixar isso claro. Não é por nada que o verdadeiro Marcelo, além de tentar se promover, já anunciou o desejo de processar os produtores.

A ameaça produz notícias, mas "Vips" passa ao largo da polêmica. No filme, Marcelo é um adolescente confuso no Paraná, que sofre com a ausência do pai. Introvertido, alimenta um perfil emo e sonha em ser piloto. Desde cedo já demonstra talento para imitar os colegas e logo a habilidade se mostra útil quando ele dá vida a uma personalidade camalêonica para compensar suas frustrações. Foge de casa, faz um trambique para arranjar uma passagem e consegue emprego num aeroclube no Mato Grosso do Sul. Sempre com um novo nome, visual e lábia invejável, segue em frente até se envolver com o tráfico, contrabando e, finalmente, encenar a farsa em Pernambuco.

A princípio, tudo sugere que "Vips" é um filme de golpe, com um quê das artimanhas da trupe de "Onze Homens e Um Segredo" e um parentesco em primeiro grau com "Prenda-se Se For Capaz", de Steven Spielberg. Toniko Melo utiliza, sim, ingredientes do gênero, mas aqui as raízes são mais ousadas, profundas. O Marcelo da ficção tem uma forte psicopatia. Seus personagens não são só muleta para conseguir o que ele quer – se transformam em alteregos reais, nos quais acredita piamente. É uma fôrma vazia à procura de identidade. A figura do pai tem sua influência, mas o papel da mãe cabeleireira – interpretada com excelência por Gisele Fróes –, ansiosa para que o filho "seja alguém" na vida, se revela bem mais interessante.

O sucesso dependia do desempenho de Wagner Moura e, como é de praxe, ele não decepciona. Seja como adolescente perdido, piloto marginal, Renato Russo paraguaio ou herdeiro da Gol, o ator se desdobra (são ao menos seis visuais) e convence em toda e qualquer ocasião. Os cabelos e maquiagem ajudam, claro, mas as cenas dramáticas, tensas ou aquelas em que ele apenas se diverte – as referências samurai e o grito de "Tora! Tora! Tora!", por exemplo – transformam o farsante problemático numa pessoa de verdade. Um "tour de force" que, nas mãos certas, parece trivial.

O filme já valeria só por ele, mas há mais a ser visto. Embora o componente policial seja um pouco frágil e o verniz psicológico não esconda uma rachadura aqui e ali, "Vips" é entretenimento de qualidade. A produção da O2 Filmes é prodigiosa, das locações distantes às complexas (e caras) tomadas áreas. A bela trilha sonora de Antonio Pinto ("Senna", "Lula", "O Senhor das Armas"), então, combina música clássica, jazz e programações, num trabalho que tem seus toques de Henry Mancini. Em qualquer filme hollywoodiano tudo isso é mais do que cotidiano, mas no cenário raquítico do audiovisual brasileiro, feito à base das disputadas leis de incentivo, aponta novos rumos para o mercado, de sofisticação técnica e de dramaturgia.

Um dos diretores da série "Som e Fúria", Toniko Melo usa uma curiosa solução visual para ilustrar a identidade dividida de Marcelo - espelhos, imagens fragmentadas e máscaras estão espalhadas ao longo do filme. O passado do cineasta na publicidade fica evidente em alguns exageros, mas não compromete o todo, que tem a função de divertir. É verdade que Melo tinha ambições maiores – cita Sidney Lumet e Paul Thomas Anderson como influências –, mas a puxada de tapete que surpreende o espectador perto do final comprova o norte rumo à tradição do bom cinema comercial, o que não é nenhum demérito. "Vips" une pretensão e despretensão na medida certa. Um produto refinado, pronto para consumo. Assista sem ressalvas.

Wagner Moura fala de "Vips" no Festival do Rio:

Assista ao trailer de "Vips":

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