Uma Noite em 67 é fundamental para MPB

Documentário se torna referência obrigatória para entender música brasileira

Marco Tomazzoni |

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Chico Buarque apresenta "Roda Viva" com o grupo MPB4 no Festival da Música Popular Brasileira
O documentário Uma Noite em 67 leva para os cinemas um dos momentos mais representativos da música brasileira contemporânea. Exibido no Festival de Paulínia, onde foi aclamado pela plateia, e com estreia nesta sexta-feira (30), o filme dirigido por Renato Terra e Ricardo Calil compila imagens da terceira edição do Festival de Música Popular Brasileira, na TV Record, divisor de águas da cultura no país. Depois dele, nossa música nunca mais seria a mesma.

Desde a Jovem Guarda a polêmica sobre a guitarra elétrica esquentava os debates, mas os festivais na televisão ainda eram vistos como terreno estrito à música brasileira “pura”, com instrumentos acústicos, de preferência violão e piano, e artistas em roupa de gala, de vestidos longos a smoking. Chico Buarque era um exemplo perfeito: bonito, bem alinhado e excelente compositor, representava o bom rapaz, o “mocinho”. Os vilões variavam conforme o ano. Em 1967, nada alterava mais os ânimos do que a ameaça do imperialismo norte-americano, e as guitarras escolhidas por Caetano Veloso em “Alegria, Alegria” e Gilberto Gil em “Domingo no Parque” viraram alvo da fúria das torcidas, que beiravam a histeria.

A transformação dos participantes em personagens era um objetivo claro dos organizadores, e aí já começam os méritos do filme. Diante das câmeras, o diretor da TV Record na época, Paulinho Machado de Carvalho, assume que a ideia era fazer apenas um bom programa de televisão, e a divisão entre bons e malvados, natural, como na “luta livre”. O idealizador dos festivais, Solano Ribeiro, pensava da mesma forma: “ninguém tinha noção da importância histórica, sociológica que os festivais teriam depois”.

Aquele era o embrião do tropicalismo, movimento que incorporou o “som universal” à música brasileira. Universal por querer unir, como lembra Gil, Pífaros de Caruaru com Jefferson Airplane, ou berimbau com a guitarra, como fez com Os Mutantes em “Domingo no Parque”. Testemunhar Caetano falando sobre música pop e sua intenção de “assumir todas as formas da cultura massificada” num dos programas com maior audiência do país era o sinal de que, a partir dali, tudo seria possível.

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Gilberto Gil levanta triufante ao fim de "Domingo no Parque", a segunda colocada no festival
Uma Noite em 67 registra os bastidores e o contexto daquela época de forma singela, mas potente – tudo é contado apenas com as imagens de arquivo da Record e, o grande mérito, entrevistas atuais com os protagonistas do evento. Até pessoas ariscas à imprensa, como Chico, comparecem, mas a surpresa maior fica mesmo com o quase eremita Roberto Carlos. Popstar máximo, símbolo do iê-iê-iê, participou do festival com um samba, “Maria, Carnaval e Cinzas”, e lembra no filme seu passado como crooner.

A contraposição feita na montagem entre passado e futuro põe lado a lado artistas inexperientes, com 20 e poucos anos, e os já alquebrados ícones da cultura nacional. Emociona ver Caetano dobrar as vaias para “Alegria, Alegria” e falar da saudade de sua juventude, ou Gil confessar seu medo de se apresentar ao vivo, ou assistir Edu Lobo dizer que praticamente fugiu para a França para escapar do sucesso de “Ponteio”, grande vencedora do festival, cantada com Maria Medalha. Sem contar o prazer que é ouvir Sérgio Ricardo tentar explicar por que espatifou um violão e o jogou para a platéia enfurecida.

Histórias saborosas não faltam – os diretores já comentam que descobriram ter feito uma comédia, tamanho o número de gargalhadas nas projeções –, mas o tom confessional de alguns depoimentos se destaca. Enquanto os baianos optaram por uma carreira transgressora e levaram com eles toda aquela geração, Chico seguiu, quase sozinho, fazendo música brasileira tradicional. “Fui o escolhido para o ser o cara da música conservadora, mas ninguém gosta de ser chamado de velho, ainda mais aos 23 anos”, ele lembra.

Só exibir as músicas – as cinco primeiras colocadas aparecem na íntegra – já seria um feito surpreendente, embora Terra e Calil, em sua estreia como diretores, tenham feito muito mais: criaram um registro praticamente definitivo de um trecho mítico de nossa história, essencial para qualquer um que queira entender a música brasileira. A edição precisa ainda deixa Uma Noite em 67 com o tempo ideal e termina de modo triunfante. Obrigatório.

Assista ao trailer de Uma Noite em 67 :

* o repórter viajou a convite do festival

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