"Uma Longa Viagem" recupera sonho da década de 1960

Em tom confessional, Lúcia Murat usa cartas do irmão para falar de uma geração que aspirava liberdade

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

O documentário "Uma Longa Viagem" estreia nesta sexta-feira (11/05) com um currículo parrudo de vitórias pelo circuito de festivais – ganhou o prêmio da crítica em Paulínia e cinco estatuetas em Gramado , entre elas melhor filme e ator (Caio Blat).

Dirigido por Lúcia Murat ("Maré, Nossa História de Amor", "Quase Dois Irmãos"), "Uma Longa Viagem" traça um painel sobre a geração que sentiu na pele a repressão da ditadura militar e tentou viver intensamente o sonho libertário gestado na década de 1960.

A narrativa se dá através das cartas que o irmão da cineasta, Heitor, enviou enquanto viajava pelo mundo nos anos setenta. Com medo de que ele enveredasse pela rota revolucionária que levou Lúcia para a cadeia, os pais do rapaz pagaram para que ele fosse estudar em Londres. Lá, conheceu gente de vários países, experimentou a psicodelia das drogas e decidiu que iria passar a vida viajando, livre e sem compromissos.

Divulgação
Caio Blat no documentário "Uma Longa Viagem": mistura com ficção
A história é absolutamente confessional. A diretora abre o baú, revela as entranhas da família e presta homenagem ao irmão, Miguel, o mais "centrado" dos três, que não viveu para ver o documentário.

A estrela, no entanto, é Heitor. O roteiro mescla trechos das cartas, dramatizados por Caio Blat, e depoimentos atuais, quando ele tenta domar a esquizofrenia. A fala é lenta, enrolada, e os olhos, esbugalhados, mas o discurso, riquíssimo. Heitor descreve com detalhes e até certa poesia as passagens pela Austrália, Índia, Afeganistão, Califórnia, ilhas paradisíacas e muitos outros lugares.

A empatia com o público surge quase imediatamente e ao longo do filme, a sensação é de intimidade. Heitor funciona como o tio hippie loucão que abusou das drogas, tem amigos de todas as partes e sempre tira do chapéu uma história bacana para contar. Durante a exibiçãp no Festival de Paulínia, as gargalhadas durante a sessão e os aplausos efusivos ao final mostraram que a plateia acompanhou cada momento com atenção.

Assista ao trailer de "Uma Longa Viagem":

Se o humor está presente na maior parte do tempo, o drama não deixa de se mostrar latente nas entrelinhas, ou explícito quando Lúcia fala da ditadura e das internações do irmão em hospitais psiquiátricos. A dor, aí, é praticamente palpável.

Enquanto documentário, "Uma Longa Viagem" tem formato inovador na figura de Caio Blat. Com cigarro ou baseado na mão, cabelos longos e bolsa a tiracolo, o ator transforma as cartas em monólogos sinceros, comprometidos. A diretora também faz com que ele interaja com projeções de filmes da família. Funciona muito bem, tanto dramática quanto visualmente, ao lado de farto material de arquivo e de uma trilha sonora excelente, puxada por "Summertime", de Janis Joplin.

Produzido graças a um edital da TV Brasil, "Uma Grande Viagem" poderia facilmente se transformar numa egotrip, com a cineasta olhando para o próprio umbigo. Ao invés disso, entregou uma obra de arte preciosa, sensível e emocionante. O individual, aqui, serviu para falar da vida de muita gente.

* O repórter viajou a convite do festival

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