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Um corpo estranho no cinema brasileiro

Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo, de Marcelo Gomes e Karim Ainouz, mostra um Brasil sem vergonha de si mesmo

Pedro Alexandre Sanches, especial para o iG Cultura |

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Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo: diretor, personagem e espectador se misturam
É tarefa das mais complicadas escrever sobre Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo , sem tirar do espectador o prazer e os sustos que o filme proporciona. Trata-se de um trabalho diferente da média, e esquisito, nos mais diversos sentidos.

Apenas para início de conversa: da primeira à última cena, o personagem principal do filme jamais aparece na tela. Uma história se desenrola diante do espectador, e é como se a trama fosse vivida não por alguém em especial, mas pela própria câmera que a filma. Ou pela dupla de cineastas que a pilotam, Karim Aïnouz, de Madame Satã (2002) e O Céu de Suely (2006), e Marcelo Gomes, de Cinema, Aspirinas e Urubus (2006). Ou, talvez, por cada um de nós, espectadores que topemos essa estranha aventura de frente.

O personagem que é a câmera que é o cineasta que é o espectador protagoniza um “filme de estrada” – ele é um viajante que trabalha nômade por paisagens áridas e interiores do Nordeste do Brasil, enquanto morre de saudades da mulher amada e de solidão. E o que ele (você, eu etc.) vai vendo diante de si no trajeto tem o efeito incômodo de borrar vários limites do cinema tradicional.

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Cena bucólica no misto de documentário e ficção
Acompanhando essa entidade indefinida, o filme faz ficção, mas constrói também (ou melhor, sobretudo) um documentário, cheio de personagens e situações da dita “vida real”. O roteiro, escrito pela dupla, dá voz a um monólogo interior enfadonho do protagonista, mas os personagens (reais?) que passam pela frente da câmera vão enchendo o texto de vida, variedade e polifonia.

O ouvido musical de Aïnouz se diz presente mais uma vez. Se O Céu de Suely começava com um emocionante tema cafona na voz da cantora Diana, agora a abertura se dá ao som de "Sonhos", com Peninha, no radinho do carro (o que é uma senha entregue de lambuja já na primeira cena, mais deixa isso para lá...). Lairton dos Teclados comparece com seu já clássico "Morango do Nordeste", e Noel Rosa tem participação importante no enredo, com versos do samba bem mais remoto "Último Desejo".

O Brasil capturado pela figura invisível da câmera-diretor-você-eu não tem a menor vergonha de sua música mais popular, menos ainda dos tipos não arianos que não param de encher de vida a cena e a história, de início bastante soturnas. E mais não se pode falar – se é que até aqui já não se falou demais.
P.S.: Talvez ainda se possa acrescentar, sem com isso contar muito sobre início, meio e fim, que Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo é um belo e tocante filme desejoso de demonstrar que a melhor parte de uma viagem não é seu começo, nem seu final, e sim a viagem em si.

Assista a cenas de Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo :

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