Tudo Pode Dar Certo com Woody Allen

40º filme do diretor marca retorno à boa comédia e Nova York

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

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Larry David e Evan Rachel Wood são as estrelas da comédia Tudo Pode Dar Certo, de Woody Allen
Após meia década longe de Nova York, Woody Allen encerrou as convenientes férias na Europa e voltou a sua cidade natal. Com uma oferta tentadora da BBC Films, o diretor voou para Londres em 2005 para rodar o celebrado Match Point e, confortável entre os investidores europeus e os baixos custos de produção, não voltou mais. Tudo Pode Dar Certo ( Whatever Works ), que chega aos cinemas brasileiros nesta sexta-feira (30) com um ano de atraso – como de praxe –, marca o retorno de Allen a Manhattan. Retorno, aliás, que fez muito bem à sua carreira, chegando agora à marca de 40 longas-metragens.

O filme é, sem sombra de dúvida, a melhor comédia do cineasta em mais de dez anos, e isso não é pouca coisa. Aqui, os diálogos fluem inteligentes e ferinos, como sempre, mas o tom é bem mais exagerado, quase bufo. Não por acaso, Woody já afirmou que a ideia original do roteiro seria para uma peça, uma espécie de farsa existencialista. Sim, porque, seja bem na superfície ou escondidas nas piadas, a inquietação e a mágoa de estar vivo, além da eterna pergunta “Por que estamos aqui?”, seguem fortes no trabalho do diretor.

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Woody Allen e Larry David conversam no set
A história, como de costume, é conduzida por um alterego, um pouco mais alquebrado e amargo do que o usual. Escrito originalmente na década de 1970 para o rotundo humorista Zero Mostel – do clássico Primavera para Hitler , de Mel Brooks, a matriz do musical Os Produtores –, o papel ficou nas mãos do franzino Larry David. Criador do seriado Seinfeld e força motriz de Segura a Onda ( Curb Your Enthusiasm ), David vive dizendo que não sabe atuar, assim como Woody reclama que não gosta de atores que atuam. A relação, portanto, não poderia ser mais perfeita e David encara a tarefa como se estivesse indo na padaria. Isso é bom, acredite.

Ele é Boris Yellnikoff, ateu, ex-finalista do prêmio Nobel de Física e atualmente professor de xadrez. Logo nas cenas iniciais, o personagem olha para os espectadores e tasca: “Eu não sou um cara de quem as pessoas gostam. Charme não é minha prioridade”. De fato, a falta de fé no homem (e em qualquer coisa) e o ódio pela mediocridade (e por qualquer coisa) fazem dele quase uma caricatura, pior que os anti-herois interpretados por Woody em Desconstruindo Harry e Igual a Tudo na Vida . Uma tentativa de suicídio mal-sucedida (e engraçada) dá o toque final, perna ruim e bengala. A virada acontece com a aparição da jovem Melody (Evan Rachel Wood, a sra. Marilyn Manson), perdida e faminta na porta de Boris. Vinda do Mississipi, com aquele “adorável” sotaque sulista, ela é, digamos, burra, e isso já serve para os dois se aproximarem.

Como um senhor praticamente na terceira idade e uma garota belíssima acabam se envolvendo já não é mistério, há anos comum na obra do diretor. Essa distância serve para mostrar um Woody Allen estupefato e indignado com a nova geração, e os comentários que ele tece nas entrelinhas, excelentes. Não que algumas situações não sejam batidas, mas como ele deixa isso claro em entrevistas: “Às vezes, um clichê é a melhor forma de provar o ponto de vista de alguém”.

Os personagens dos excepcionais Patricia Clarkson e Ed Begley Jr., pais de Melody, seguem essa ideia, mas as reviravoltas que os dois sofrem ao longo da história, apesar de um pouco absurdas, divertem, talvez por isso mesmo. Woody, aos 74 anos, prova que ainda tem timing perfeito e enfileira gags arrasadoras, sem parar, alternando o tom entre o politicamente incorreto, a inevitabilidade da morte e o humor certeiro, numa Nova York ensolarada. Tinha tudo para dar certo, e deu.

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