"Tron - O Legado" é um emaranhado tecnológico

Confusa, sequência para fantasia da década de 1980 tem belo visual e trilha sonora, mas naufraga na ambição

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

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A chegada de Sam Flynn ao mundo de Tron: imponência e muito neon
A maior aposta da Walt Disney Pictures em 2010, acredite, vem de um fracasso. O estúdio das produções família revirou seu baú e, quase três décadas depois, encontrou no meio de desenhos e fuscas apaixonados uma ficção científica estranha com Jeff Bridges de capacete, ainda garoto, imerso num computador para combater um maléfico programa com sotaque britânico. Sem controlar gastos, a sequência se transformou num dos lançamentos mais esperados da temporada e na maior estreia das festas natalinas.

"Tron - O Legado" entra em cartaz mundialmente nesta sexta-feira (17) e atualiza as corridas de moto e roupas fluorescentes do original para a tecnologia 3D. Um deslumbre para os olhos, sem dúvida, mas o flerte com inteligência artificial e aventura clássica, no fundo, não vai além do que a Disney sempre fez: um filme família.

Muita coisa mudou de 1982 para cá. Na época, computadores pessoais engatinhavam, videogames não passavam de figuras geométricas com muita imaginação e os efeitos especiais no cinema seguiam o mesmo ritmo. Por isso foi corajoso, sem dúvida, produzir uma trama tecnológica, quando pouca gente entendia o que era um programa, e ser pioneiro nos filmes com imagens por computação gráfica. Rudimentar hoje, "Tron - Uma Odisséia Eletrônica" gerou estranheza entre os pais, curiosidade nas crianças e pouco dinheiro nas bilheterias.

O tempo, no entanto, tende a agregar valor e, principalmente, conferir aura cult ao que se perdeu no passado. Uma geração cresceu com "Tron" na cabeça, fascinada por aquele mundo de corridas e batalhas em bits e pixels, e, se não se tornou um fenômeno, manteve um punhado de nerds ansiosos por uma continuação. Ela chegou, finalmente, e não veio sozinha – integram o pacote a trilha sonora composta pelo duo francês Daft Punk , já sucesso de vendas; um jogo, que recebeu quase tanta atenção quanto o filme; uma série de TV derivada; brinquedos na Disneylândia; e, claro, outro filme engatilhado. Tudo para tornar o orçamento de US$ 170 milhões o mais seguro possível. O retorno, não importa a fonte, existirá.

A história recomeça mais ou menos de onde havia parado, burilada para o espectador iniciante não se sentir perdido. Kevin Flynn (Bridges), presidente da empresa de tecnologia Encom, desaparece sem deixar rastros em 1989, pouco depois de prometer revolucionar a humanidade. Seu filho Sam (Garrett Hedlund) cresce como principal herdeiro da empresa e rebelde como o pai – defensor, inclusive, do software livre, ao contrário da malévola diretoria da companhia. Coincidentemente, o rapaz é um hacker apaixonado por motos, capaz de pular de paraquedas do topo de um arranha-céu. Nem é preciso dizer que essas habilidades virão a calhar.

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Corrida de motos de luz: belos efeitos
Amigo de longa data, Alan (Bruce Boxleitner, o Tron do filme original) recebe uma mensagem do fliperama abandonado onde ficava o laboratório de Flynn. Sam, incrédulo, vai até lá conferir e não demora muito para ir parar dentro do sistema operacional. Ao contrário do primeiro "Tron", depois de 15 minutos o novo filme se passa inteiro nas entranhas do computador e deixa o mundo real para trás. O impacto é grande: os sets, construídos de verdade, ao invés de deixar tudo para o CGI, impressionam pela imponência. Amparada pela música orquestral/eletrônica do Daft Punk, a chegada do primeiro Recognizer – ícone de 1982, parente do game "Space Invaders" – deixa claro que a direção de arte (a mesma de "Avatar") gastou bem seu dinheiro.

Pão e circo

Nem tudo é fácil. A ideia de programas de computador em forma humana, usando collants repletos de neon, custa a descer, mesmo tendo o "Tron" original na cabeça. Passada a barreira inicial – é uma fantasia, afinal de contas –, bastaria relaxar e se divertir, certo? Nem isso. A colcha de retalhos que é o roteiro de "O Legado" atira para todo o lado e não ajuda a entender a história. Mas vá lá: Flynn havia sido traído por Clu, seu equivalente digital – interpretado pelo próprio Bridges, rejuvesnecido digitalmente – e vivia isolado à espera de alguém. A seu dispor, a fiel escudeira Quorra (Olivia Wilde, belíssima). O objetivo de Clu é colocar as mãos no disco de dados de Flynn, círculo luminoso nas costas de cada um, e com isso levar seu exército para o mundo real.

O vilão é totalitarista, com estandartes e tudo, e daí vem subtramas com revolucionários, genocídio, inteligência artificial, religião e até uma discussão zen – Jeff Bridges, aliás, coloca em Flynn muito do The Dude de "O Grande Lebowski" (1998), referência que arranca um riso ou outro ao longo da projeção. Mas na maior parte do tempo, curiosamente, o criador daquele universo incorpora caráter messiânico, usando uma espécie de bata até os pés. Tudo isso em meio a corridas de vida ou morte nas motocicletas de luz, batalhas de disco na arena e perseguições com aviões e metralhadoras. O visual do pão e circo eletrônico é excelente, como se esperava, mas não cobre os buracos na história.

É compreensível, portanto, a notícia de que o estreante Joseph Kosinski, diretor famoso por comerciais de videogame, teve que convocar o elenco às pressas para refilmagens durante o processo de montagem. A tentativa de dar profundidade à tradicional relação pai e filho só complicou as coisas, como fica evidente no personagem do galês Michael Sheen, um programa bizarro com cabelos platinados e espírito glam (!), a la David Bowie, dono de uma danceteria que tem o Daft Punk na cabine de DJ. Não precisava – personagens demais, informação de menos.

Ao final, o ambicioso "Tron - O Legado" se revela uma típica aventura hollywoodiana, com muita adrenalina e a genérica busca pela família. Nem mesmo o 3D se destaca: alardeado por ter usado câmeras equipadas com a tecnologia, sem conversão, nenhuma sequência do longa se destaca com os óculos especiais, o que torna a opção pelas cópias tradicionais a mais confortável, inclusive no bolso. Mesmo assim, o reboot da franquia está concluído. Agora, o retorno das bilheterias é quem vai dizer quantas atualizações o filme ganhará no futuro. Se não der certo, a Disneylândia sempre pode render uns trocados.

Assista ao trailer de "Tron - O Legado":

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