"Transeunte" propõe "dança" entre realidade e ficção

Em cartaz no Brasil, filme de Eryk Rocha é "quase um musical"; leia entrevista com o diretor

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

Um homem idoso vaga pelas ruas do Rio de Janeiro, sem destino certo. Nos ouvidos, um radinho de pilha, e nos olhos, uma solidão assombrosa. Praticamente sem diálogos, com ritmo próprio e em preto e branco, o longa-metragem "Transeunte" é a estreia na ficção do diretor Eryk Rocha, herdeiro e filho de Glauber. Premiado em Brasília e no Festival de Cinema Latino-Americano , o filme está em cartaz em circuito limitado no país, com distribuição da Videofilmes.

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O ator Fernando Bezerra em cena de "Transeunte", estreia na ficção do diretor Eryk Rocha
Até então um premiado documentarista (“Rocha que Voa”, “Intervalo Clandestino”, “Pachamama”), Eryk, 33 anos, se deixou contaminar pelo formato em "Transeunte". Ao seguir o protagonista pela capital carioca, não se sabe até que ponto os flagrantes de conversas alheias e a interação com o centro da cidade é ensaiada ou puro acaso.

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Em entrevista ao iG , o diretor reconhece que o filme tem raízes documentais, mas ao mesmo tempo foi pensado com uma base dramatúrgica sólida. Depois de ter a história bem delineada, ele e a roteirista Manuela visitaram o centro do Rio de Janeiro para estudar o dia a dia, as pessoas, conversar.

"O que me instigou a fazer o filme foi essa observação da cidade", afirma. "Quem é aquela pessoa? Para onde vai? Qual é a história desses transeuntes? A solidão, o recomeçar de cada instante, de cada dia. Isso é intrínseco ao ser humano, faz parte de todos nós, independente da idade, sexo, nacionalidade."

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Eryk Rocha no último Festival de Paulínia, onde "Transeunte" foi exibido fora de competição
Descrita como de "muitas descobertas", essa fase transformou a ideia inicial e deu origem à versão final do roteiro. Mesmo assim, o diretor afirma ter percebido que as cenas só funcionariam a partir da relação entre o planejado e o acaso. "A dança do filme surge de uma tensão, confluência entre atores profissionais, figurantes e transeuntes, e a cidade sempre incorporada como espaço cênico."

Quase um musical

Expedito, o personagem principal, vive uma rotina lenta e solitária. Aos 65 anos, frequenta bares, vai ao estádio, consulta médicos, vê o movimento pela janela do apartamento. Apesar da vida fora de casa, não interage com quase ninguém. "A gente nasce sozinho e morre sozinho, então esse aspecto existencial do filme me toca", conta Eryk.

A opção pelo preto e branco surgiu como uma forma de envolver o espectador na história lacunar de Expedito. "O preto e branco potencializa o enigma do personagem, o fato de não sabermos ao certo quem é esse homem, de onde ele vem, para onde vai. Traz o mistério, a crueza e a beleza que eu necessitei para construir a linguagem e a atmosfera do filme."

Se há pouca fala, "Transeunte" é rico em música. De forma indireta, no que Expedito ouve nos fones de ouvido e nas ruas, e explícita, quando assiste a shows populares. Ao longo da narrativa, assume um papel ainda mais importante.

"Eu diria que 'Transeunte' é quase um musical", reconhece o cineasta. "Desde o roteiro tanto a música quanto o som de modo geral já estavam indicados como potência sensorial, narrativa e existencial do filme. A música narra, se relaciona com os sentimentos e as memórias do personagem, fala por ele."

Nesse sentido, foi fundamental a trilha sonora de Fernando Catatau, líder da banda Cidadão Instigado, e a edição de Ava Rocha, irmã de Eryk, também compositora. "Ela tem um ouvido musical bem sensível, então fomos tecendo e descobrindo a melodia, a musicalidade e ritmo do filme na montagem. Isso é determinante numa obra tão sensorial como 'Transeunte'."

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De acordo com o diretor Eryk Roch, a "observação da cidade" o instigou a fazer "Transeunte"
O protagonista é interpretado com sinceridade pelo estreante Fernando Bezerra, vencedor do prêmio de melhor ator no Festival de Brasília. A procura por ele foi fundamental e, segundo o diretor, muito difícil. "Queria um ator desconhecido, sem identificação com o grande público – disso também dependia a construção e a verdade desse personagem. Quando conheci Fernando em São Paulo, senti que o inconsciente do personagem estava pulsando. Em seguida, no teste, quando coloquei a câmera no rosto dele, foi algo contundente: um grande ator, um anjo transiluminado."

Eryk Rocha está atualmente em Cataguases, Minas Gerais, onde participa das filmagens de "Sobre a Neblina", dirigido por sua mãe, Paula Gaitán, como produtor. Além disso, está na fase final de montagem de "Jards", documentário sobre o músico e compositor Jards Macalé que pretende estrear em janeiro.

"Jards Macalé é múltiplo, revolucionário, um dos grandes artistas vivos do Brasil", elogia. "O filme é um musical, o processo de criação de um artista e sua relação com a música. Não é um documentário nem uma cinebiografia – não tem depoimentos. É sobre o instante da criação, sobre repetição, afinação, improvisação." Depois dos cinemas, "Jards" será exibido no Canal Brasil e lançado em DVD pela Biscoito Fino.

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